
Crédito, Getty Images
- Author, Redação
- Role, BBC News Mundo
- Author, Programa "Business Daily"
- Role, Serviço Mundial da BBC
Há 20 minutos
Tempo de leitura: 7 min
Um elástico para o cabelo e meias velhas da sua mãe.
Foi o suficiente para que Shirah Benarde, então com 16 anos, criasse o que hoje é uma marca global de segurança.
Trata-se do Nightcap, um produto idealizado para proteger mulheres vítimas de manipulação das suas bebidas.
Conhecido em inglês como drink spiking e, em português, como "boa noite, Cinderela", o golpe afeta principalmente mulheres jovens.
Muitas vezes, o objetivo é drogá-las para cometer abuso sexual. E as agressões também atingem os homens.
"Tenho muito orgulho de mim mesma com 16 anos, por ter imaginado que este sonho salvaria vidas, pois certamente foi o que aconteceu", destaca a jovem americana ao programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC.
Tudo começou quando uma das suas amigas foi drogada em um bar universitário.
"Quando aconteceu com a minha amiga, pensei: 'Oh, meu Deus, já ouvi falar sobre isso antes, mas nunca havia acontecido com alguém que eu conhecesse'... Eu me senti impotente e disposta a fazer algo a respeito."
Fazer a diferença
Shirah Benarde explica que "o problema do 'boa noite, Cinderela' é que, na maioria das vezes, ele não é denunciado" e que "muitas das vítimas não vão ao hospital".
"Minha amiga não foi ao hospital, mas perdeu a consciência. Ela nunca soube o que haviam dado a ela, pois as substâncias desaparecem do corpo em menos de 72 horas."
"Ela estava bem, entre aspas, pois isso fica com você não só naquela noite, mas pelo resto da vida. Você precisa viver sem saber o que aconteceu", ela conta.
A jovem afirma que o caso da sua amiga mudou totalmente a forma em que ela se sentia ao sair à noite.
"Aquilo me fez perceber que eu deveria ficar mais alerta ao meu redor", relembra ela.
"Pode acontece com qualquer pessoa. Antes, eu não entendia. E, enquanto não acontece com alguém próximo, não ficamos tão preocupados."
"Quando você sai, só quer ter um bom momento", prossegue Benarde.
"E, quando dizem que sua amiga passou por algo assim, é uma sensação muito impactante e desesperadora. Às vezes, você nem está ali para ajudar e isso é muito difícil: não estar presente, não saber o que aconteceu."
"Embora fosse muito jovem, sempre quis ajudar as pessoas, fazer a diferença. E a verdade é que tudo isso [o Nightcap] simplesmente me veio naquele momento", ela conta.
O sonho
Benarde conta que a ideia do protetor de copos, que se tornaria rapidamente um negócio internacional bem sucedido, surgiu para ela em um sonho.
"Algumas semanas depois do que ocorreu com a minha amiga, fui dormir uma noite e a ideia me apareceu em um sonho", recorda ela.
"Quando acordei, corri pela casa, peguei umas meias da minha mãe e um elástico para o cabelo no meu quarto e criei este pequeno Nightcap."

Crédito, Getty Images
"Inventei um elástico para o cabelo que também funciona como protetor de bebidas", explica ela. "É literalmente um laço que você pode levar no pulso ou no cabelo. Eu levo no cabelo o tempo todo."
"É lavável e reutilizável. Você o leva e nunca sabe quando vai querer sair para beber algo, mesmo que seja água. Então, você simplesmente retira a cobertura e aí está."
A jovem explica que o dispositivo é colocado diretamente sobre a bebida e que tem até um furo para o canudo.

Crédito, Redes Sociais
Com a ajuda do seu pai (que teve a ideia do nome Nightcap), Benarde deu início ao incipiente empreendimento.
"No princípio, foi muito divertido, dar pequenos passos e nos divertirmos criando o nome", relembra ela.
"Meu pai era uma pessoa muito sociável e, por isso, ele entrou em contato com uma costureira local e um designer gráfico."
"Começamos aos poucos: a logo, a patente... Na verdade, não sabíamos o que estávamos fazendo naquele momento. Só pensávamos que aquilo poderia salvar vidas, de forma que era preciso tentar. Além disso, eu estava a ponto de ir para a universidade."
Cerca de US$ 12 mil (R$ 60 mil, pela cotação atual), coletados por Benarde com a ajuda de universidades e comunidades locais, mais US$ 18 mil (cerca de R$ 90 mil), obtidos pelo seu irmão junto a familiares e amigos, foram suficientes para iniciar a produção.
A partir daí, o Nightcap começou a receber pedidos de várias partes dos Estados Unidos e ficar conhecido entre os jovens, principalmente através da plataforma TikTok.
Buscando mais financiamento
No ano seguinte, Benarde e seu irmão, outro fundador da empresa, começaram a buscar mais financiamento para aumentar o seu negócio.
Foi assim que eles chegaram ao conhecido programa de TV americano Shark Tank ("Tanque de tubarões", em tradução livre). Nele, empreendedores apresentam seus projetos a investidores milionários.
Em um ambiente de alta pressão, os participantes propõem suas ideias de negócios a quatro pessoas abastadas, com a esperança de conseguir financiamento.
"Olá, Tubarões! Sou Shirah. Tenho 17 anos e este é meu irmão, Michael. Somos da bela West Palm Beach, na Flórida. E estamos aqui buscando US$ 60 mil [cerca de R$ 300 mil] por 20% da nossa empresa", declarou a jovem aos investidores.
"Para mim, com apenas 17 anos, fazer algo tão grande era um sonho que se tornou realidade, especialmente porque havia começado o Nightcap menos um ano antes", ela conta.
"Por isso, poder estar ali era algo que eu, literalmente, sentia que estava sonhando. Parecia surreal, especialmente com tão pouca idade."
E ela teve sorte. Benarde conseguiu US$ 60 mil da investidora Lori Greiner, em troca de 25% do negócio. Foi um dos acordos mais rápidos da história do programa.
Greiner é conhecida como a rainha do canal de compras QVC. Ela criou mais de 1 mil produtos e é dona de mais de 100 patentes.

