Renata, de camisa laranja, aparece de perfil sorrindo

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Renata de Brito mora há quase dois anos no Paraguai

Para escolher qual seria sua nova cidade, a gaúcha Renata de Brito, de 44 anos, estudou o comportamento das águas que correm longe do Rio Grande do Sul.

Para onde o rio corre? Onde ele pode transbordar? Qual a chance de uma enchente? Eram perguntas que ela fazia quando decidiu se mudar do Estado (e de país) após as devastadoras enchentes de 2024, que completam dois anos neste fim de abril.

"O que aconteceu me deixou com muito medo. Toda vez que chovia, eu já começava a ficar mal", lembra hoje Renata, sorridente, enquanto vendia cachorro-quente num dia ensolarado na Ciudad del Este, no Paraguai, seu novo país.

Por isso, ela diz se considerar "uma refugiada climática".

Apesar de não ser oficialmente reconhecido pelo direito internacional e não ser utilizado pela Agência das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), o termo é frequentemente usado para se referir a uma pessoa que sai do país ou da região que habita para viver em outro local, devido a riscos relacionados aos efeitos extremos das mudanças climáticas.

Montagem mostra lama e inundação em sítio

Crédito, Renata de Brito/Acervo Pessoal

Legenda da foto, Sítio em Maquiné passou 7 meses fechado em 2023 e sofreu novos danos em 2024

Oceanógrafa e gastrônoma de formação, Renata construiu a vida recebendo hóspedes em um sítio na zona rural de Maquiné, a 130 km de Porto Alegre.

A propriedade às margens do rio Maquiné tinha chalés, galinhas, vaca, ovelhas. Perto dali, pequenas cascatas faziam a alegria dos hóspedes em busca de uma experiência no campo. "Era lindo", lembra. "Eu construí do zero. Nunca imaginei ter que sair de lá."

O primeiro baque foi nas enchentes de junho de 2023, quando um ciclone atingiu o Rio Grande do Sul, deixando 16 mortos. Na época, o então prefeito de Maquiné, João Marcos Bassani dos Santos, chamou atenção nacional ao pedir em tom desesperado para que moradores saíssem de suas casas.

Renata e o marido, Silas, precisaram deixar o sítio e se hospedar na casa de uma vizinha quando o rio transbordou, levando água até a altura do joelho. Ao voltarem, encontraram lama nas casas e estruturas como a da estrebaria destruídas.

O casal pegou quatro empréstimos no banco para tentar reconstruir a propriedade. A reabertura do serviço de hospedagem só foi possível depois de sete meses. "Imagina esse tempo sem renda, tendo que usar uma reserva de emergência, que, graças a Deus, a gente tinha", conta Renata.

Quando as coisas pareciam voltar ao prumo, chegou abril de 2024.

Entre o fim desse mês e maio, as chuvas intensas fizeram o Rio Grande do Sul viver sua maior catástrofe climática da história, com cerca de 2,3 milhões de pessoas afetadas, ou um a cada cinco moradores do Estado.

O governo do Rio Grande do Sul contabilizou 185 mortes e 23 pessoas desaparecidas após as enchentes. No pico das cheias, 581 mil gaúchos ficaram desabrigados. E cerca de 500 famílias ainda vivem em casas temporárias , segundo disse o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD) em balanço dos dois anos da tragédia, na sexta-feira (24/4) .

Cabanas em sítio com área inundada na frente

Crédito, Renata de Brito/Acervo Pessoal

Legenda da foto, 'Construí do zero,' diz Renata sobre hospedagem rural que escolheu deixar para trás no Rio Grande do Sul

Dessa vez, em 2024, Renata e o marido estavam viajando quando as inundações começaram a causar danos em Maquiné. Quando tentaram voltar para casa, as estradas estavam bloqueadas. Os dois precisaram passar uma semana num hotel em Osório, no litoral gaúcho, até conseguir voltar.

Os danos na estrutura no sítio foram menores do que os de 2023, mas o cenário de desolação ao redor mexeu muito mais com o casal. O marido pegou um pequeno barco de pesca e foi até a região metropolitana de Porto Alegre ajudar no resgate de vítimas desalojadas. Ela organizava doações pela internet.

O casal começou a viver o que Renata chama de "incerteza climática": "E se acontecer de novo? Vamos recomeçar outra vez?"

A ansiedade diante de qualquer previsão de tempo fechado sacramentou a decisão de que precisavam deixar o Rio Grande do Sul. A escolha se somou à vontade de ter uma experiência fora do Brasil. Inicialmente, os dois pensaram no vizinho Uruguai. "Mas daí vimos os custos de morar lá", conta Renata sobre um dos países mais caros do mundo.

Vida paraguaia

Renata vende sanduíche

Crédito, Fernando Otto/BBC

Legenda da foto, Gaúcha vende sanduíches na região de Ciudad del Este

Renata e o marido decidiram fazer morada em Hernandarias, no departamento paraguaio de Alto Paraná, a quase 1 mil quilômetros de sua Maquiné natal e vizinha à Hidrelétrica Binacional de Itaipu, na fronteira com o Brasil. E essa escolha não foi por acaso.

"Nós começamos a pesquisar algum lugar para ir que não tivesse esse tipo de situação de cheia ou tivesse muito menos", explica Renata.

"Então, como a cidade fica acima da barragem [de Itaipu], não tem esse perigo de inundação porque, se começa a encher o lago, eles têm que abrir as comportas, então não vai ter enchente ali."

Quando chove em Hernandarias, cidade de 80 mil habitantes na área metropolitana de Ciudad del Este, há registros de alagamentos em ruas por problemas de drenagem na cidade.

Mas os rios não costumam transbordar, já que é comum a Usina Hidrelétrica de Itaipu abrir suas comportas para liberar o excesso de água no reservatório, principalmente após períodos de chuvas intensas na bacia do rio Paraná.

"Mesmo eu sabendo que não vai ter tanto perigo, se vai ter chuva forte, eu já fico tensa", diz Renata.

A escolha por um país vizinho ao Brasil era essencial ao casal, para poder visitar com facilidade o Rio Grande do Sul. Também contaram a favor do Paraguai as informações de amigos sobre um crescimento econômico do país e da pouca burocracia para empreender num negócio.

Renata posa para foto em balcão

Crédito, Renata de Brito/Acervo Pessoal

Legenda da foto, Renata abriu lanchonete em Hernandarias

Renata e o marido abriram uma lanchonete que vende "comida de boteco" e sobremesas, de pastéis a brigadeiros, na Avenida Gastronômica, área de lazer às margens do lago de Itaipu, de onde veem as águas com certa tranquilidade.

A gaúcha também se desloca até locais com grande movimentação de pessoas na vizinha Ciudad del Este, onde vende sanduíches e cachorro-quente.

"Eu já montei minha vidinha aqui e está tão gostoso", celebra Renata, convicta de que vai seguir no Paraguai indefinidamente.

Para ela, sua mudança forçada pelo clima é um exemplo de como os danos de uma tragédia como a do Rio Grande do Sul permanecem naqueles afetados.

"Tem muita gente que esquece a tragédia, como muitos já devem ter esquecido, porque agora já têm outros problemas para se preocuparem," diz.

"Mas ela fica [na gente]."