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- Author, Ankur Shah
- Role, Editor, Unidade Global da BBC para a China
Published Há 2 minutos
Tempo de leitura: 11 min
Enquanto caminhavam pela praça da Paz Celestial (Tiananmen), em Pequim, em setembro de 2025, o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, pareciam conversar sobre a possibilidade de que transplantes de órgãos possam prolongar significativamente a expectativa de vida humana.
"Os órgãos humanos podem ser transplantados continuamente. Quanto mais se vive, mais jovem se fica, talvez até se alcance a imortalidade", disse o intérprete de Putin.
"Alguns acreditam que, ainda neste século, a expectativa de vida humana possa chegar aos 150 anos", respondeu o intérprete de Xi.

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Era uma conversa condizente com dois líderes fortes que se descreveram como melhores amigos e que, juntos, acumulam 39 anos no poder sem dar sinais de que pretendem deixar seus cargos.
O episódio ofereceu um raro vislumbre de uma parceria pouco compreendida. O trecho da conversa espontânea foi um dos poucos momentos em que essa parceria discreta pôde ser observada de perto.
Putin retornará a Pequim nesta semana, coincidindo com o 25º aniversário do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável entre a Rússia e a China.
Quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visitou Xi na semana passada, foi recebido com banquetes luxuosos, louças douradas e uma visita a um templo antigo. A visita de Putin, no entanto, parece bem mais discreta, com poucas informações divulgadas antecipadamente.

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O porta-voz do governo russo disse que a Rússia esperava obter informações em primeira mão sobre a reunião entre Trump e Xi.
Segundo relatos, Xi mencionou o amigo Putin durante a conversa com Trump na semana passada, enquanto os dois caminhavam por Zhongnanhai, complexo político da China normalmente fechado a visitantes estrangeiros, e brincavam sobre o fato de o líder russo já ter estado ali antes.
Embora parte do governo americano esperasse que Trump pudesse afastar a China da Rússia, essa possibilidade parece cada vez mais distante da realidade.
A China e a Rússia vêm descrevendo sua relação, nos últimos anos, como uma "amizade sem limites". Mas no que essa parceria realmente se sustenta, e até quando ela pode durar?
Nos termos da China
A relação entre os dois países é extremamente desigual, e qualquer acordo fechado entre eles tende a ocorrer nos termos definidos pela China, afirma Alexander Gabuev, do think tank (centro de pesquisa e debates) Carnegie Russia Eurasia Center. "A Rússia está totalmente nas mãos da China, e os chineses podem impor as condições."
Essa desigualdade aparece em diversos setores, sobretudo na economia. A China é hoje o principal parceiro comercial da Rússia, enquanto os russos representam apenas 4% do comércio exterior chinês. Além disso, os chineses exportam mais para a Rússia do que qualquer outro país e possuem uma economia muito maior que a russa.
Anos de sanções ocidentais empurraram gradualmente a Rússia para uma relação comercial cada vez mais dependente da China. A gigante chinesa de tecnologia Huawei, alvo de sanções dos EUA e excluída das redes 5G britânicas depois de uma revisão do governo do Reino Unido, aproveitou a ausência de empresas ocidentais para se tornar peça central do setor de telecomunicações russo.
Com os laços com o Ocidente cada vez mais frágeis, a China passou a ser o principal destino da Rússia em busca de conhecimento técnico, científico e industrial.

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Desde a invasão russa em larga escala da Ucrânia, em 2022, a Rússia passou a depender cada vez mais de componentes chineses para sustentar sua máquina de guerra. Um relatório recente da agência de notícias Bloomberg apontou que mais de 90% da tecnologia submetida a sanções e importada pela Rússia vinha da China, alta de 10% em relação ao ano anterior.
A Rússia tem plena consciência dos riscos desse desequilíbrio. Em um comentário recente intitulado "We bow to no one" ("Não nos curvamos a ninguém", em tradução livre), Dmitry Trenin, presidente do think tank Russian International Affairs Council, deixou claro que a Rússia não quer se tornar um Estado subordinado à China.
Sobre a China, Trenin afirma: "[É] absolutamente essencial preservar uma posição de igualdade em nossas relações e lembrar que a Rússia é uma grande potência, incapaz de ocupar o papel de parceiro menor".
A Rússia tem poucas alternativas viáveis além da China, um comprador que oferece um mercado e um nível de demanda considerados essenciais para a sobrevivência da Rússia. Se a China diminuísse suas trocas comerciais com a Rússia, em um cenário de afastamento do Ocidente, a estratégia internacional russa sofreria forte impacto.
Ainda assim, a Rússia mantém uma vantagem importante e uma proteção contra eventuais pressões da China: sua capacidade de sustentar as próprias posições.

