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A caixa-preta da influência: ser criador de conteúdo dá dinheiro mesmo?

Isso significa que há dois milhões de pessoas vivendo de dinheiro que ganham com as redes sociais? Não é bem assim. Pelo contrário: é complicado ganhar dinheiro com internet. Desses que estão no Influency.me, só 1,5% declaram ganhar mais de R$ 50 mil por mês. A maioria ganha pouco: 25% diz que recebe R$ 500 e 33% entre R$ 500 e R$ 2.000 mensalmente.

Entre os influenciadores, há também categorias. Desde os nanos —com até 10 mil seguidores— até os gigantes, como a Virginia, que tem mais de 50 milhões de seguidores no Instagram. Esse número pode impactar no lucro com campanhas, mas não necessariamente no faturamento com as redes.

Ser milionário com influência é para poucos. A internet é muito volátil e cheia de efemeridades. Há muitos que lutam todos os dias para manter seus patamares de renda com aquilo que produzem. Poucas são as redes que monetizam com visualizações. Rafael Fontenelle, head de operações e novos negócios da agência MZ Creators

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Imagem: Arte/UOL

O reel do Instagram não paga pela monetização. O TikTok sim

Os números dizem por si: em junho de 2025, Kelvin publicou 160 vídeos —cerca de cinco por dia— no TikTok, plataforma onde tem mais de 600 mil seguidores. Com isso, teve um faturamento de R$ 4.500. Theodoro, por sua vez, tem mais de dois milhões de seguidores na mesma rede. No mesmo período, postou 30 vídeos. Seu lucro com monetização? R$ 5.000.

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Camila Pudim é responsável pelo videos com mais visualizações do TikTok no Brasil
Camila Pudim é responsável pelo videos com mais visualizações do TikTok no Brasil Imagem: Reprodução/Instagram - Arte: UOL

Camila Pudim (@camilapudim) tem um dos vídeos mais assistidos do TikTok: 662,9 milhões de visualizações em um desafio de maquiagem indiana. Sua primeira versão, que passou de 100 milhões de visualizações na época, não monetizou porque tinha 59 segundos —é necessário que o vídeo tenha um minuto para ser classificado para monetização. Ela tentou de novo e deu ainda mais certo, com quase 700 milhões de views. Seu lucro com essa produção? R$ 13.680.

Fátima Pissarra, CEO da agência Mynd, responsável por agenciar nomes como Pequena Lô, Pepita e Mari Maria, e autora do livro "Profissão Influencer: Como Fazer Sucesso Dentro e Fora da Internet" (HarperCollins Brasil), diz que influencers a procuram para ajudá-los em sua carreira já com a certeza que ficarão ricos com a internet, mas a realidade mostra outro cenário.

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Imagem: Arte/UOL

Não existe essa certeza. O sucesso online exige muito trabalho, mais até do que se você fosse funcionário de uma empresa. Tem que levar a sério. Não dá para simplesmente gravar dois vídeos, não viralizar e desistir. Fátima Pissarra, CEO da agência Mynd

O primeiro ganho com internet ninguém esquece. Kelvin pagou sua CNH, e Theodoro levou uma graninha para a conta. "No TikTok deve ter sido uns R$ 1.500 meu primeiro pagamento de monetização, mas me lembro bem da minha primeira publicidade", conta Theo. Ele foi de 100 mil para 800 mil seguidores em oito meses. O engajamento chamou a atenção das marcas, apesar de não revelar detalhes desse seu primeiro contrato.

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Ganhos instáveis

As redes sociais explicam as regras para seus programas de monetização e recompensa. Mas nem todo mundo ganha igual. No TikTok, por exemplo, a visualização de um criador de conteúdo pode valer 1 centavo de dólar para um influenciador e 5 centavos de dólar para outro.

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Imagem: Arte/UOL

Além disso, o valor da remuneração depende do RPM (receita por mil). Esse preço é calculado em cima de quatro fatores: desempenho (taxa média de visualização), valor da pesquisa (quantas pessoas chegaram ao seu vídeo por buscas na rede), a região onde estão assistindo seu vídeo, engajamento na publicação e valor da publicidade (o tempo de visualização do anúncio pelo seu espectador no TikTok).

Segundo o TikTok, o influenciador pode ser remunerado por vídeos com mais de um minuto se tiver mais de 18 anos, pelo menos 10 mil seguidores e, no mínimo, 100 mil visualizações em 30 dias.

Theo começou a gravar vídeos durante a pandemia e viralizou
Theo começou a gravar vídeos durante a pandemia e viralizou Imagem: Reprodução/Instagram - Arte: UOL
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Imagem: Arte/UOL

Também é possível ganhar dinheiro na rede chinesa com inscrições de live (vídeos ao vivo), criando pacote de assinatura para os seguidores, e no programa de afiliados do TikTok Shop, onde se ganha comissão por venda de produtos disponíveis na plataforma.

