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Cada vez mais anti-imigração, Europa vai torcer por filhos de imigrantes na Copa do Mundo

As seleções europeias têm registrado nos últimos anos um aumento na quantidade de descendentes de imigrantes em seus elencos. A presença desses jogadores já é consolidada entre os principais times do velho continente, e se repetiu nas convocações para esta Copa:

  • Na seleção da França, 20 dos 26 (77%) jogadores que disputarão o torneio são filhos de imigrantes;
  • Na Holanda, metade dos jogadores são descendentes diretos de estrangeiros;
  • Nas seleções da Alemanha e da Inglaterra, os filhos de imigrantes representam ao menos um terço dos elencos.

➡️ Essas quatro seleções estão entre as favoritas para vencer o torneio — junto com Espanha, Portugal, Argentina e Brasil—, segundo projeção feita pela Opta, especializada em estatísticas de futebol.

Os dados são de um levantamento feito pelo g1 a partir das convocações finais para a Copa do Mundo, que será disputada entre junho e julho nos EUA, no México e no Canadá (veja no infográfico abaixo).

“Essas seleções são um excelente retrato dessas sociedades europeias, que passaram a ser mais multiculturais e multirraciais [nas últimas décadas]”, afirmou ao g1 Maurício Santoro, doutor em Ciência Política e Sociologia pelo Iuperj.

França x Irlanda do Norte - Amistoso Pré-Copa do Mundo — Foto: REUTERS/Sarah Meyssonnier

A França, inclusive, é uma das seleções mais fortes do mundo nas últimas décadas e chegou a duas finais consecutivas nas duas últimas Copas, em 2018 e 2022 —quando foi campeã e vice, respectivamente.

Essas campanhas foram construídas por times de alta diversidade étnica, e desta vez não será diferente: a equipe é liderada por Kylian Mbappé e Ousmane Dembélé, ambos filhos de imigrantes e que estão entre os melhores jogadores do mundo atualmente.

Essa diversidade é resultado de um fluxo migratório mundial rumo à Europa que remonta o século XX e ao neocolonialismo — período em que os europeus fizeram a partilha da África entre si.

  • A Europa é atrativa pelo Estado de bem-estar social, principalmente nos países-membros da União Europeia, e passou a ser lar de imigrantes de ex-colônias africanas e refugiados de guerras na Ásia e na África (leia mais abaixo);
  • A crise dos refugiados, que completou 10 anos em 2026, também é um exemplo desse fluxo migratório.

Ao mesmo tempo, diversos países do bloco europeu tomaram medidas para endurecer as regras migratórias. O discurso anti-imigração é uma bandeira da extrema direita, que ganhou terreno nos últimos anos e passou a ocupar mais cadeiras nos parlamentos nacionais e a influenciar governos.

Veja na arte abaixo as proporções dos jogadores filhos de imigrantes não-europeus e as ascendências mais comuns em algumas das principais seleções europeias nesta Copa:

Infográfico mostra quantos jogadores são filhos de imigrantes nas convocações das principais seleções europeias para a Copa do Mundo de 2026. — Foto: Juan Silva/Arte g1

Veja no final da matéria um maior detalhamento sobre a ancestralidade dos jogadores dessas seleções europeias.

O fluxo de imigração rumo à Europa começou em meados do século XX, por volta da década de 1960, conforme as colônias europeias da África e da Ásia começaram a se tornar independentes, segundo explicou ao g1 Adriano Freixo, professor de Relações Internacionais na UFF e autor de “Futebol — o outro lado do jogo”.

Buscando uma vida melhor, imigrantes rumaram ao continente europeu, em muitos casos com destino ao ex-colonizador.

O processo continuou nas décadas seguintes. Já no século XXI, a crise dos refugiados levou mais de 1,5 milhão de pessoas a entrarem na União Europeia, entre os anos de 2014 e 2016.

Em 2022, o número cresceu ainda mais: 5,3 milhões de pessoas nascidas fora da Europa ingressaram no bloco (veja abaixo) .

Infográfico mostra os sete países da União Europeia que mais receberam imigrantes não-europeus entre 2020 e 2024. — Foto: Juan Silva/Arte g1

Crescimento da extrema direita

Os altos números de imigração alimentaram o crescimento da extrema direita no continente europeu, ao lado de um contexto de crise e declínio nas condições de vida.

Segundo especialistas ouvidos pelo g1, esse grupo político costuma utilizar os imigrantes como "bode expiatório" para problemas sociais reais, como o desemprego, por exemplo.

“Quando você quer procurar um bode expiatório, alguém que você vai culpar por todos os problemas existentes na sociedade, o mais fácil é procurar aquele que é diferente. (...) A extrema direita utiliza a diferença para construir o ódio [ao imigrante], que é a base de seu discurso. Eles só conseguem crescer politicamente a partir dessa dicotomia amigo e inimigo”, explicou o professor Adriano Freixo.

