Multidão de pessoas atravessando a rua em um cruzamento.

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Legenda da foto, Com o turismo global a caminho de atingir 1,8 bilhão de deslocamentos ao ano, diversos destinos turísticos vêm testando novas e controversas medidas para controlar as multidões
    • Author, Lindsey Galloway
    • Role, BBC Travel
  • Há 1 minuto

  • Tempo de leitura: 9 min

As cerejeiras continuam florescendo perto do monte Fuji, no Japão. E os turistas continuam chegando para observá-las.

Mas, neste ano, não haverá o festival anual.

Autoridades da cidade de Fujiyoshida, no Japão, cancelaram a celebração anual da sakura (as flores de cerejeira). O motivo foram as reclamações dos moradores locais.

Eles denunciaram que os visitantes jogavam lixo, invadiam jardins e chegavam a entrar em residências particulares.

O festival costumava atrair 200 mil visitantes para a cidade, que tem população estimada em 44 mil moradores.

O cancelamento é o mais recente sinal de que, enquanto o turismo global atinge recordes de alta, a paciência dos moradores dos destinos mais populares está acabando.

Em 2025, o Japão recebeu cerca de 43 milhões de visitantes, o maior número da sua história.

Paralelamente, a Europa recebeu mais da metade dos voos internacionais, estimados em 1,5 bilhão. As projeções indicam que este número deve atingir 1,8 bilhão em 2030 e os governos lutam para gerenciar as pressões.

Alguns países vêm tomando medidas que teriam parecido extremas poucos anos atrás.

Elas incluem o controle das multidões por inteligência artificial, construção de barreiras físicas e a cobrança de ingressos pelo triplo do valor para estrangeiros, além do cancelamento de festivais famosos, como o de Fujiyoshida.

Muitos desses países desejam continuar recebendo visitantes. Eles simplesmente querem que os turistas fiquem mais espalhados, se comportem melhor ou façam suas visitas em outras épocas do ano.

A BBC conversou com conselhos de turismo e líderes do setor em diversos países, para saber quais medidas assertivas estão sendo tomadas para tentar reduzir os problemas gerados pelo turismo excessivo.

Japão: bloqueios e restrições

O cancelamento do festival das flores de cerejeira não foi a primeira medida tomada pelo Japão para gerenciar o excesso de turistas.

Em 2024, a cidade de Fujikawaguchiko construiu uma barreira física para bloquear um ponto popular para fotos do monte Fuji. A medida foi uma tentativa de evitar que os visitantes continuassem subindo nos telhados, ignorando os guardas e as normas de segurança.

Pagode cercado de cerejeiras em flor, com o monte Fuji ao fundo, em Fujiyoshida, no Japão

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Legenda da foto, A cidade japonesa de Fujiyoshida costumava receber 200 mil visitantes durante o festival anual das cerejeiras em flor, que foi cancelado em 2026 devido ao mau comportamento dos turistas

Kyoto também luta há muito tempo contra as aglomerações.

A cidade proibiu que as pessoas fotografassem as gueixas e restringiu o acesso a certas alamedas do distrito histórico de Gion, um dos pontos mais populares entre os visitantes.

Recentemente, Kyoto também recorreu à tecnologia, lançando ferramentas digitais de gerenciamento de multidões. O objetivo é tentar trabalhar em conjunto com os turistas, de forma mais sustentável.

Intitulada Previsão de Congestionamentos, a nova ferramenta prevê os melhores dias e horários para visitar os locais mais importantes.

Paralelamente, o aplicativo Smart Navi fornece atualizações em tempo real sobre os níveis de aglomeração; a iniciativa Hidden Gems ("Joias escondidas") promove seis distritos mais calmos, longe dos templos famosos; e Hands Free Kyoto ("Mãos livres") oferece aos visitantes serviços de transporte e armazenamento de bagagem, para reduzir as aglomerações no transporte público.

Trabalhador instala uma barreira em local usado pelos turistas para fotografar o monte Fuji, no Japão

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Legenda da foto, A instalação de uma grande barreira para bloquear uma vista simbólica do monte Fuji chegou às manchetes em 2024

"Não existe uma bala de prata para o turismo excessivo, mas pretendemos continuar implementando medidas para proteger o dia a dia dos cidadãos, garantindo, ao mesmo tempo, que os visitantes possam ter uma estadia confortável", afirma o gerente da Divisão de Promoção do Turismo Sustentável de Kyoto, Kousaku Ono.