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Segundo Marcin Kaczmarski, professor de estudos de segurança da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, a China tem plena consciência do tamanho dessa desigualdade na relação e evita provocar qualquer reação negativa dentro da Rússia ou entre as elites russas.
"Eu diria que a política chinesa em relação à Rússia pode ser resumida em uma palavra: contenção", afirma Kaczmarski. "A China não está tentando impor a sua vontade aos russos."
Isso se deve, em parte, ao fato de que agir de outra maneira seria imprudente, a Rússia pode ocupar a posição mais fraca da relação, mas continua sendo uma potência orgulhosa.
Segundo Gabuev, do Carnegie Russia Eurasia Center, mesmo que a China tentasse forçar a Rússia a agir de determinada maneira, o país "não é exatamente do tipo que aceitaria isso de imediato".
Ele cita como exemplo a visita de Xi a Moscou, em 2023, quando o presidente chinês teria pedido a Putin que não utilizasse armas nucleares na Ucrânia. Poucos dias depois, os russos anunciaram o envio de armas nucleares para Belarus, movimento interpretado por parte dos analistas como uma forma da Rússia resistir à pressão externa e reafirmar sua independência.
A guerra prolongada da Rússia na Ucrânia pode transformar o país em um problema sob vários aspectos, mas também representa uma vantagem para a China ao avaliar um possível cenário de invasão de Taiwan. "A Rússia ainda tem muito a oferecer em certas áreas militares, como equipamentos especializados que continua capaz de vender, além da possibilidade de testar equipamentos e componentes chineses", afirma Gabuev, do Carnegie Russia Eurasia Center.

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A Rússia também possui vastas reservas de energia consideradas estratégicas para a China. Em uma entrevista coletiva em maio, Putin disse que os dois países estavam perto de dar "um passo muito importante" na cooperação nas áreas de petróleo e gás.
Putin provavelmente se referia ao gasoduto Power of Siberia 2. Segundo relatos, a gigante russa de energia Gazprom e a Corporação Nacional de Petróleo da China assinaram um acordo preliminar sobre o projeto após anos de negociações travadas.
Se for construído, o gasoduto poderá mudar significativamente a relação energética entre os dois países, transportando 50 bilhões de metros cúbicos de gás russo para a China por meio da Mongólia.
Com a crise no estreito de Ormuz ainda em curso, a aproximação energética com a Rússia parece estar beneficiando a China. O objetivo não é apenas obter preços mais competitivos, mas proteger o futuro do abastecimento energético chinês em um contexto global cada vez mais turbulento.
Parceiros, não aliados
Sempre que China e Rússia parecem seguir caminhos diferentes, uma característica central dessa relação fica evidente: nenhum dos dois países é obrigado a acompanhar o outro, porque não existe entre eles uma aliança formal.
Bobo Lo, ex-vice-chefe da missão da Embaixada da Austrália em Moscou, afirma que é essa flexibilidade estratégica, e não a rigidez de uma aliança militar, que confere resiliência à parceria.
"Não se trata de uma aliança, mas de uma parceria estratégica flexível", afirma Bobo Lo, destacando que a relação resiste a repetidas previsões de colapso.
Os analistas ocidentais costumam retratar a parceria entre China e Rússia de duas formas: como um "eixo autoritário" unido principalmente pelo objetivo de enfrentar o Ocidente ou como uma aliança frágil, permanentemente à beira do colapso.
Nenhuma dessas interpretações explica plenamente como a relação entre os dois países vizinhos se tornou estratégica e cada vez mais difícil de substituir, e que, apesar das diferenças e desigualdades entre eles, compartilham interesses estratégicos fundamentais.
E, segundo Bobo, mesmo que a China e a Rússia consigam melhorar suas relações com o Ocidente, os dois países ainda teriam muitos motivos para manter a proximidade.

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O principal deles é a fronteira de 4.300 km compartilhada pelos dois países, historicamente vista como uma fonte de insegurança. Soma-se a isso a complementaridade entre as economias: de um lado, a Rússia como grande exportadora de petróleo, gás e matérias-primas; de outro, a China com uma economia industrial capaz de absorver essa produção em larga escala. E não se pode ignorar a oposição comum a uma ordem mundial liderada pelos EUA.
Diferentemente dos países ocidentais, que impõem sanções e punições com base em divergências de valores, incluindo questões de direitos humanos, a Rússia e a China evitam criticar publicamente as ações uma da outra. Acusações recorrentes de violações em larga escala dos direitos humanos na região chinesa de Xinjiang, negadas pela China, e a morte do líder opositor russo Alexei Navalny levaram parte do Ocidente a adotar uma postura mais cautelosa em relação aos dois países. Rússia e China, no entanto, ignoram essas questões em sua relação bilateral.
"Eles não criticam um ao outro por causa de Xinjiang, do envenenamento de Navalny e de outros episódios", afirma Gabuev, do Carnegie Russia Eurasia Center. "Além disso, compartilham posições semelhantes em diversas questões envolvendo governos locais na ONU. Isso acaba criando uma relação orgânica e simbiótica."

