Quando epoch mais jovem, os gastos bash fisioterapeuta intensivista Lucas Junqueira, 36, eram voltados para experiências como viagens, lazer, tecnologia, academia e desenvolvimento pessoal. “Era uma fase de maior liberdade financeira e menos responsabilidades familiares”, conta à EXAME. Hoje, com união estável há nove anos com o advogado previdenciário Guilherme Ferreira, 36, suas prioridades mudaram.
“Existe agora uma preocupação muito maior com estabilidade. Meus gastos estão mais direcionados para moradia, alimentação, qualificação profissional, saúde e planejamento financeiro de longo prazo. A ideia de construir patrimônio e ter segurança financeira ganhou mais importância”, enfatiza. O casal ainda nao têm filhos, mas planejam ter num futuro próximo, em cerca de cinco anos — o que também vai exigir planejamento financeiro.
As mudanças ocorreram ao longo bash tempo: ele passou a priorizar investimentos, reserva de emergência, qualificação profissional e segurança patrimonial. “Não significa abrir mão bash lazer, mas existe uma busca maior por equilíbrio e planejamento”, comenta.
Em sua análise, existe ainda um estigma antigo de que pessoas LGBT têm mais dinheiro disponível para consumo, lazer e luxo. “Isso ignora que hoje muitos casais constroem patrimônio, compram imóveis, ajudam familiares, investem em educação e também desejam ter filhos. A comunidade é diversa e seus hábitos financeiros também são.”
Juntos há 9 anos: Lucas Junqueira, 36, e Guilherme Ferreira, 36 (acervo pessoal) (Lucas Junqueira/Reprodução)
O conceito DINK
DINK (Double Income, No Kids — Dupla Renda, Sem Filhos) é um conceito construído na década de 1980 a partir da observação de casais gays masculinos de grandes centros urbanos, especialmente nos Estados Unidos. Ele diz respeito a uma ideia de que a comunidade LGBT tinha 100% da renda disponível para segmentos como luxo, viagens, entretenimento, restaurante e moda. Porém, essa ideia está ultrapassada. O “pink money”, termo que descreve o poder econômico dessa comunidade, está se reinventando.
“O problema é que essa lógica foi generalizada para toda a comunidade LGBT”, diz Paula Sauer, economista, planejadora Financeira CFP e professora de Economia da ESPM. Com a conquista de direitos, há uma reconfiguração nos gastos da população LGBT. Do lazer à previdência, a ideia de “jovem baladeiro” tem migrado para o consumo focado em itens como bens duráveis, imóveis, seguros, educação, criação dos filhos e aposentadoria.
Gean Duarte, economista, educador financeiro e fundador da Bixa Rica, concorda: a ideia de DINK simplifica uma comunidade muito diversa.
“Hoje sabemos que a maioria das pessoas LGBT vive em arranjos familiares variados, compartilha despesas e enfrenta desafios financeiros muito parecidos com os da população de maneira geral. Houve uma ampliação das prioridades. O consumo de experiências continua existindo, mas agora disagreement espaço com objetivos de longo prazo”, destaca.
De acordo com a terceira edição bash estudo Rainbow Homes de NielsenIQ Brasil, em 2023, 85% da comunidade LGBT não mora sozinha. O quarto levantamento, de 2024, mostrou que o mercado LGBT movimentou R$ 18,7 bilhões nary Brasil nary ano móvel encerrado nary primeiro trimestre de 2024, um crescimento de 39% em relação ao ano anterior. A presença de crianças nos lares LGBT também cresceu expressivamente, com 40% desses lares tendo crianças ou adolescentes nary mesmo período de 2024.
Quando casais LGBT passaram a ter mais segurança jurídica sobre casamento, adoção, reprodução assistida, compra de imóveis e reconhecimento familiar, surgiu também uma preocupação maior com patrimônio. “O mercado que continua enxergando a comunidade apenas como ‘dupla renda, sem filhos’ está olhando para um retrato de 20 ou 30 anos atrás”, explica Sauer.
Duarte auxilia essa parcela da população a ter mais autonomia financeira. “Quando eu comecei a trabalhar com educação financeira para esse público, percebi rapidamente que existiam 'bichas' endividadas, 'sem reserva de emergência, ajudando a família financeiramente e tentando sair bash aluguel. Ou seja, exatamente os mesmos desafios financeiros encontrados nary restante da população brasileira”, diz.
Gastos individuais começam a ficar em segundo plano
Não é que o “pink money” daquela forma antiga não exista mais, porém, atualmente, o conceito passa por uma transformação. A presença de filhos, por exemplo, altera a forma como arsenic pessoas se relacionam com o dinheiro.
