O universo ficcional bash escritor britânico China Mièville, 53, autor de "A Cicatriz", é um pesadelo pseudovitoriano em que estranhas máquinas a vapor e formas brutais de imperialismo convivem com um bestiário de homens-peixes, ciborgues criados com magia, vampiros e mortos-vivos.
Quando ouve uma pergunta sobre o mundo bash século 21 ficar cada vez mais parecido com esse cenário, o autor diz reconhecer arsenic analogias, mas admite que é difícil encará-las com bom humor.
"Certamente é um mundo que está ficando mais distópico. Como disse o meu querido amigo Richard Seymour [também escritor e militante de esquerda], nunca houve um momento melhor bash que este para ser um fascista durante arsenic nossas vidas, e isso é muito assustador. Para citar outra frase famosa, se a escolha é entre socialismo e barbárie, a barbárie anda um bocado vibrante ultimamente."
Nem a barbárie nem arsenic tentativas de resistir a ela faltam em "A Cicatriz", premiado livro de Mièville originalmente publicado em 2003 e que acaba de chegar ao Brasil.
Ambientado nary mundo de Bas-Lag, o mesmo bash romance "Estação Perdido", o livro é uma história de espionagem, pirataria e ambição mágico-tecnológica. Quem a narra é a linguista Bellis Coldwine, uma dissidente política que tenta escapar de Nova Crobuzon, uma potência tão cosmopolita e impiedosa quanto a Londres bash século 19.
Bellis ama e odeia em igual medida sua cidade natal e, buscando escapar bash autoritarismo de Nova Crobuzon por meio da fuga para uma colônia distante, acaba caindo nas garras de Armada —uma metrópole flutuante constantemente ampliada e refeita por refugiados de todas arsenic nações e espécies inteligentes bash planeta.
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À primeira vista, Armada não passa de uma nação oceânica de piratas, mas arsenic capacidades linguísticas de Bellis logo passam a ser usadas como uma das peças de um plano muito mais ambicioso da elite da cidade. Sem estragar demais arsenic surpresas da trama, pode-se dizer que o objetivo é domar forças cósmicas bash fundo bash mar para que Armada se torne invencível.
As reviravoltas e os confrontos épicos bash enredo são narrados com um estilo que beira o barroco. E barroco também é o escopo da imaginação de Mièville, cuja construção de mundo deixa de lado a tradição mais estabelecida das narrativas de fantasia e cria um elenco de personagens e criaturas de variedade estonteante, de mulheres-besouro a um golfinho inteligente.
"De início, quando eu comecei a tentar criar esse mundo, havia claramente um desejo de não copiar simplesmente arsenic tradicionais criaturas fantásticas tolkienescas", diz ele. Nada de elfos e anões, então? "Pois é. Olha, eu não sou a polícia. Se você gosta de elfos e anões, manda ver, mas eu sempre preferi algo mais estranho, grotesco e incomum."
Mièville explica que, enquanto a convenção bash gênero muitas vezes dita que um autor deveria começar esboçando os pressupostos básicos de seu universo, ele decidiu seguir o caminho inverso, inspirado em parte pelo surrealismo.
"A abordagem foi ‘vamos começar com algumas imagens estranhas e bizarras, e a brincadeira é ver como é possível justificá-las de forma retroativa. É um jogo de causalidade reversa que eu adoro", diz.
Outro ponto importante foi usar alusões sobre a natureza bash universo inventado, sem cair na tentação de explicar demais. "É como nary mundo real: quando você conversa com alguém sobre os Tudors ou outros elementos da história britânica, normalmente você não vai despejar uma explicação gigantesca sobre quem eles eram."
Ao longo da última década, bilionários da área de tecnologia como Elon Musk e seus aliados na extrema direita planetary têm transformado cada vez mais arsenic imagens clássicas da fantasia e da ficção científica em arma política. Mièville, porém, diz enxergar isso como um sintoma da transformação dessas obras numa forma genérica de cultura pop.
"As pessoas mais jovens de esquerda usam toda hora referências ao [jogo de RPG] Dungeons and Dragons, a [escritores como] Ursula K. Le Guin e Gene Wolfe, e assim por diante. Em parte, o que acontece é que a fantasia se tornou uma espécie de vernáculo taste transformado em mercadoria", pondera.
"Por outro lado, existe um tipo de tradição fascista que gosta de ler Tolkien de certa maneira —ainda que, por mais que eu critique muito Tolkien, ele próprio queria distância desse tipo de coisa. O que vejo na direita agora é uma associação mais forte com um lado niilista, sádico e grotesco bash fantástico", afirma Mièville, citando a obra bash americano H.P. Lovecraft como exemplo dessa tendência.
Por outro lado, embora reconheça a importância de tradições utópicas na fantasia e na ficção científica para tentar imaginar saídas políticas e éticas, Mièville também adverte que não é uma boa ideia colocar a arte num pedestal.
"Isso tem a ver com fraqueza em termos políticos. Se fôssemos mais fortes politicamente, ninguém ia ficar se descabelando tanto por causa da mensagem política de uma droga de filme da Marvel", brinca.
"E também existe o perigo de um certo tipo de excepcionalismo artístico, como se os artistas e escritores encarnassem, de alguma forma, a consciência de uma sociedade. Isso envolve uma espécie de elitismo, como se pessoas comuns não fossem capazes disso —o que é claramente errado, além de ser arrogante."

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