Uma das consequência do crescimento da extrema direita pode ser vista no endurecimento de políticas migratórias em diversos países:

  • França: facilitou a expulsão de imigrantes ilegais, estabeleceu cotas para nacionalizações de descendentes e aumentou para 5 anos o prazo para estrangeiros desempregados desbloquearem benefícios de moradia.
  • Alemanha: aplicou medidas como facilitar e agilizar deportações, restringiu concessões de cidadania e reduziu ajudas de custo a refugiados. Além disso, suspendeu por dois anos a reunificação familiar - quando um refugiado que já esteja no país traz seus familiares.
  • Reino Unido: dobrou, para 10 anos, o tempo para conseguir residência permanente, retirou direitos automáticos de moradia e apoio financeiro. Além disso, estabeleceu deportações de refugiados caso o país de origem seja considerado seguro.
  • Holanda: fechou as fronteiras com a UE, impôs limitações ao reagrupamento familiar, revogou leis de alojamentos municipais obrigatórios e declarou uma “crise de asilo” entre 2024 e 2026 para suspender tramitação de casos em aberto.

'Internacionalização' das seleções europeias

O alto fluxo migratório tem um impacto direto no futebol europeu, com presença cada vez maior de filhos e netos de imigrantes naturalizados em suas seleções — a maior parte africana ou muçulmana.

Para o professor Maurício Santoro, os descendentes de imigrantes conseguem espaço nessas equipes porque o futebol é um dos espaços mais meritocráticos da sociedade, o que ajuda a minimizar seu viés racista.

“O futebol reflete essas tensões sociais decorrentes da imigração e com frequência as leva para um outro público, que talvez não se engajasse nesse tipo de debate. (...) Por isso, acaba virando também um elemento de disputa política, ideológica e social”, afirmou Santoro.

Segundo Santoro, casos de sucesso de descendentes de imigrantes que chegam ao mais alto nível, como os de Mbappé, Yamal e Zinedine Zidane, personificam a ascensão social possibilitada pelo esporte.

Por outro lado, muitos desses jogadores sofrem preconceito das torcidas organizadas europeias, ressalta o professor Adriano Freixo.

“Os jogadores de ascendência estrangeira tendem a ser bem [mais] politizados porque eles sentem na carne essa discriminação. E muitas vezes enfrentam o racismo dentro de campo e da própria torcida. (...) Ou seja, ao mesmo tempo que ele está ali representando a seleção, boa parte dos cidadãos daquele país não o reconhecem como um igual. É um contrassenso”, explicou Freixo.

Essa contradição cria uma lógica de "europeu quando ganha, imigrante quando perde", segundo Freixo, com torcedores jogando a culpa pela derrota sobre os jogadores filhos de imigrantes.

  • Mbappé cogitou se aposentar da seleção com apenas 22 anos após perder um pênalti que resultou na eliminação da França da Eurocopa de 2021 contra a Suíça. O craque disse ter sido xingado de "macaco" e alegou que não recebeu o apoio da federação francesa de futebol.
  • Na final dessa mesma Euro, um trio inglês de ascendência imigrante (Bukayo Saka, Marcus Rashford e Jadon Sancho) também sofreu ofensas racistas após perder pênaltis. Nesse caso, no entanto, a federação de futebol e outras autoridades inglesas repudiaram o caso e pediram punições pesadas aos criminosos.

Em reação ao racismo, alguns jogadores da seleção francesa passaram a não cantar o hino da França durante as partidas — um fenômeno que ocorre desde o fim da década de 1990. O atacante Benzema, por exemplo, foi alvo de ataques da extrema direita por tomar essa posição em jogos entre 2013 e 2018.

Espanha: a exceção, mas nem tanto

Lamine Yamal em campo antes da final da Liga das Nações contra Portugal — Foto: REUTERS/Angelika Warmuth

A Espanha está entre as favoritas para vencer a Copa do Mundo, porém sua seleção não tem uma porcentagem expressiva de estrangeiros entre os jogadores convocados. Menos de 10% são filhos de imigrantes.

Mesmo assim, a pauta da imigração não fica de fora das conversas sobre futebol no país. Isso porque o melhor jogador da seleção atualmente, Lamine Yamal, é filho de africanos: seu pai nasceu em Marrocos e sua mãe, na Guiné-Equatorial. O atacante Nico Williams, que também é uma das estrelas do elenco, tem origem ganesa.

Yamal, hoje com 18 anos, repreendeu de forma contundente os cânticos racistas. Dias depois, ele levantou a bandeira da Palestina durante comemorações de um título de sua equipe, imagem que rodou o mundo.