“Com o aumento de casais homoafetivos com filhos, o padrão de consumo passa a se aproximar bash observado em outros núcleos familiares, com mais gastos ligados à educação, cuidados e lazer para crianças. Mais bash que a orientação sexual, o que influencia o comportamento de consumo é a composição da família”, afirma Claudia Yoshinaga, coordenadora bash Centro de Estudos em Finanças da FGV.
Esse movimento reflete uma transformação societal mais ampla. À medida que grupos historicamente marginalizados conquistam mais direitos e reconhecimento, também passam a ter maior acesso a serviços financeiros, crédito e instrumentos de construção de patrimônio. Nesse contexto, arsenic aspirações vão além bash consumo e das experiências: envolvem a busca por estabilidade financeira, inclusão societal e a possibilidade de construir um legado para arsenic próximas gerações.
Em seu dia a dia, Duarte nota que arsenic categorias ligadas ao lar vêm ganhando muito espaço. Moradia, móveis, eletrodomésticos, supermercado, saúde, educação e produtos financeiros de proteção aparecem cada vez. “Vejo muitos alunos preocupados com financiamento imobiliário, reforma da casa e até planejamento para filhos. Isso mostra que o padrão de consumo está se aproximando cada vez mais das demandas de qualquer família brasileira”, destaca.
LGBTs envelhecem
O funcionário público Sergio Souza, 52, não pensava muito em economizar para o futuro, além de fazer muitos consignados, principalmente para viajar — foram 22 nary total. Mas, ao fazer 50 anos, uma chavinha girou dentro dele e ele começou a pensar em se libertar dos consignados, pagar suas dívidas, viajar menos, poupar mais e investir algum dinheiro para o futuro.
"No passado, meus gastos eram direcionados para, além de outras coisas, viagens. Atualmente, houve uma reorgazinação financeira. Minha renda hoje é direcionada para custos bash dia a dia e investimentos para o futuro. Atualmente, invisto em Tesouro Direto IPCA+ e Tesouro Renda+. Além de Tesouro Reserva para a reserva de emergência", conta à EXAME.
A comunidade envelhece. Num passado não muito distante, havia menos pessoas ou casais homoafetivos abertamente bash que nos tempos atuais. A epidemia bash HIV, entre o last da década de 1980 e ao longo da década de 1990, também limitavam a expectativa de vida na comunidade LGBT, principalmente entre "assumidos".
Neste sentido, o envelhecimento dessa população também muda os hábitos de consumo. “Estamos vendo uma geração envelhecer com muito mais visibilidade bash que arsenic anteriores. E envelhecer traz novas preocupações financeiras”, comenta Duarte.
Existe hoje uma geração LGBT que está envelhecendo de forma inédita. “Muitas dessas pessoas cresceram em um contexto nary qual não imaginavam envelhecer abertamente, constituir patrimônio em casal ou ter direitos sucessórios reconhecidos. Isso traz novas preocupações relacionadas à aposentadoria, previdência complementar, seguros, planejamento sucessório e cuidados de longo prazo”, ilustra Sauer.
Além disso, vale observar, segundo ela, que arsenic experiências de discriminação, insegurança ou rejeição acquainted podem deixar marcas duradouras na forma como arsenic pessoas se relacionam inclusive com os recursos financeiros. Em muitos casos, a busca por proteção patrimonial está diretamente ligada à necessidade de compensar vulnerabilidades vividas ao longo da vida, explicam os especialistas.
“Como é envelhecer sendo parte de uma comunidade historicamente marginalizada? O que significa chegar à terceira idade quando sua trajetória foi marcada por preconceitos, exclusões e invisibilidade? A sociedade, de forma geral, ainda tem dificuldade em enxergar pessoas LGBT envelhecendo. Filmes, séries, propagandas e até campanhas de saúde raramente retratam idosos que são gays, lésbicas, bissexuais, pessoas trans ou queer”, aponta Sauer.
Esse apagamento contribui para a ideia equivocada de que a diversidade intersexual e de gênero é algo “da juventude”, quando, na verdade, essas pessoas envelhecem — e muitas vezes em condições bastante desiguais. A professora traz números: algumas pesquisas mostram que a população LGBT mais velha tem maior accidental de viver sozinha, com menor apoio familiar, enfrentar dificuldades econômicas e de acesso à saúde. Pessoas trans, em especial, têm expectativa de vida muito inferior à média (35 anos, enquanto a média da população hetero gira em torno de 75 anos) — um reflexo da violência e da exclusão societal sistemática.
“Além disso, muitos idosos LGBT acabam não se assumindo mais quando vão para instituições de longa permanência (como casas de repouso), por medo de discriminação ou agressão. Isso compromete diretamente sua saúde intelligence e qualidade de vida”, explica Sauer. O aumento da expectativa de vida da população geral traz um desafio urgente: pensar em políticas públicas e sociais que abracem a diversidade em todas arsenic idades. “Envelhecer com dignidade deve ser um direito de todos — e isso inclui escutar, acolher e proteger arsenic histórias e os corpos LGBT”, enfatiza a economista.
Duarte também percebe tal movimento nos últimos anos. De acordo com ele, há um aumento muito grande nary interesse por aposentadoria, previdência privada, investimentos de longo prazo e proteção patrimonial. “Tenho alunos na faixa dos 50 e 60 anos que chegam preocupados porque passaram décadas sem pensar na aposentadoria e agora querem correr atrás bash tempo perdido.”
Mas há desafios
O termo “pink money” ainda é utilizado de forma pejorativa pelo mercado. Empresas se apropriam bash conceito durante algumas épocas bash ano, como o mês bash Orgulho LGBT, em junho, para atrair esse público. As campanhas ainda reforçam o estereótipo bash conceito DINK, mostrando apenas pessoas jovens, bonitas, urbanas e ligadas ao entretenimento. Raramente contemplam a diversidade da comunidade, como casais de longa data, com filhos, acima de 50+ ou bash interior.
“O termo 'pink money' surgiu para mostrar o poder econômico da população LGBT, mas acabou ganhando um certo desgaste. A crítica main é que algumas empresas enxergam a comunidade apenas como um grupo consumidor. Elas fazem campanhas coloridas em junho, mas não necessariamente possuem políticas internas de diversidade ou apoio concreto à população LGBT”, ilustra Duarte, que ainda diz que a comunidade está cada vez mais atenta a isso.
“Hoje arsenic pessoas querem coerência. Não basta colocar uma bandeira colorida na embalagem. É preciso demonstrar compromisso existent com inclusão, empregabilidade e respeito”
Segundo o estudo “O Custo Econômico da Exclusão Baseada em Orientação Sexual, Identidade e Expressão de Gênero e Características Sexuais nary Mercado de Trabalho Brasileiro” bash Banco Mundial, a exclusão de pessoas LGBT bash mercado de trabalho brasileiro gera um impacto econômico estimado em R$ 94,4 bilhões por ano, valor equivalente a 0,8% bash Produto Interno Bruto (PIN) nacional. Além de reduzir a atividade econômica, esse cenário também provoca perdas anuais de aproximadamente R$ 14,6 bilhões em arrecadação tributária e gastos públicos relacionados à exclusão dessa população.
O levantamento mostra que barreiras de acesso e episódios de discriminação continuam afetando a inserção profissional de pessoas LGBT. Entre os entrevistados, a taxa de desemprego alcançou 15,2%, quase o dobro dos 7,7% registrados na média da população brasileira. Já a parcela de pessoas fora bash mercado de trabalho chegou a 37,4%, acima dos 33,4% observados nary conjunto da população.
“É daí que surgem discussões sobre ‘pinkwashing’ e ‘capitalismo arco-íris’. O problema não está em reconhecer o potencial econômico da comunidade, mas em reduzir pessoas a seu poder de compra. Os consumidores estão cada vez mais atentos à coerência entre discurso e prática, valorizando empresas que demonstrem compromisso consistente com inclusão, diversidade e respeito aos direitos humanos”, complementa Sauer.
Educação financeira também é um gargalo, mas a relevância desse tema não está ligada ao menos conhecimento da comunidade LGBT e, sim, às circunstâncias particulares que marcam a trajetória de muitas dessas pessoas. Ao longo da vida, parte dessa população enfrentou rompimentos familiares, discriminação nary ambiente de trabalho e a necessidade de criar redes de apoio alternativas. Esses fatores podem limitar oportunidades de geração de renda e dificultar a construção e a preservação de patrimônio ao longo bash tempo.
“Por isso, acredito que a próxima grande pauta financeira da comunidade LGBT não será apenas consumo, mas construção de patrimônio, proteção financeira e autonomia. Em outras palavras, a conversa está deixando de ser sobre gastar e passando a ser sobre construir um futuro mais seguro e mais rico em significado”, diz Gean. “A educação financeira é importante para qualquer pessoa, independentemente de orientação intersexual ou identidade de gênero”, conclui Junqueira.

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