As operadoras de turismo também estão se ajustando à situação atual.

A operadora Inside Travel Group, voltada para o desenvolvimento socioambiental, alterou deliberadamente o seu foco em relação ao Japão para cinco regiões pouco visitadas: Toyama, Nagoya, Nagasaki, Aomori e Yamaguchi.

"O turismo excessivo é uma das maiores ameaças enfrentadas pelo futuro do setor de viagens, que precisa enfrentá-lo de cabeça erguida", afirma o diretor-gerente da companhia, Tim Oakes.

"Estes são lugares que realmente querem receber visitantes, desde que sem aglomerações."

Estados Unidos: preços mais altos para visitantes internacionais

Já os Estados Unidos assumiram uma postura declaradamente voltada para o lado financeiro.

Seu vasto sistema de parques nacionais compreende 433 unidades, com área total de 34 milhões de hectares, e oferece incontáveis atrações para os visitantes.

Mas a metade das visitas se concentra nos 25 parques mais conhecidos, gerando superlotação, longas filas e excesso de lixo.

Para tentar reduzir o problema, os Estados Unidos criaram em 2026 uma sobretaxa de US$ 100 (cerca de R$ 520) por pessoa para visitantes internacionais, em 11 parques nacionais populares do país. Eles incluem Yellowstone, Yosemite e o Grand Canyon.

O passaporte anual "America the Beautiful" cobre todos os locais federais de recreação. Agora, ele custa US$ 250 (cerca de R$ 1,3 mil) para não moradores do país — três vezes mais que os US$ 80 (cerca de R$ 416) cobrados dos cidadãos americanos.

Esta política segue uma ordem executiva que orientou o Departamento do Interior dos Estados Unidos a aumentar os ingressos para estrangeiros.

Relatos indicam que a medida está gerando filas ainda mais longas na entrada nos parques, já que os funcionários, agora, precisam conferir a cidadania e os documentos de identificação dos visitantes.

Placa de identificação do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, com deserto e montanha ao fundo

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Legenda da foto, Metade das visitas aos parques nacionais dos Estados Unidos se concentra nos 25 mais conhecidos, como Yellowstone

Trabalhadores dos parques e do seu entorno não acreditam que esta estratégia seja suficiente para combater as aglomerações.

"É improvável que o aumento dos ingressos, sozinho, reduza significativamente o turismo excessivo na alta estação", afirma Kevin Jackson, um dos fundadores da EXP Journeys. Sua empresa oferece experiências de viagens particulares perto dos parques de Yellowstone, Grand Canyon, Zion, Moab e Yosemite.

"A demanda pelos parques emblemáticos permanece alta e, para o tipo de viagens que oferecemos, o ingresso mais caro representa um percentual relativamente pequeno do custo total da viagem", explica ele.

Mas ele observou que alguns viajantes internacionais podem optar por parques menos conhecidos, onde a sobretaxa não é aplicada. É o caso do Canyonlands, no Estado de Utah.

Pessoa de pé observa a paisagem do parque Canyonlands, no Estado americano de Utah

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Legenda da foto, Para reduzir a pressão sobre os parques nacionais superlotados dos Estados Unidos, o país passou a incentivar os visitantes a conhecer cenários menos famosos, como o Canyonlands, no Estado de Utah

Dulani Porter é a vice-presidente-executiva da empresa de marketing de destinos turísticos SPARK. Ela destaca questões estruturais mais profundas.

"Definir preços não é um plano de gestão de visitantes", afirma ela.

Porter relembra que o excesso de pessoas em parques como Zion e Yosemite é determinado, em grande parte, pelos padrões domésticos de viagens de verão, calendários escolares e pela capacidade limitada de rodovias e estacionamento.

Os visitantes internacionais contribuem de forma desproporcional com a economia do turismo local. E até mesmo uma pequena redução pode prejudicar hotéis, restaurantes e operadoras de turismo.

"O turismo excessivo é fundamentalmente uma questão sistêmica", afirma ela. "Não apenas um problema de preços."

Jamaica: Reprogramar a sazonalidade

A Jamaica, por outro lado, vem usando incentivos, não restrições.

Ansiosa para atrair turistas após a destruição causada pelo furacão Melissa, em 2025, a ilha do Caribe vem adotando medidas criativas para trazer visitantes fora da alta temporada.

As empresas Jamaica Tourism, JetBlue e WeatherPromise se associaram para oferecer, a partir de março, seguro contra chuva para todos os pacotes com destino à Jamaica até o final de novembro, incluindo a estação dos furacões.

