Pessoas caminhando em uma rua comercial movimentada em Teerã, com uma jovem carregando uma sacola de compras no centro da imagem.

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    • Author, Lyse Doucet
    • Role, Correspondente internacional chefe da BBC, de Teerã
  • Há 7 minutos

  • Tempo de leitura: 8 min

Em um dia ensolarado de primavera em Teerã, a rua Sanaei Ghaznavi, com sua mistura de lojas que vendem mantimentos e artigos para o lar, além de fast-food e flores, parece um lugar comum.

Em um país onde as vidas são há muito tempo afetadas por crises, é um retrato de um povo que apenas tenta sobreviver ao dia a dia enquanto seu futuro depende de forças além de seu controle.

Para Mohammad, que veste camiseta e jeans, até mesmo abrir a marquise listrada da sapataria de sua família é um ato de esperança.

"Fico feliz em estar aqui", ele nos diz quando entramos em sua pequena loja, repleta de prateleiras cheias de tênis. "Tantas pessoas perderam seus empregos e estão desempregadas."

Na loja, há poucos clientes.

"Tínhamos tantos antes", lamenta de forma melancólica o pai de Mohammad, Mustafa, enquanto explica com orgulho que o negócio de sapatos está em sua família há 40 anos.

Segundo o site iraniano Asr-e Iran, uma estimativa não oficial indica que até 4 milhões de empregos podem ter sido perdidos ou afetados pelo efeito combinado da guerra com os Estados Unidos e Israel e do bloqueio quase total da internet imposto pelo governo no Irã.

Um homem passa e uma mulher lava a calçada com uma mangueira em frente a um pequeno restaurante em Teerã.

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Caixas com logotipos ocidentais como New Balance e Clarks, se destacam nas prateleiras abarrotadas da loja. "Fabricado na China", observam pai e filho, com naturalidade. "Até as falsificações são caras no Irã", acrescenta Mohammad.

Em um primeiro momento, esperava que eles expressassem apoio ao frágil cessar-fogo ou dissessem que gostariam de ver as negociações com os Estados Unidos se tornarem bem-sucedidas, para que pudessem importar os produtos autênticos e as últimas tendências em calçados.

"Esperamos que a guerra recomece", declara Mohammad ao invés disso, abrindo um sorriso irônico. O pai olha para o filho de 27 anos com um olhar compreensivo. "Olha meus cabelos grisalhos, eu entendo mais do que ele."

"Estamos cansados ​​de viver com uma economia que só piora", diz Mustafa. "Algumas pessoas acreditam que, se a guerra voltar, as coisas acabarão melhorando drasticamente."

Do lado de fora da mercearia da esquina, Shahla, uma senhora idosa usando um lenço claro na cabeça, equilibra um pão em uma prancheta, onde também guarda sua lista de compras e um maço de notas.

Ela para abruptamente ao nos ver passar e compartilha seus pensamentos.

"As pessoas estão pagando três vezes mais por um pão agora", lamenta ela, com os dedos repousando sobre as fatias brancas e macias dentro da embalagem plástica. "As pessoas estão passando por um inferno só para comprar pão."

Um grupo de mulheres caminhando por uma rua em Teerã.

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Ela olha para a rua arborizada no centro de Teerã, que fica a meio caminho entre o norte abastado, com suas lojas reluzentes e cafés elegantes, e o sul mais pobre e conservador.

"Para quem tem boa condição financeira, tudo bem, mas não para os trabalhadores que ganham pouco", explica Shahla.

Pergunto qual é a mensagem dela para as autoridades envolvidas nas negociações sobre a guerra.

"Parem com isso, já chega", declara ela. "Não acho que algo de bom vá resultar disso para nós, porque Trump só está ameaçando as pessoas."

Enquanto ela se apressa para terminar as compras, um jovem passa carregando um pequeno frasco de vidro com uma pasta verde.

"É manteiga de valak", diz ele, usando a palavra persa para alho-bravo, uma planta que cresce aos pés das montanhas nevadas de Alborz, ao norte do país. "Eu mesmo fiz."

"Estamos apenas tentando viver nossas vidas, fazendo coisas para aproveitar", explica o arquiteto e professor de 45 anos.

Ele não quer se envolver na política "supercomplicada" do Irã e da região em geral, nem em previsões sobre o que pode acontecer a seguir.

Mas ele expressa sua frustração por não conseguir acessar um site de traduções enquanto lia um livro devido ao bloqueio digital, que já está em vigor há mais de 50 dias.

Até mesmo o ministro das Comunicações do Irã, Sattar Hashemi, pediu recentemente o fim da proibição, destacando que cerca de 10 milhões de pessoas, principalmente das classes média e baixa, dependem da conectividade digital para o trabalho. Segundo ele, o acesso à internet seria um "direito público".

As restrições estão sendo flexibilizadas lenta e seletivamente – embora a mensagem das autoridades de segurança seja de que elas permanecerão em vigor enquanto persistirem as "ameaças inimigas".

Dois adultos e uma criança pequena caminham por uma rua de Teerã adornada com murais pró-governo.

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A segurança aumentou visivelmente. Sentimos isso também na rua onde conversamos com os moradores de Teerã.

A segurança à paisana — dos voluntários paramilitares Basij ou da Guarda Revolucionária Islâmica — está por toda parte agora.

A uma curta distância de carro, na Praça Ferdowsi, alguns veículos blindados pretos imponentes, ladeados por homens armados e uniformizados, transmitem uma mensagem ainda mais contundente.

