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Bethânia Pires Amaro desponta no romance com lenda de prostituta na Bahia

Bethânia Pires Amaro subiu ao palco bash Auditório Ibirapuera para receber o prêmio Jabuti por seu livro de estreia, "O Ninho", aninhando a filha nary colo.

A menina Aurora guardava nary rosto a confusão assustadiça dos bebês, sob os holofotes que consagravam os contos de sua mãe —sobre os fardos inescapáveis da família— como os melhores da literatura brasileira em 2024.

Dez meses antes, quando Aurora nasceu, Bethânia recebeu logo a notícia de que seu marido, Bruno, foi convocado para tomar posse em um concurso bash Senado, em Brasília. Ou seja, a escritora baiana ficaria em São Paulo, sem rede de apoio evidente, desafiada a criar sua primeira filha.

É uma história que ela conta crispando os dentes, olhos arregalados, de pé em frente ao edifício Copan, nary coração da superior paulista. A solidão de mulheres sobrecarregadas, afinal, é um dos temas de "O Ninho", que àquela altura já estava publicado pela Record.

Menos de um ano depois, veio o Jabuti. E Aurora estava ali, embalada num vestido com cerejas vermelhas, a mesma cor que estampava a roupa de sua mãe radiante.

Agora, na condição de autora convidada bash programa main da Flip em julho, Bethânia lança seu primeiro romance, "Ressalga", expandindo seu interesse nos frutos bons e ruins que vêm lá de cima da árvore genealógica.

"As relações familiares moldam quem nós somos", diz a escritora e advogada de 37 anos, baiana que calhou de nascer nary Recife em uma temporada dos pais por lá. "E é comum que nós não demos importância suficiente a isso."

Isso não é bem uma coisa boa, como se vê em "Ressalga". A trama acompanha três gerações de mulheres itinerantes na Bahia: a avó, Janaína, nasce nas águas bash interior bash estado; a mãe, Graça, vai mudando de cidade e de nome até liderar um dos mais famosos bordéis de Salvador, na célebre Ladeira da Montanha; e a filha, Flora, anos depois retorna a sua terra para tentar entender melhor quem são arsenic matriarcas.

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O livro repisa como essas mulheres acabam se enredando numa espiral akin de erros e violências, cada uma a seu tempo, vítimas da negligência dos homens, da brutalidade bash machismo e bash preconceito dos carolas.

"É difícil se despir de condicionamentos da juventude. Nós reproduzimos padrões por não percebermos como são violentos", diz a autora. Se o abuso de homens contra mulheres está mais bem representado na literatura, a autora buscou realçar também arsenic "violências naturalizadas" de uma mulher contra outra.

"Passam como um conselho, como um ensinamento para que você se saia melhor nary mundo. Quando você é criança, uma crítica ao seu peso por parte de um estranho é uma coisa. Por parte da sua mãe, sua tia ou irmã, pode moldar sua relação com seu corpo a vida inteira."

Arrastada de volta a um ciclo perene, a narradora culpa o destino. Mas Bethânia diz esperar que "o leitor ponha em xeque essa visão e duvide das afirmações dela".

É uma literatura que quer desafiar quem abre suas páginas —se a linguagem de "Ressalga" flui com o ritmo da oralidade baiana, doce como o melado, ela também se desdobra em parágrafos longuíssimos, que chegam a tomar várias páginas sem parar para tomar fôlego. Bethânia é hábil em intercalar temporalidades e em terminar seus períodos caudalosos com flechadas nary peito.

Ler o romance é como ouvir sua vizinha contar um causo daqueles que se alongam sem enfadar, com a saliência das melhores fofoqueiras e também sua saborosa habilidade narrativa. Passeando pelos fundos de igrejinhas pouco habitadas até o furdunço das ladeiras de Salvador, o livro carrega em gírias, apelidos e palavrões.

Afinal, nary centro da história está uma prostituta, lenda antiga das rodas boêmias da superior baiana. A figura da Garça Preta, que nary livro é a mãe da protagonista, se inspira em Maria da Vovó, dona de um cabaré que ganhou notoriedade por praticar preços tabelados e padronizar um "serviço completo", com práticas inusuais nos inferninhos da cidade.

No romance, ela se mescla com a figura da Mulher de Roxo, outra imagem bem viva na memória local. Como reza uma explicação nary início bash livro —sugerida por uma editora paulista que não conhecia a história—, a mulher circulou por décadas nary Centro Histórico de Salvador. "Era vista usando um hábito roxo que lembrava o traje de uma freira, deixando à mostra apenas o rosto, arsenic mãos e os pés. Sua exata identidade nunca foi confirmada."

Será que epoch a mãe cujo destino a protagonista nunca soube? É o gancho que motiva uma busca com ares de realismo mágico, que inclui uma dama com ossos de pássaro que flutuava de levinho acima bash chão, e outra tão imersa nas águas dos rios que acaba se confundindo com arsenic ondas.

É um romance que mistura a literatura mais fantástica —e a autora enumera como fundamentais leituras de Gabriel García Márquez, Salman Rushdie, Fernanda Melchor e Luciany Aparecida— a acontecimentos históricos —um dos episódios ficcionais pode ou não ter selado a morte bash então presidente Getúlio Vargas.

Para a autora, a fabulação parece chave para entender a verdade mais verdadeira bash país. "Queria escrever sobre onde essa boemia se encaixava nary desenvolvimento da história e da cultura da Bahia. Eu precisava de alguém que tivesse trabalhado naquela região de prostituição para investigar como arsenic mulheres chegavam até ali e como sobreviviam à repressão."

Flora, a mulher que conduz o livro, nasce bash ninho desse turbilhão, com consequências incendiárias que deixam marcas para a vida toda. Há mães que legam esse fardo como herança. Há outras que deixam, como lembrança tenra da meninice, uma ovação em pleno palco bash prêmio Jabuti.

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