O Instagram, uma vitrine poderosa para influencers, não monetiza reels. Para fazer dinheiro, há apenas três formas: parcerias pagas, quando o influenciador faz uma publicidade com a marca e deixa sinalizado (o que é lei no Brasil); com presentes, que os seguidores compram para seus criadores preferidos; e por assinatura, quando há conteúdos exclusivos para quem topa pagar por eles.

Outro lugar que remunera criadores é o YouTube. Eles reforçaram que não são uma rede social e, sim, uma plataforma de vídeos. No site, as opções de remuneração são diversas: é possível lucrar com publicidade, YouTube Shopping, Clube dos Canais e outros modelos em que os espectadores pagam para ter suas mensagens destacadas no chat.

O jornalista Allan Simon tem um canal no YouTube com 159 mil inscritos. Na profissão desde 2011, ele começou seu canal em 2019. Segundo ele, por falar sobre futebol, seu faturamento é um pouco menor do que de outros canais. "Via em alguns tutoriais de perfis que tinham 300 mil visualizações por mês ganhando cerca de US$ 1.000, enquanto eu ganhava cerca de US$ 250", conta.

Para ele, para ganhar dinheiro com o YouTube é necessário estratégia. "Você tem que criar uma comunidade, buscar patrocinadores para fazer inserção nos vídeos, e eventualmente abrir um clube de membros para ter mais uma fonte de renda dentro da rede", explica.

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Influenciador é um vendedor

Para Pissarra, tanto o YouTube quanto o TikTok estão de olho na nova forma de ganhar dinheiro como influencers: por links parceiros. Sites como Amazon, Shein e Shopee, por exemplo, já oferecem uma porcentagem do lucro de vendas para quem participa de seus programas de influenciadores. Além disso, a rede chinesa agora tem sua própria loja. Criadores de conteúdo podem divulgar produtos vendidos ali com mais facilidade.

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Imagem: Arte/UOL

Números comprovam essa teoria. Segundo o levantamento da Influency.me, 69% dos usuários de redes sociais já realizaram algum tipo de compra por recomendação de seus criadores de conteúdo preferidos.

Por isso, para a CEO da Mynd, todo influenciador tem que partir da premissa de que é um vendedor, já que resultados de links afiliados podem trazer receita de forma mais imediata. "A afiliação está crescendo muito. Tem perfis com 100 mil seguidores ganhando cerca de R$ 300 mil só de comissão por mês", diz.

Para ganhar dinheiro —mesmo que não seja milhões— é necessário se diversificar. Fontenelle diz que há influenciadores 'menores', que têm entre 100 e 500 mil seguidores, com lucros que variam de R$ 500 a R$ 30 mil. Depende da maneira como se usa a internet.

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"Para ganhar é necessário navegar bem a creator economy (economia do criador, na tradução livre), que envolve publicidade, com contratação de posts e stories, patrocínio de newsletters, podcasts, consultorias, elaboração de coleções assinadas... Tudo isso além da monetização", diz Fontenelle.

Eles acertaram

Se é difícil vingar, só uma coisa pode separar seu conteúdo da massa: a originalidade. Algo que tanto Theodoro quanto Kelvin têm de sobra.

Kelvin viralizou ao falar das vontades que tinha, que eram longe de sua realidade
Kelvin viralizou ao falar das vontades que tinha, que eram longe de sua realidade Imagem: Reprodução/Instagram - Arte: UOL

Para mim, a chave do sucesso é a autenticidade. Sem filtros. Comecei postando vídeos me arrumando, sempre com humor. Mostrando meus defeitos e qualidades. Temos sempre que estar atentos às tendências e em como a mensagem é recebida pelo público. Kelvin, criador de conteúdo

Para melhorar os conteúdos, sua avó até fez um empréstimo para comprar um celular. "Poder conquistar o que tenho, como a CNH que consegui pagar à vista, para um jovem de 18 anos, é muito gratificante", conta. A internet, certamente, mudou sua vida.

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Com o bordão "muito boa tarde", e focado em conteúdos que trazem leveza para os problemas do dia a dia —como trabalho, preguiça de ir à academia, fatura do cartão de crédito—, Theodoro explica que o segredo do sucesso é conseguir gerar identificação com o público.

"A pessoa tem que sentir que você está falando com ela, ter vontade de mandar o conteúdo para as amigas. Isso aumenta a comunidade", explica.

Moral da história? Seu botão de "seguir" vale muito. Use com sabedoria.

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