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Gabuev acrescenta que há uma longa trajetória de aproximação entre os dois países. "Esse movimento em direção a uma relação mais pragmática remonta ao período soviético, passando [pelos governos de] Andropov, Chernenko, Gorbachev e Yeltsin", afirma. "E acredito que os chineses seguiram um caminho parecido."
Quanto à durabilidade da relação, um analista chinês que pediu para não ser identificado, reconheceu que a forma como China e Rússia apresentam publicamente a relação, como se fossem uma dupla inseparável, tem também um componente performático, voltado a transmitir uma imagem de unidade e estabilidade.
Na realidade, essa narrativa também serve como ferramenta política para administrar diferenças pontuais entre os dois países. Embora os dois governos se oponham ao que chamam de "hegemonia ocidental", suas estratégias nem sempre coincidem. Segundo o Gabuev, a Rússia deseja construir uma ordem internacional que deixe os EUA completamente de lado, enquanto a China adota uma postura mais cautelosa e pragmática. Os chineses são frequentemente vistos como avessos a movimentos impulsivos, priorizando paciência e ganhos graduais para alcançar resultados duradouros.
Gabuev apontou a reação chinesa às medidas dos EUA no Irã como exemplo dessa diferença de abordagem. De acordo com ele, a China adotou um tom contido e não suspendeu os preparativos para receber Trump. "Isso deixa claro que os chineses procuram evitar provocações e não fechar portas", disse.
Gabuev afirmou ainda que a China continua interessada em manter diálogo com os EUA e evitar conflitos desnecessários, uma estratégia bastante distinta da seguida pela Rússia.
O lado humano
A parceria entre China e Rússia costuma ser analisada sob a ótica da geopolítica e da segurança, mas outro fator importante é o grau de proximidade construído entre as sociedades dos dois países.
No topo dessa relação, Putin e Xi vêm tentando projetar a imagem de uma amizade sem paralelo. Esta é a 25ª visita de Putin à China, e funcionários do governo russo provavelmente mantêm hoje mais contato com autoridades chinesas do que com representantes de qualquer outro país.
Apesar da proximidade exibida pelas lideranças dos dois países, Charles Parton, ex-diplomata britânico na China, vê com ceticismo a ideia de uma afinidade cultural espontânea entre chineses e russos comuns.
"Os chineses querem estudar na Rússia, morar na Rússia, comprar apartamentos na Rússia? Não", afirma Parton. Em sua avaliação, se tiverem escolha, os russos preferem investir no Ocidente e comprar imóveis em Paris, Londres ou Chipre, e não em Pequim, na China.
Nem todos concordam com essa avaliação. Gabuev, do Carnegie Russia Eurasia Center, afirma que o contato entre as populações dos dois países vem crescendo rapidamente, impulsionado em parte pelas sanções ocidentais e pelo endurecimento das regras de visto na Europa, que empurraram mais russos em direção à China.
Viajar para a China se tornou muito mais simples para os russos. Graças a um acordo mútuo de isenção de visto, é possível embarcar em um dos vários voos diários entre Moscou e grandes cidades chinesas e chegar ao destino em poucas horas.
Os russos passaram a usar cada vez mais celulares chineses e carros fabricados na China, especialmente após as sanções impostas pelo Ocidente a Moscou.
"A maior integração, a possibilidade de viajar sem visto e a facilidade de fazer pagamentos e se locomover tornaram a China muito mais próxima dos russos do que era antes", afirma Gabuev. "Além disso, programas de intercâmbio, bolsas de estudo e pesquisas conjuntas aproximam as duas sociedades."

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Embora o desequilíbrio crescente na relação entre Rússia e China represente uma fragilidade no longo prazo, previsões de um rompimento entre os dois países ainda parecem distantes da realidade, ao menos por enquanto.
Apesar das diferenças entre os dois países, Bobo Lo, ex-vice-chefe da missão da Embaixada da Austrália em Moscou, afirma: "A parceria entre a China e a Rússia segue sólida. Ambos os lados entendem que ela é importante demais para fracassar, sobretudo porque não existem alternativas viáveis para substituir essa cooperação".

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