Assim como esta rua, aquela praça também leva o nome de um poeta persa muito querido.

Pergunto ao arquiteto qual mudança faria uma grande diferença em sua vida.

"Liberdade", é sua resposta rápida e firme. "Liberdade de pensamento e liberdade para ter um futuro."

Mais adiante na rua, um café popular está lotado de clientes esperando para comprar seus famosos sanduíches grelhados e café gelado. Mesmo nesta crise, a cultura dos cafés de Teerã sobrevive.

Uma fileira de bancos no balcão, junto a uma janela ampla, oferece aos clientes um lugar privilegiado para observar o movimento da rua.

Nesta cidade, os contrastes são gritantes. Mulheres com lenços na cabeça e casacos compridos dividem a calçada com grupos de jovens, homens e mulheres, de calças jeans largas, com piercings e tatuagens.

Um livreiro dispõe centenas de livros à beira de uma estrada em Teerã enquanto as pessoas passam.

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Muitas mulheres, jovens e idosas já não cumprem as leis que ditam que se vistam "modestamente" e cubram a cabeça, um legado dos protestos "Mulheres, Vida, Liberdade" que varreram o Irã há alguns anos - e, como todos os protestos, foram reprimidos com força letal.

Pequenas manifestações contra o aumento do custo de vida no final de 2025 transformaram-se em uma onda nacional de protestos antigovernamentais no início deste ano, com milhares de mortos na repressão policial resultante.

A guerra recente está na mente de Ali enquanto ele fuma cigarros Napoli importados com um amigo.

Sua irmã, de cabelo curto e óculos turquesa da moda, se junta a eles.

"Foi assustador durante a guerra", conta Ali. "Nos sentimos sozinhos. Nossas famílias estavam em outras cidades iranianas e não conseguíamos contatá-las."

As perspectivas para o futuro deles também são assustadoras. Sua irmã nos conta que acabou de pedir demissão do emprego de chef porque o dono do restaurante disse que não poderia mais pagar seu salário.

"Eu amo o presidente Tump e odeio o presidente Trump", anuncia Ali. "Eu o amo porque ele disse que ajudaria o povo do Irã. Eu o odeio porque ele não ajudou."

Ao pôr do sol, dirigimos até uma das muitas praças próximas onde apoiadores do governo têm se reunido todas as noites em resposta ao apelo de seus novos líderes para demonstrarem desafio e solidariedade.

Na Praça Vali-e Asr, há uma profusão de bandeiras iranianas tendo como pano de fundo um novo e imponente mural do ex-líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, assassinado por ataques aéreos israelenses nas primeiras horas da guerra, em 28 de fevereiro.

Um grande mural retratando o falecido aiatolá Ali Khamenei está pendurado em uma movimentada rua comercial.

Esta noite, fileiras de cadeiras que se estendem por este espaço estão ocupadas para um debate ao ar livre. Entre os temas discutidos, um debate sobre se o falecido líder havia aprovado negociações com os Estados Unidos.

Uma mulher, com o rosto coberto por um véu preto e uma bandeira drapeada sobre os ombros, levanta-se de sua cadeira e contesta veementemente o moderador no palco, que havia informado a multidão que o falecido aiatolá se opôs às negociações com o inimigo, mas depois as aprovou.

"As coisas eram diferentes naquela época", gritou ela, enfatizando que o falecido líder nunca confiou no Ocidente e sabia que seus negociadores estariam errados.

Pouco tempo depois, o assunto muda. Outra mulher pega o microfone e destaca a importância do hijab — o véu que cobre a cabeça das mulheres.

"Mas não devemos ser tão duros com aqueles que não querem usá-lo. Acho que este é um momento que exige união nacional", aconselha ela, num sinal inesperado de abertura.

Uma jovem, também de preto e carregando uma bandeira, aproxima-se de nós para declarar em inglês: "Só negociamos com o presidente Trump a partir da nossa posição de força."

Reyhaneh, de 19 anos, que estuda microbiologia na Universidade de Teerã, também segura uma fotografia do novo líder supremo, Mojtaba Khamenei.

Ela desconversa quando pergunto sobre o fato de ele não ter sido visto em público desde que ele foi gravemente ferido no ataque que matou seu pai.

"Tudo está em suas mãos agora, e no futuro também", insiste ela.

Ao sairmos da praça, ouvimos um rugido repentino.

Um comboio de mulás de turbantes brancos e pretos, em trajes camuflados e com armas presas ao peito, passa rugindo em um desfile de motocicletas — outro momento surpreendente desta noite.

Homens armados em motocicletas agitando bandeiras iranianas no centro de Teerã.

Nossa jornada nos leva novamente pela rua Sanaei Ghaznavi.

Às 22h30 desta noite quente de primavera, pequenos grupos de jovens ainda estão reunidos perto do restaurante de fast food e do café do outro lado da rua.

Avistamos Mustafa, o vendedor de sapatos, na calçada em frente à sua loja bem iluminada, conversando com alguns amigos.

Havia muitos clientes hoje?

"Não muitos", diz ele, dando de ombros. "Só queremos que esta guerra acabe."

A correspondente internacional chefe da BBC, Lyse Doucet, está reportando de Teerã sob a condição de que nenhum de seus materiais seja utilizado pelo serviço em língua persa da BBC. Essas restrições se aplicam a todas as organizações de mídia internacionais que operam no Irã.