A Espanha recebeu pelo menos um milhão de não-europeus por ano entre 2022 e 2024, segundo o escritório de estatísticas do bloco europeu. O governo de Pedro Sanchez, no entanto, corre na contramão do restante da UE quando o assunto é política migratória.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, discursa durante uma coletiva de imprensa após participar de uma cúpula especial de líderes da União Europeia — Foto: REUTERS/Yves Herman

Veja abaixo quem é filho de imigrantes nas convocações das seleções mencionadas na reportagem:

  • Robin Risser
  • Mike Maginan (Milan) - pais de Haiti e Guadalupe
  • Brice Samba (Rennes) - nasceu na RD Congo
  • Lucas Digne
  • Lucas Hernandez
  • Theo Hernandez
  • Maxcence Lacroix
  • Malo Gusto - pais de Portugal e Martinique
  • Ibrahima Konaté - Guiana francesa
  • Jules Koundé - Benin
  • William Saliba - Egito e Camarões
  • Dayot Upamecano - Guiné-Bissau
  • N'Golo Kanté - Mali
  • Manu Koné - Costa do Marfim
  • Adrien Rabiot
  • Aurélien Tchouaméni - Congo e Camarões
  • Warren Zaïre-Emery - Martinica
  • Akliouche - Argélia
  • Cherki - Argélia
  • Ousmane Dembélé - Mali e Mauritânia
  • Bradley Barcola - Togo;
  • Désiré Doué - Costa do Marfim;
  • Kylian Mbappé - Argélia e Camarões;
  • Michael Olise - nasceu na Inglaterra, e pais da Nigéria;
  • Marcus Thuram - nasceu na Itália, e pais de Guadalupe;
  • Jean-Philippe Mateta - RD Congo.
  • Bart Verbruggen;
  • Mark Flekken;
  • Robin Roefs;
  • Nathan Aké - pais de Costa do Marfim;
  • Virgil van Dijk - Suriname;
  • Denzel Dumfries - Suriname;
  • Jorrel Hato - Gana;
  • Jan Paul van Hecke;
  • Micky van de Ven;
  • Lutsharel Geertruida - Curaçao;
  • Frenkie de Jong;
  • Ryan Gravenberch - Suriname;
  • Teun Koopmeiners;
  • Tijjani Reijnders - Indonésia;
  • Marten de Roon;
  • Guus Til;
  • Quinten Timber - Curaçao;
  • Mats Wieffer;
  • Brian Brobbey - Gana;
  • Memphis Depay - Gana;
  • Cody Gakpo - Togo;
  • Justin Kluivert;
  • Noa Lang - Suriname;
  • Donyell Malen - Suriname;
  • Wout Weghorst;
  • Crysencio Summerville.
  • Oliver Baumann;
  • Alexander Nübel;
  • Manuel Neuer;
  • Waldemar Anton - nasceu no Uzbequistão;
  • Nathaniel Brown - pais dos EUA;
  • Pascal Groß;
  • Joshua Kimmich;
  • Felix Nmecha - Nigéria;
  • Pavlovic;
  • Angelo Stiller;
  • David Raum;
  • Antonio Rüdiger - Serra-leoa;
  • Nico Schlotterbeck;
  • Jonathan Tah - Costa do Marfim;
  • Malick Thiaw - Senegal e Finlândia;
  • Nadiem Amiri - Afeganistão;
  • Maxmilian Beier;
  • Leon Goretzka;
  • Kai Havertz;
  • Assan Ouédraogo - Burkina Faso;
  • Jamie Leweling;
  • Jamal Musiala - Nigéria, Inglaterra;
  • Leroy Sané - Senegal;
  • Deniz Undav - Turquia;
  • Florian Wirtz;
  • Nick Woltemade.
  • Dean Henderson
  • Jordan Pickford
  • James Trafford
  • Dan Burn
  • Marc Guehi - Costa do Marfim
  • Reece James;
  • Ezri Konsa - RD Congo
  • Tino Livramento;
  • Nico O’Reilly;
  • Jarell Quansah - Gana e Barbados;
  • Djed Spence - Quênia e Jamaica;
  • John Stones;
  • Elliot Anderson;
  • Jude Bellingham;
  • Eberechi Eze - Nigéria;
  • Jordan Henderson;
  • Kobbie Mainoo - Gana;
  • Declan Rice;
  • Morgan Rogers;
  • Anthony Gordon;
  • Harry Kane;
  • Noni Madueke - Nigéria;
  • Ollie Watkins;
  • Marcus Rashford - Santa Lúcia;
  • Bukayo Saka - Nigéria;
  • Ivan Toney.
  • Unai Simon;
  • David Raya;
  • Joan Garcia;
  • Pedro Porro;
  • Marcos Llorente;
  • Aymeric Laporte - nasceu na França;
  • Pau Cubarsi;
  • Marc Cucurella;
  • Marc Pubill;
  • Eric Garcia;
  • Alejandro Grimaldo;
  • Rodri Hernandez;
  • Martin Zubimendi;
  • Pedri;
  • Gavi;
  • Mikel Merino;
  • Fabián Ruiz;
  • Alex Baena;
  • Mikel Oyarzabal;
  • Dani Olmo;
  • Lamine Yamal - Guiné equatorial e Marrocos;
  • Ferran Torres;
  • Borja Iglesias;
  • Nico Williams - Gana;
  • Yeremy Pino;
  • Victor Muñoz.
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