Praia da Jamaica em dia de sol, com árvores e um barco na faixa de areia

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Legenda da foto, A Jamaica oferece seguro contra a chuva em pacotes turísticos selecionados, para incentivar os visitantes durante os meses de baixa temporada, incluindo a estação dos furacões

Se as condições do tempo atingirem o limite para serem consideradas "excesso de chuva", os viajantes que optarem pelo seguro serão automaticamente reembolsados.

E ainda poderão aproveitar a viagem para conhecer algumas das atrações em ambiente fechado do país, como o Museu Bob Marley na capital, Kingston, ou para provar rum no vale de Nassau.

"Esta parceria ajuda a oferecer aos nossos clientes a confiança de reservar viagens para a Jamaica o ano inteiro", afirma Jamie Perry, presidente da Paisly, a companhia responsável pela JetBlue Vacations.

"Ao reduzir a percepção de risco de viagem durante os períodos tradicionalmente mais calmos, estamos ajudando a criar melhores experiências para os clientes e as comunidades locais."

Espanha: gestão das multidões por algoritmo

A ilha espanhola de Maiorca foi palco de um dos mais emblemáticos protestos contra o turismo já realizados. Agora, ela aposta na inteligência artificial para resolver parte dos seus problemas com aglomerações.

Ainda este ano, Maiorca irá integrar ao seu novo website uma plataforma alimentada por IA.

Usando dados dos visitantes em tempo real, a ferramenta orientará os turistas sobre os melhores horários para visitar locais populares, sugerindo alternativas menos congestionadas, como oficinas de artesanato com vidro e a tradicional llatra (folhas de palmeira), ou ainda visitas a vinhedos e produtores de azeite de oliva.

O objetivo é expandir a visitação para locais fora do roteiro de "sol e praia" da ilha.

Praia de Maiorca, na Espanha, repleta de pessoas em dia de sol

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Legenda da foto, Maiorca pretende divulgar aos visitantes suas atrações menos conhecidas, para tentar de reduzir as aglomerações nas suas praias altamente disputadas

"Com a PID [Plataforma Inteligente de Destinos] de Maiorca, integramos mobilidade, acomodações e recursos em uma única plataforma, o que nos permite antecipar os fluxos, melhorar a experiência dos visitantes e fortalecer a tomada de decisões", explica o recém-nomeado ministro do Turismo local Guillem Ginard, presidente da Fundação para o Turismo Responsável de Maiorca.

Além da tecnologia, a fundação lançou a campanha Ca Nostra ("Nossa Casa"), para incentivar visitantes e moradores a tratar Maiorca como sua casa temporária, protegendo seus cenários, tradições e comunidades.

Dinamarca: incentivos ao bom comportamento

A capital dinamarquesa, Copenhague, é um dos destinos turísticos em maior crescimento da Europa. Projeções indicam que ela o número de visitantes deve aumentar em 24% até 2030.

Para combater alguns dos primeiros problemas sendo causados pelo turismo excessivo, a cidade realiza experiências com incentivos ao bom comportamento.

Lançado em 2024, o programa CopenPay permite que os visitantes "paguem" por experiências com ações sustentáveis, como passear de caiaque coletando o lixo dos canais ou ir aos museus de bicicleta.

Vista de um estacionamento de bicicletas quase totalmente ocupado, perto do Museu da Guerra, em Copenhague, na Dinamarca

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Legenda da foto, Copenhague, na Dinamarca, incentiva os visitantes a ir aos museus de bicicleta, como parte da sua iniciativa chamada CopenPay

Mais de 30 mil visitantes já participaram da iniciativa, que fez com que os aluguéis de bicicletas aumentassem em 59%.

"Cerca de metade dos participantes afirmam que são motivados a participar porque procuram experiências diferentes e exclusivas", conta Rikke Holm Petersen, diretora de marketing, comunicação e comportamento da organização Wonderful Copenhagen.

Ela observou que sete a cada dez participantes também declararam terem levado novos hábitos para casa, como andar mais de bicicleta e separar o lixo corretamente.

Este modelo atraiu o interesse de mais de 100 destinos de todo o mundo. Berlim, na Alemanha, e a região francesa da Normandia estão adotando esquemas similares.

"Muitos participantes nos disseram que todas as cidades deveriam ter este programa", declarou Petersen.

"Estamos observando uma mudança importante no comportamento dos turistas. Eles querem deixar o destino melhor do que encontraram."