Crédito, Getty Images
"Lori se interessou pelo Nightcap muito rapidamente", ela conta.
"Acho que ela sabia que a manipulação de bebidas é um grande problema. E ela disse que nunca havia visto algo em Shark Tank que causasse nela um impacto tão profundo."
"Entramos ali resolvendo um problema real sobre o qual muitas pessoas comentam. E Lori, com toda a sua experiência, acho que viu a missão e a paixão por trás da marca e também, espero, se conectou conosco como fundadores, como jovens empreendedores muito motivados."
Nas 48 horas após o acordo com Greiner, Benarde conta que eles ganharam US$ 200 mil (cerca de R$ 1 milhão). Mas havia um problema: não havia estoque suficiente.
"Foi uma loucura", segundo ela.
Por isso, com os US$ 60 mil, Benarde e seu irmão fabricaram centenas de protetores de copos para atender a alta demanda.
No ano seguinte ao programa, as vendas dispararam para mais de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões). E, desde então, o Nightcap já vendeu mais de US$ 3 milhões (cerca de R$ 15 milhões), com lucros anuais em torno de US$ 2 milhões.
A empresa também se valorizou, impulsionada por um investimento de US$ 100 mil (cerca de R$ 500 mil) da cantora e compositora Julia Michaels.
Salvando vidas
Não há uma única estimativa global sobre a adulteração de bebidas, que é muito pouco denunciada. Mas algumas pesquisas demonstram sua magnitude.
Um estudo internacional concluiu que cerca de 2% das pessoas consultadas havia passado por esta situação no último ano e 20% delas em algum momento da vida.
Cabe destacar que esta pesquisa se refere a um público mais jovem e às pessoas que saem à noite. Não existe uma pesquisa nacional nos Estados Unidos, mas estudos universitários indicam que os índices são mais altos entre os jovens adultos.
Em pesquisas realizadas em diversas universidades, cerca de 8% dos estudantes afirmaram terem sido drogados sem consentimento em um único curso acadêmico.
Benarde conta que as experiências dos usuários do seu produto já trouxeram diversas surpresas.
"Algumas pessoas nos disseram que encontraram pastilhas e pó em cima do seu Nightcap, algo que nunca esperávamos que fosse acontecer. Pensávamos que seria um elemento de dissuasão, que ninguém tentaria adulterar sua bebida", explica ela.
"Mas, na verdade, as pessoas, às vezes, não veem que há um protetor no copo em ambientes muito escuros."
"Para nós, isso significa que salvamos a vida de alguém. Só isso já justifica tudo o que fizemos. Saber que isso continua ocorrendo ativamente por aí e que estamos literalmente indo contra essas pessoas."

Crédito, Redes Sociais
Para a empresária, a solução para erradicar este problema é gerar consciência. E, de fato, Shirah Benarde promove ativamente mudanças de legislação em Estados americanos como a Califórnia.
Ela também se associou a várias organizações para fornecer alguns dos seus produtos gratuitamente.
Ouça aqui o episódio do programa de rádio Business Daily, do Serviço Mundial da BBC (em inglês), que deu origem a esta reportagem.

German (DE)
English (US)
Spanish (ES)
French (FR)
Hindi (IN)
Italian (IT)
Portuguese (BR)
Russian (RU)
3 horas atrás
2





:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_59edd422c0c84a879bd37670ae4f538a/internal_photos/bs/2023/l/g/UvNZinRh2puy1SCdeg8w/cb1b14f2-970b-4f5c-a175-75a6c34ef729.jpg)

:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_08fbf48bc0524877943fe86e43087e7a/internal_photos/bs/2024/o/u/v2hqAIQhAxupABJOskKg/1-captura-de-tela-2024-07-19-185812-39009722.png)








Comentários
Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro