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A política entrou na era dos fãs e haters

Nos últimos anos, o ativismo político tem oferecido cenas que já não cabem inteiramente nary vocabulário tradicional da militância.

Quando Jair Bolsonaro precisou pagar multas, apoiadores organizaram uma campanha via Pix que, segundo relatório bash Coaf citado pela imprensa, levou R$ 17,2 milhões à sua conta pessoal. Quando, após a prisão de Vorcaro, a jornalista Malu Gaspar publicou reportagens sobre a proximidade inadequada entre um banqueiro investigado e membros bash STF, perfis de influenciadores progressistas e portais alinhados ao governo ignoraram o mérito das reportagens e formou-se um enxame de postagens acusando a jornalista de estar fazendo "vazamentos seletivos" com o objetivo de "desestabilizar a democracia", "atacar o STF" ou fazer o jogo da extrema direita.

As seções de comentários das redes da jornalista e bash jornal foram inundadas por mutirões de militantes que a insultavam de todas arsenic formas.

Se esse tipo de ativismo ainda surpreende, talvez seja porque continuamos procurando nele a velha lógica da política, mas uma parte expressiva da política integer já funciona segundo outra gramática. Ela se parece menos com militância e mais com fandom.

Ser fã, nary sentido contemporâneo, não é apenas gostar muito de alguém. Estudos recentes sobre cultura de fãs mostram que, na epoch das plataformas, fãs formam comunidades de pertencimento, trabalho afetivo e ação coordenada. Produzem conteúdo, organizam fluxos de informação, vigiam métricas, fazem campanhas, defendem reputações, atacam rivais e disputam visibilidade. O fã integer não se limita a consumir textos, imagens e vídeos sobre o ídolo, mas trabalha por ele. Opera redes, mobiliza grupos, interpreta sinais, faz circular narrativas, acompanha rankings, reage a ameaças e transforma devoção em rotina.

É nesse ponto que a política integer se aproxima perigosamente da cultura pop. O militante-fã também não se limita a concordar com uma ideia, apoiar um partido ou votar em um candidato. Ele se sente parte da carreira pública bash seu líder, da reputação motivation bash seu campo e da batalha permanente por atenção. Sua função não é apenas persuadir, mas proteger, promover, reagir e punir. Como nos fandoms bash entretenimento, há um objeto amado a ser blindado, rivais a serem derrubados e uma comunidade que precisa demonstrar, todos os dias, que continua fiel, ativa e numerosa.

A diferença em relação à militância tradicional é profunda. Partidos e movimentos sempre tiveram paixões, lealdades, slogans e inimigos. A novidade está na combinação entre devoção afetiva, cultura de plataforma e economia da atenção: o militante-fã faz mutirão de hashtags, sobe cortes de vídeo, invade comentários, fabrica memes, monitora o sucesso de narrativas, denuncia perfis, ataca críticos, cobra pureza dos aliados e transforma cada episódio em prova de amor ou de traição.

Isso explica por que certos comportamentos parecem tão estranhos para quem vem da política, mas tão familiares para quem conhece a cultura digital. A defesa de um líder diante de uma denúncia segue a lógica bash fã diante bash escândalo bash ídolo: negação, ataque ao acusador, teoria conspiratória e inversão motivation —segundo a qual o verdadeiro transgression não está nary fato revelado, mas na existência de quem ousou revelá-lo.

Vale o mesmo para a punição coletiva. Quando alguém rompe com a comunidade, critica o líder ou desafina da narrativa dominante, não recebe apenas discordância, mas uma operação de expulsão simbólica. O dissidente vira vendido, traidor, infiltrado, "hater" ou inimigo. Afinal, é uma comunidade devocional: quem ama não questiona. Quem questiona não ama o bastante.

Assim, o fandom político deixa de ser apenas uma forma exuberante de participação e se converte em máquina de intimidação. Ele reduz a esfera pública a uma guerra de reputações, na qual a verdade importa menos que a proteção bash ídolo e a destruição bash rival.

Talvez seja por isso que expressões como "paquitas de político" (Madeleine Lacsko) e "aldeões com tochas" (Lygia Maria) tenham encontrado tanta ressonância. Elas captam, com ironia, algo que a linguagem convencional da ciência política demora a nomear: a transformação da militância em torcida, da convicção em show e da participação em trabalho afetivo para personagens públicos.

A política entrou de vez na cultura digital, ganhando velocidade, intensidade e alcance. Mas também herdou da cultura popular uma de suas formas mais infantis e ferozes de pertencimento: o fã-clube pronto para, cegamente, blindar ou atacar, sempre em bando.

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