Astronauta Christina Koch observa a Terra a bordo da Orion

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Astronauta Christina Koch observa a Terra a bordo da Orion
    • Author, Daniel Gallas
    • Role, com informações da BBC News
  • Há 28 minutos

  • Tempo de leitura: 5 min

Por volta das 15h de segunda-feira (6/4) no horário de Brasília, a tripulação da Artemis 2 bateu o recorde de maior distância já percorrida por humanos a partir da Terra — o recorde anterior de 400.171 km da Terra foi estabelecido pela tripulação da Apollo 13 em 1970.

O Artemis 2 bateu o recorde em cerca de 6,6 mil km, atingindo uma distância máxima de 406.771 quilômetros. A espaçonave Orion passou por trás da Lua, perdendo temporariamente contato com a Nasa na Terra. Essa interrupção era esperada e durou cerca de 40 minutos.

"Houston, Integrity, teste de comunicação", foram as primeiras palavras da especialista da missão, a astronauta Christina Koch, quando o contato foi restabelecido, que também disse que era "tão bom ouvir a Terra novamente".

Em seguida, a tripulação fez uma pequena pausa antes de observar o eclipse solar total, que durou cerca de uma hora. Os astronautas passaram esse tempo tirando fotos e contando à equipe científica em Houston o que podiam ver.

Enquanto os quatro astronautas começavam o processo de envio de todos os dados das últimas sete horas de observação para a Terra, eles também receberam uma ligação do presidente dos EUA, Donald Trump.

"Vimos coisas que nenhum ser humano jamais viu, nem mesmo a Apollo, e isso foi incrível para nós", disse o comandante da missão Reid Wiseman, em conversa com Trump.

Trump havia perguntado à tripulação: "Qual foi a parte mais inesquecível deste dia verdadeiramente histórico?"

Wiseman disse que todos os quatro tripulantes comentaram sobre o quão "animados estamos para ver esta nação e este planeta se tornarem uma espécie com dois planetas", em referência aos objetivos de futuras missões a Marte.

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Legenda do vídeo, Artemis filma eclipse solar de ângulo nunca antes visto

Antes disso, em conversas com a base da missão na Terra, o piloto da Artemis 2, Victor Glover, disse que o que os quatro astronautas viram era "verdadeiramente difícil de descrever".

"Sei que esta observação não terá nenhum valor científico, mas estou muito feliz por termos lançado em 1º de abril, porque os humanos provavelmente não evoluíram para ver o que estamos vendo", disse ele.

Victor Glover descreveu o eclipse como algo "surreal".

"O Sol já se pôs atrás da Lua e a coroa solar ainda está visível, brilhante e criando um halo que circunda quase toda a Lua. Mas quando você chega ao lado da Terra, o que se vê é o brilho da Terra."

"Quase segundos depois do Sol se pôr atrás da Lua, você já podia ver o brilho da Terra. A Terra está tão brilhante lá fora e a Lua está ali, bem na nossa frente."

"Você ainda consegue ver o horizonte mais brilhante... onde o Sol se pôs daquele lado da Lua. E o brilho da Terra é muito nítido e cria uma ilusão visual impressionante."

"É incrível."

Sobre a experiência, o comandante Wiseman afirmou: "É simplesmente indescritível".

"Não importa quanto tempo olhemos para isso, nossos cérebros não conseguem processar esta imagem à nossa frente. É absolutamente espetacular, surreal... não há adjetivos, vou precisar inventar alguns novos, não há absolutamente nenhuma palavra para descrever o que estamos vendo por esta janela."

Quando Glover descreveu algo que ele disse ser laranja, a tripulação em terra afirmou que o objeto provavelmente era Marte.

"Boa oportunidade para olhar para o futuro, para onde estamos indo", disse o controle da missão na Terra.

A tripulação brincou dizendo que queria acrescentar 20 novos superlativos ao resumo da missão, para ajudar nas descrições.

Houve um momento emocionante a bordo da cápsula, quando os astronautas conversaram sobre propostas de nomes para crateras na Lua.

Uma das crateras deveria se chamar Integrity, em homenagem à espaçonave Orion, segundo a tripulação, enquanto outra deveria ser nomeada em homenagem à esposa do astronauta Reid Wiseman, Carroll, que morreu de câncer em 2020.

As propostas de nomes precisarão ser formalmente submetidas à União Astronômica Internacional, que regulamenta a nomenclatura de formações espaciais.

Agora os astronautas seguem de volta para a Terra. Eles devem pousar no Oceano Pacífico às 21h07 de sexta-feira (10/4) no horário Brasília. Ao final da missão, eles terão percorrido mais de 1.118.494 km.

Uma vista da Terra capturada pelo astronauta Reid Wiseman enquanto a Terra eclipsa o Sol

Crédito, Reuters

Legenda da foto, Uma vista da Terra capturada pelo astronauta Reid Wiseman enquanto a Terra eclipsa o Sol

Por que a Artemis 2 perdeu conexão por 40 minutos

Quando os astronautas passaram atrás da Lua, por volta das 19h47 no horário de Brasília de segunda-feira (06/04), os sinais de rádio e laser que permitem a comunicação nas duas direções entre a nave e a Terra foram bloqueados pela própria Lua.

Por cerca de 40 minutos, os quatro astronautas — Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen — ficaram sozinhos, cada um com seus próprios pensamentos e sentimentos, viajando pela escuridão do espaço. Um momento profundo de solidão e silêncio.

Isso acontece porque a Lua bloqueia os sinais de rádio entre a Rede de Espaço Profundo, conhecida pela sigla em inglês DSN, e a espaçonave.

Há mais de 50 anos, os astronautas do programa Apollo também experimentaram o isolamento provocado pela perda de sinal durante suas missões à Lua.

Talvez ninguém mais do que Michael Collins, da Apollo 11.

Em 1969, enquanto Neil Armstrong e Buzz Aldrin faziam história ao dar os primeiros passos na superfície lunar, Collins estava sozinho no módulo de comando, orbitando a Lua.

Quando a sua nave passou pelo lado oculto da Lua, o contato com os dois astronautas na superfície lunar, assim como com o centro de controle da missão, foi perdido por 48 minutos.

Ele descreveu a experiência em seu livro de memórias O Fogo Sagrado - A Jornada de um Astronauta, publicado em 1974, dizendo que se sentiu "realmente sozinho" e "isolado de qualquer forma de vida conhecida", mas que não sentiu medo nem solidão.

Em entrevistas posteriores, ele descreveu a paz e a tranquilidade proporcionadas pelo silêncio do rádio, afirmando que aquilo oferecia uma pausa nos constantes pedidos do controle da missão.