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Chineses amam IA enquanto americanos atacam casa de Altman; o que explica?

Cenas parecidas também são comuns nos Estados Unidos, mas por lá o caldo está esquentando. Pessoas têm organizado protestos contra a IA na frente das principais empresas, e até a casa de Sam Altman, CEO da OpenAI, virou alvo de ataques nas últimas semanas. Primeiro, rolou um coquetel molotov. Depois, segundo relatos, tiros.

Essa diferença não aparece só nessas situações anedóticas, mas também nos números.

No Ipsos AI Monitor 2024, 83% dos chineses disseram ver mais benefícios do que riscos em produtos e serviços com IA. Nos Estados Unidos, esse número cai para 39%.

Outro levantamento, feito pela KPMG com a Universidade de Melbourne, aponta uma distância parecida: 68% dos chineses dizem estar dispostos a confiar na IA, contra 41% dos americanos.

Parece que o humor da sociedade está mudando sobre a tecnologia. Enquanto na China a IA chega como promessa de futuro, nos Estados Unidos parece também uma ameaça.

Mas por que essa diferença tão grande?

Parte da desconfiança nos Estados Unidos tem endereço e nomes certos. Nos últimos anos, os próprios CEOs das grandes empresas de tecnologia construíram uma narrativa quase apocalíptica em torno da IA, que vai desde o desemprego em massa e chega até a riscos existenciais.

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Essas declarações são ao mesmo tempo crença genuína de alguns e estratégia de marketing para atrair investimento. O resultado é uma população que foi convencida, em boa medida pelos próprios criadores da tecnologia, de que o que está sendo construído pode destruí-la.

Na China, esse papo quase não existe.

O que os chineses estão fazendo é transformar sua economia com a tecnologia que já existe, sem embarcar na narrativa mística da tal AGI, a chamada inteligência artificial geral.

Isso não quer dizer que não estejam pensando em modelos mais capazes, mas a aposta não é no messianismo tecnológico, mas na aplicação.

O plano "AI+", lançado pelo governo e incorporado ao planejamento quinquenal, prevê a transformação de toda a economia até 2035, setor por setor, de forma ordenada. É uma estratégia de Estado, não de um laboratório ou de uma empresa.

Há também razões culturais que me parecem importantes para entender essa diferença.

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A China é uma sociedade coletivista, o que significa que o bem do grupo tende a ter mais peso do que os interesses individuais nas decisões coletivas. Nesse enquadramento, uma tecnologia percebida como benefício nacional tem um caminho mais fácil até a aceitação popular.

Ainda podemos somar nesse balaio uma tradição filosófica mais antiga, ligada ao animismo, em que objetos e artefatos podem ser vistos como dotados de presença, sentido e até uma espécie de alma.

É algo que não encontramos tão facilmente difundido na tradição ocidental moderna.

Por fim, a organização política também conta. Quando o estado abraça a IA como projeto nacional e comunica com clareza para a população, passa a existir um tipo de confiança institucional.

Não estou dizendo que esse modelo é melhor, apenas que no caso da China ele produz um resultado diferente na relação das pessoas com a tecnologia. Ignorar isso é entender mal o contraste que estamos observando.

São hipóteses que a literatura acadêmica sobre culturas tecnológicas vem explorando há anos, e que parecem ganhar concretude quando observamos a diferença de como a população dos dois países que lideram o progresso tecnológico começam a pensar o próprio progresso da humanidade.

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A corrida pela IA costuma ser narrada como uma disputa de chips, modelos e investimentos.

Mas o que vi na China esta semana mostra que o resultado também vai depender de algo menos mensurável: a cultura com que cada sociedade decide adotar essa tecnologia.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

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