
Crédito, Netflix
- Author, Yasmin Rufo
- Role, BBC News
Há 37 minutos
Tempo de leitura: 6 min
O que você faria se a pessoa que você ama dissesse que matou um homem?
É fácil imaginar que você agiria de forma racional, moral e sem hesitação. Mas Casar com um Assassino?, série documental com três capítulos de true crime (ou crimes reais) da Netflix que estreou nesta quarta-feira (29/04), sugere que o amor complica tudo na vida real.
Em 2017, Alexander McKellar, conhecido como Sandy, dirigia embriagado e atropelou e matou o ciclista Tony Parsons em Argyll and Bute, na Escócia. McKellar e seu irmão gêmeo, Robert, enterraram o corpo de Parsons.
O corpo permaneceu no local, sem ser descoberto, por três anos, até que uma nova namorada de McKellar, Caroline Muirhead, descobriu a verdade e levou a polícia até a cova rasa.
Quando o diretor da série, Josh Allott, ouviu a história pela primeira vez, disse que "não conseguia acreditar que fosse real".
"Pensei que fosse o enredo de uma série dramática e que algo assim não pudesse acontecer na vida real."
Clare Beavis, produtora da série que acompanhou o caso à medida que se desenrolava porque ele teve "grande impacto na Escócia", afirma que a "parte que faltava na cobertura da história foi o depoimento de Muirhead e a sua versão dos acontecimentos".

Crédito, Netflix
A série começa com Muirhead ainda abalada após um término difícil, antes de conhecer McKellar no aplicativo de relacionamentos Tinder, no outono de 2020. O encontro dá início a um romance intenso que, em poucas semanas, levou a um noivado.
Pouco depois de ficarem noivos, ela perguntou se havia algo no passado dele que pudesse afetar o futuro dos dois.
Ele contou a ela que, alguns anos antes, havia atropelado um ciclista ao voltar de carro de um hotel com o irmão, mas não procurou atendimento médico para a vítima.
Mais tarde, veio à tona que os ferimentos de Parsons eram tão graves que ele teria sobrevivido apenas por 20 ou 30 minutos sem atendimento, mas é improvável que tenha morrido na hora do atropelamento.
Os irmãos deixaram o local e voltaram depois em outro carro. Em seguida, levaram o corpo de Parsons até uma propriedade próxima de Auch Estate, onde os irmãos enterraram a vítima.
A revelação colocou Muirhead em um dilema, dividida entre a lealdade ao parceiro e fazer o que considerava certo.

Crédito, Netflix
Para Allott, diretor do documentário, foi essa tensão emocional e moral que tornou a história impossível de ser ignorada.
"É um dilema impossível de não imaginar na sua própria relação. Faz você pensar no que faria no lugar dela, porque é um caso assustador, de pesadelo".
Muirhead denunciou o crime à polícia, mas o que fez em seguida é o que torna a história tão extraordinária e, em parte, explica por que a série existe. Em vez de se afastar do parceiro, ela manteve o relacionamento com ele, enquanto, em segredo, procurava a polícia e colaborava com a investigação, sem que McKellar soubesse que havia sido ela a pessoa que denunciou o crime.
Passaram-se quase três anos entre a confissão de McKellar a Muirhead e a condenação dele à prisão.
Nesse período, Muirhead gravou confissões em segredo no celular e voltou à propriedade de Auch Estate com McKellar, onde deixou discretamente uma lata de Red Bull como marcação do local. Depois, avisou a polícia sobre onde procurar o corpo na área isolada.
Embora alguns possam questionar as decisões que ela tomou, Allott diz que Muirhead fez o certo ao denunciar o crime.
Os irmãos McKellar foram presos em dezembro de 2020 e liberados sob fiança em seguida. A acusação formal só veio em dezembro de 2021.
"Ela esperava que os irmãos fossem mantidos em prisão preventiva, fossem julgados e ficassem presos para sempre, e que saíssem de sua vida, mas eles voltaram a fazer parte dela", disse Allott.
Segundo Allott, Muirhead teve que passar por esse momento de incerteza sozinha, pois ficou "exposta a eles por quase um ano e é nesse contexto que as decisões precisam ser entendidas".

Crédito, Netflix
É justamente a complexidade da personalidade de Muirhead que a torna uma figura tão interessante. Segundo Allott, ela "era articulada e inteligente, uma jovem patologista promissora, com oito anos de formação médica".
"Ela tinha a vida encaminhada e, depois de conhecer Sandy [McKellar] e descobrir o que ele fez, tudo desmorona."
Na série, Muirhead fala abertamente sobre como recorreu ao álcool e às drogas para lidar com a situação em que se viu.
Allott e Beavis dizem que a intenção é apresentar um relato equilibrado dos acontecimentos, mas também destacar "o impacto que estar à margem de um crime, sem envolvimento direto, pode ter na vida de alguém".

Crédito, Netflix
Há também um foco da série documental em como a polícia conduziu suas relações com Muirhead depois que ela denunciou o caso.
Allott argumenta que a polícia "não sabia como lidar com Caroline [Muirhead]", e, sem revelar muito, afirma que se ela tivesse recebido "consideração e cuidado da polícia, ela não teria tomado algumas das decisões que tomou".
Beavis, produtora da série, concorda e acrescenta que a experiência de Muirhead "ecoa muitas experiências de pessoas com o sistema de justiça criminal".
"Nós queremos mostrar como as engrenagens da justiça rodam devagar, e como isso afeta as vidas das pessoas."
A polícia escocesa e o órgão de apoio a vítimas da Escócia não quiseram participar da série documental.
Muirhead fez reclamações formais contra a polícia escocesa.
Após cinco anos de investigação, a maioria das reclamações foi arquivada. A polícia escocesa reafirma ter oferecido o apoio adequado a Muirhead.
'À própria sorte'
Em nota sobre a série, Muirhead disse que ela "confiava que o sistema ficaria ao seu lado e que a manteria segura quando ela estivesse em seu momento mais vulnerável, mas não foi isso que aconteceu".
Muirhead acrescentou: "Eu espero que, ao falar publicamente sobre isso e compartilhar o que aconteceu comigo, nós possamos iniciar um diálogo honesto sobre mais proteção para vítimas e testemunhas, além da necessidade desesperadora de um entendimento muito mais profundo sobre saúde mental dentro da polícia e do sistema judicial."
"O impacto de traumas e abusos é frequentemente subestimado ou descartado completamente, e isso significa que pessoas como eu são deixadas à própria sorte para lidar sozinhas com as consequências", concluiu Muirhead.
Em julho de 2023, pouco antes de o início do julgamento dos irmãos McKellar ter início no Tribunal Superior em Glasgow, Alexander "Sandy" McKellar admitiu a acusação de homicídio doloso, com uma pena reduzida.
O irmão dele, Robert, teve aceito seu pleito de inocência em relação ao crime de homicídio culposo, mas os dois irmãos admitiram o crime de obstrução de justiça ao tentarem acobertar o crime.
Alexander "Sandy" McKellar acabou condenado a 12 anos de prisão, e seu irmão, Robert, a cinco anos e três meses.
O caso também foi tema de uma série de documentários da BBC chamada Murder Case: The Vanishing Cyclist (Caso de Homicídio: O Ciclista Desaparecido, em tradução livre)
A minissérie Casar com um Assassino? já está disponível na Netflix.

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