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Alta dos combustíveis se manterá mesmo com fim da guerra e já ameaça voos

Desde janeiro, o querosene de aviação acumula alta de 54,5%. Após os sucessivos aumentos, em junho a Petrobras reduziu o combustível em 14,2% a partir do dia 1º, reflexo da mudança nos preços mundiais.

Antes do começo do conflito no Oriente Médio, cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás passava pelo Estreito de Hormuz.

Diante desse cenário, empresas já passaram a mudar suas rotas, optando por abandonar trechos menos lucrativos, por exemplo.

Problema é o preço, não a oferta

A crise no Oriente Médio elevou os custos do setor aéreo, mas não deve provocar uma escassez global de combustível para aviação, segundo a Iata.

"O desafio é o custo do combustível, não sua disponibilidade", afirmou o diretor-geral da entidade, Willie Walsh. Segundo ele, os temores de falta de querosene de aviação, o combustível usado nos aviões, diminuíram nas últimas semanas à medida que refinarias em diferentes regiões ampliaram a produção para compensar as perdas registradas no Oriente Médio.

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Na avaliação do executivo, o mercado global conseguiu reagir rapidamente às interrupções provocadas pelo conflito, reduzindo o risco de problemas de abastecimento para as companhias aéreas. Embora a situação continue sendo monitorada, a preocupação da indústria deixou de estar concentrada na oferta física do combustível e passou a se concentrar em seu impacto financeiro.

Walsh ressaltou que a alta do petróleo inevitavelmente pressiona os custos das empresas aéreas e acaba chegando ao consumidor. "Quando o preço do combustível aumenta, isso se reflete no custo das passagens", afirmou.

A Iata estima que as companhias aéreas gastarão cerca de US$ 350 bilhões (R$ 1,8 trilhão) com combustível neste ano, o equivalente a aproximadamente 31% de todos os custos operacionais do setor. O valor representa uma das maiores despesas da indústria e ajuda a explicar por que a evolução dos preços da energia continua sendo acompanhada com atenção pelas empresas aéreas em todo o mundo.

Mesmo sem guerra, preços se mantêm

Para Roberto Alvo, CEO do grupo Latam, a alta dos combustíveis provocada pelo conflito no Oriente Médio não deve ser passageira. "Mesmo que o conflito terminasse hoje, provavelmente ainda veríamos preços mais altos por algum tempo", afirmou o executivo, ao citar a necessidade de recomposição dos estoques utilizados para abastecer os mercados durante a crise no evento.

Segundo Alvo, o setor aéreo já começou a se adaptar ao novo cenário, com revisões operacionais para preservar a rentabilidade. "É normal ver ajustes de capacidade", disse. Na avaliação dele, se os preços permanecerem elevados até 2027, a indústria poderá passar por um reequilíbrio mais amplo da oferta de voos para restabelecer o equilíbrio econômico das companhias.

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Apesar da pressão sobre os custos, o executivo afirmou que a demanda por viagens continua resiliente. "Não vimos impacto na demanda, mesmo com a situação atual. A crise dos combustíveis não a afetou", declarou. Segundo ele, a aviação tem histórico de adaptação rápida a períodos de alta nos preços da energia e tende a absorver os efeitos do novo cenário.

Passagens mais caras por meses

Para Kamil Alawadhi, vice-presidente regional da Iata para a África e o Oriente Médio, o aumento dos preços dos combustíveis já pressiona os custos das companhias aéreas e tende a manter as passagens em patamares elevados nos próximos meses.

"O combustível representa hoje entre 30% e 40% dos custos de uma companhia aérea", afirmou. Segundo ele, quando há uma disparada repentina nos preços, as empresas enfrentam dificuldades porque muitas passagens já foram vendidas com antecedência. "As companhias vendem bilhetes 30, 60 ou 90 dias antes. Quando o combustível sobe de repente, elas acabam operando esses voos com grande prejuízo."

Alawadhi disse que as empresas não têm alternativa senão repassar parte do aumento aos passageiros. "A companhia não quer transferir esse custo porque gostaria de vender todos os assentos, mas precisa fazê-lo para não perder dinheiro", afirmou. Na avaliação do executivo, os preços das passagens devem permanecer elevados por vários meses enquanto os combustíveis continuarem pressionados pela instabilidade geopolítica e por problemas de abastecimento em algumas regiões.

Combustível caro afeta toda a economia

O aumento dos preços dos combustíveis já afeta a oferta de voos e pode gerar impactos em diversos setores da economia, segundo John Rodgerson, CEO da Azul Linhas Aéreas. O executivo afirmou que o custo do querosene de aviação no Brasil já era um dos mais elevados do mundo e voltou a subir fortemente nos últimos meses após sucessivos aumentos da Petrobras.

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"O preço do combustível no Brasil é o mais alto do mundo e dobrou. Já era mais alto e agora dobrou nos últimos três meses [desde o início dos ataques dos EUA ao Irã]", disse. Segundo ele, o aumento dos custos pressiona diretamente as operações das companhias aéreas e influencia a quantidade de voos disponíveis no mercado.

Rodgerson afirmou que o encarecimento do transporte aéreo produz efeitos que vão além das empresas do setor. "Se 1 milhão de passageiros está viajando menos por causa do combustível, isso é 1 milhão de pessoas a menos usando Uber, táxi, pousada, praia e restaurantes", afirmou. Na avaliação dele, a redução da conectividade afeta especialmente regiões mais dependentes do turismo e do transporte aéreo.

O executivo também disse que a alta dos combustíveis tende a elevar custos logísticos e pressionar atividades como o comércio eletrônico. "Para mandar um pacote que custava R$ 10, por exemplo, agora vai ter que custar mais. Isso impacta a inflação e o país inteiro", declarou. Apesar do cenário, ele afirmou que os planos de incorporação de novas aeronaves pela Azul estão mantidos e que a companhia seguirá avaliando a demanda para ajustar sua operação quando necessário.

A Latam prevê uma redução de aproximadamente 3% em sua capacidade de transporte para o mês de julho. Isso se deve justamente ao aumento no custo dos combustíveis.

Modelo de preços no Brasil é questionado

Embora o Brasil produza a maior parte do querosene de aviação consumido no país, especialistas afirmam que as companhias aéreas continuam expostas às oscilações do mercado internacional.

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Segundo Eleanor Budds, economista da consultoria S&P Global Commodity Insights, mesmo países menos dependentes de importações acabam sendo afetados pela alta global dos combustíveis porque os derivados de petróleo são precificados com base em referências internacionais. "Países que produzem a maior parte de seus combustíveis localmente ainda estão expostos às altas do mercado internacional porque os produtos são precificados em bases globais", afirmou.

O diretor de combustíveis da Iata, Hemant Mistry, foi além e questionou a forma como o querosene de aviação é precificado no Brasil. Segundo ele, o combustível continua sendo calculado como se fosse integralmente importado da Costa do Golfo dos Estados Unidos, mesmo com a produção nacional atendendo a maior parte da demanda.

"Há uma taxa de transporte incorporada ao preço de todo o combustível vendido no Brasil, embora cerca de 86% do produto seja fornecido localmente", afirmou Mistry. Para ele, esse custo adicional imposto às companhias aéreas "not é justificável" e o modelo de precificação deveria ser revisto.

A avaliação reforça críticas feitas por executivos de companhias aéreas brasileiras, que argumentam que a alta do querosene tem impacto direto sobre a oferta de voos e o preço das passagens.

*O colunista viajou a convite da Iata

Reportagem

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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