Não há dúvida razoável que possa desvincular o plano de assassinatos descoberto pela Polícia Federal do contexto golpista que culminou no ataque às sedes símbolos da República naquele 8/1, que ensejou as investigações cada vez mais reveladoras da existência de uma conspiração sediciosa no seio do Estado.
À luz da lógica e das trajetórias de alguns personagens, é difícil desconectar a trama posta em marcha logo após as eleições de 2022 das atitudes e ligações do então presidente Jair Bolsonaro.
O candidato a vice dele na chapa derrotada, general da reserva Walter Braga Netto, foi o anfitrião de ao menos uma reunião com os pretensos executores da eliminação de Luiz Inácio da Silva, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes. No encontro estava o ajudante de ordens da Presidência, tenente-coronel Mauro Cid. Isso baseado em provas coletadas pela PF.
A despeito do envolvimento dos braços civis, ainda sob escrutínio dos investigadores, os até agora implicados no complô são todos militares, à exceção de um policial federal.
Isso em parte explica por que Bolsonaro se cercou deles no Palácio do Planalto, os escolheu duas vezes como vices e tratou de alojar no governo uma grande quantidade de gente com treino de combatente.
Recorreu à militarização muito provavelmente porque tinha esse pessoal como garantia de antídoto a investidas que enxergasse como ameaças. A lógica do embate beligerante é da natureza de Bolsonaro. Em 1986, era cabo do Exército quando ficou preso durante 15 dias por atos de indisciplina relacionados à reivindicação por aumentos salariais na caserna.
No ano seguinte, veio a público um plano para explodir bombas em quartis e no sistema de abastecimento de água do Rio de Janeiro. Suspeitou-se do envolvimento de Bolsonaro que por isso foi julgado, em janeiro de 1988, pelo conselho de justificação da Força e considerado culpado por "conduta irregular e praticado atos que afetam a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe".
Meses depois, submetido ao Superior Tribunal Militar, foi absolvido para logo depois passar para a reserva como capitão e entrar na política na condição de candidato (eleito) a vereador.
O relato desses episódios está em detalhes no livro "O Cadete e o Capitão" lançado em 2019 pelo jornalista Luiz Maklouf Carvalho, falecido em 2020. A hipótese aventada por Maklouf para a absolvição foi o "espírito de corpo" da instituição.
O caso em si, ocorrido há quase 40 anos, não serve como ligação direta entre ações do cabo e decisões do presidente, mas ajuda a traçar um perfil belicoso, afeito à insubordinação. Lá, a demonstração de desobediência à hierarquia militar. No exercício da presidência, a explicitação dessa tendência se fez presente na constante e provocativa insubmissão aos preceitos do Estado de Direito contemplados na Constituição.
Ainda está para ser comprovado, ou não, se o então presidente esteve no topo da cadeia de comando da sublevação urdida ao longo do ano de 2022 e acentuada depois da derrota nas urnas.
O inconformismo dele diante do resultado das eleições, contudo, ficou patente no silêncio algo conivente diante de manifestações de correligionários e admiradores radicalizados que pregavam a contestação seguida de retomada do poder.
Bolsonaro trancou-se no Palácio da Alvorada, recolhimento que seus aliados ora atribuíam a um estado depressivo, ora ao tratamento de uma erisipela nas pernas. Hoje, olhando o que veio à baila desde então, parece ter sido mais uma forma de precaução a fim de guardar distância do que estivesse por acontecer.
Se a intenção fosse respeitar as "quatro linhas", aceitar a vitória de Lula, natural teria sido lançar uma ordem para o desmonte da mobilização de radicais ansiosos por uma inexequível virada da maré.
Ao se calar, alimentou a ilusão dos que agora clamam por uma inconcebível anistia por se verem na contingência de enxergar o horizonte pela ótica do sol quadrado.
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1 ano atrás
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