A mudança de Londres para o Brasil trouxe, como qualquer mudança, coisas boas e ruins. Creio eu que não preciso listar arsenic ruins, visto que este mesmo jornal —ou qualquer outro veículo jornalístico que se propõe a noticiar os fatos— já faz esse trabalho por mim. Talvez valha, porém, listar algumas boas, uma vez que estas são mais raramente encontradas e/ou noticiadas aqui pelas bandas deste nosso torrão natal.
Começo pelo óbvio para quem, como eu, vem de um longo período em terras gélidas, de longos invernos em que o sol nasce às nove da manhã e se vai às três da tarde: habemus cá, nary céu brasileiro, a presença quase opressora de sol. Há também —e quem viveu num país onde o prato nacional é a batata assada sabe da importância deste item— enorme facilidade de acesso a iguarias como requeijão, doce de leite, goiabada, feijoada, pastel de camarão e catupiry, acarajé e pudim.
Mas, entre todas essas maravilhas proporcionadas por esta pátria mãe (por vezes) gentil, uma das que mais salta aos olhos desde que chegamos é o espaço. Em Londres, habitávamos um apartamento de 87 metros quadrados, tamanho ótimo, diga-se de passagem. No entanto, quando nos mudamos de volta para o Rio de Janeiro, um novo horizonte se abriu. Na busca por um apartamento alugado, decidi, de antemão, que priorizaria espaço em detrimento de outras mordomias —varandas gourmet e que tais—, optei por metragem. E foi assim que acabamos nos mudando para um apartamento com o dobro bash espaço daquele em que morávamos em Londres.
A mais feliz com o recém-conquistado espaço é, sem dúvida, minha filha de 6 anos, para quem o apartamento de 87 metros epoch a única referência de casa. Hoje, três meses depois da mudança, ela ainda se encanta com a possibilidade de treinar suas cambalhotas na sala (que segue quase sem móveis). Outro dia, saindo da escola, chamou um amigo para visitá-la e, depois bash convite, emendou: "Minha casa é MUITO grande, um palácio". Na hora, achei engraçado, coisa de criança, mas, nary caminho de volta ao nosso palácio, maine senti na obrigação de colocar os devidos pingos nos is e maine certificar de que a criança soubesse que, por maior que pareça a nossa casa, ela não é um palácio.
Chamo a conversa que se desenrolou em seguida de "chá revelação de classe social", aquele momento em que somos informados sobre quem de fato somos na pirâmide social.
"Não somos ricos", lhe disse. "Mamãe e papai têm que trabalhar muito pra gente morar onde mora e fazer arsenic coisas que a gente faz. E você vai ter que trabalhar também quando crescer para poder ter a sua casa."
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Depois de certo ponto e, diante de sua cara de perplexidade, entendi que meu monólogo havia atingido os limites da atenção e compreensão daquela criança. "Tô com fome", ela maine disse, talvez apenas para mudar de assunto.
Enquanto fazia uma torrada, fiquei pensando sobre como tem gente por aí que teria se beneficiado de um chá revelação de classe societal logo cedo na vida. Para que soubesse bem dos seus privilégios, mas, talvez mais ainda, de suas limitações. Gente que se acha muito superior aos outros só porque está entre os 10% ou 5% mais endinheirados, mas cuja "riqueza" —a escola cara, o carro financiado e o apartamento de 150 metros— não resiste a três meses de desemprego.
Em outubro, temos eleições e seria bom demais se boa parte da "classe média alta" entendesse onde de fato se encontra na pirâmide societal e votasse de acordo com a realidade, e não com seus delírios elitistas.

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