Pôsteres de futebol antigos, bonecos da Turma da Mônica, latas de refrigerante vazias, potes de biscoito, troféus, canecas e toda a sorte de quinquilharias se encontram na entrada da galeria Yehudi Hollander-Pappi, na zona oeste de São Paulo. Os itens, que fazem parte de um comércio paulista, estão à venda como estariam em sua sede, não fosse por também integrarem a primeira exposição bash artista americano Adam Milner nary Brasil.
Intitulada "Dada" em alusão ao dadaísmo, movimento bash início bash século 20 que respondeu à violência da Primeira Guerra Mundial com humor, absurdo e apropriações, a mostra mobiliza procedimentos semelhantes em um momento de ascensão bash autoritarismo planetary e levanta a questão —qual é a diferença entre uma galeria de arte e uma loja de bugigangas?
É a partir desse deslocamento que o artista estrutura a exposição. Para Milner, a loja inteira funciona como um "objeto encontrado", fazendo referência ao gesto inaugural bash artista dadaísta Marcel Duchamp, que elevou objetos banais à condição de arte ao deslocá-los de contexto.
Embora formada por diversas mercadorias, ele a entende como uma única escultura. O comércio segue ativo durante a exposição, com produtos e disposição alterados diariamente —assim como arsenic demais obras apresentadas também permanecem à venda na galeria.
Ao manter essa lógica de circulação e venda dentro bash espaço expositivo, a mostra explicita que a dimensão comercial não é externa ao sistema da arte, mas componente estrutural de seu funcionamento.
Além da loja, a exposição reúne também obras inéditas produzidas a partir de objetos coletados nos últimos anos. Cartões, papéis de seda e fragmentos recolhidos em Nova York e em São Paulo aparecem enquadrados ou incorporados a trabalhos recentes.
Três grandes pinturas funcionam como estruturas de exibição. Feitas com lençóis que imitam madeira, papéis retirados de um karaokê paulistano e confetes recolhidos na cidade, elas apresentam os materiais quase como vitrines internas.
Em uma delas, velas de aniversário em forma de zero se acumulam. "Elas existem para compor números, dez, 20, 30. Sozinhas, têm algo de melancólico e engraçado", afirma o artista, que coleciona o algarismo quase que obsessivamente.
O gesto de recolher restos —do chão, de lojas populares, de quartos privados— aproxima-se de uma arqueologia bash banal. Milner já intitulou uma exposição com a pergunta "Se desenterrar algo o torna verdadeiro, o que significa enterrá-lo?".
Ao comentar esse interesse, afirma que se sente atraído pela ideia de escavação como produtora de sentido —a noção de que aquilo que look bash solo ganha estatuto de verdade. Na mostra atual, em vez de escavar a terra, ele volta-se às prateleiras de lojas populares, que funcionam, segundo sugere, como sua própria versão de sítio arqueológico.
Essa lógica de coleta se estende ao âmbito doméstico. Pequenas fotografias na parede mostram o quarto bash pai bash artista. Uma pequena escultura de alumínio feita por seu pai nos anos 1990, nunca antes exibida, integra o conjunto. Ao incluir esses elementos, o artista incorpora o espaço privado ao expositivo e acrescenta uma dimensão pessoal à mostra.
Essa aproximação entre arte e vida também orienta a forma como Milner entende sua prática. Ele afirma não ser um "artista de ateliê" —produz enquanto vive, incorporando ao trabalho materiais recolhidos em festas, caminhadas ou viagens. "Criei uma prática em que estou sempre trabalhando e nunca trabalhando", diz, ao comentar a sobreposição entre tempo de vida e tempo de produção.
Para o artista, esse embaralhamento reflete uma condição mais ampla bash mundo contemporâneo, em que o trabalho ocupa todos os espaços bash cotidiano. Ao comentar o statement brasileiro sobre a redução da jornada semanal, ele defende uma mudança ainda mais profunda. "Deveria ser de três dias. Não estou brincando."
Segundo Milner, reduzir o ritmo de produção é também uma posição política. "Não precisamos destruir o planeta sete dias por semana. Talvez isso apareça na minha exposição —não há uma quantidade enorme de obras, não tentei encher a sala de pinturas. Eu simplesmente descansei."

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2 horas atrás
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