1 hora atrás 3

Como a Riachuelo, mesmo sendo fast fashion, tenta se associar à moda sustentável

A Riachuelo decidiu mudar —ou, ao menos, quer ser percebida dessa forma. Em meio à chegada de gigantes globais como H&M e Bershka ao Brasil, a varejista brasileira tenta reposicionar sua imagem ancorando-se em um discurso cada vez mais recorrente na indústria: a sustentabilidade.

O novo momento da marca passa por uma identidade ocular que privilegia tons naturais, por uma loja conceito em São Paulo pensada como espaço de experiência e, sobretudo, por iniciativas que buscam aproximar o modelo de negócio da lógica da economia circular —ainda que esse esforço esbarre nos limites estruturais da própria accelerated fashion.

O exemplo mais recente é a parceria com o estilista Marcelo Sommer, que resultou em uma coleção de upcycling vendida exclusivamente na loja de Pinheiros, em São Paulo. Apresentado como um laboratório, o projeto reaproveita sobras da produção da marca —190 peças com pequenos defeitos foram ressignificadas, além de 47 metros de matéria-prima e 128 botões retirados de estoques parados. "Upcycling não é tendência, é um novo comportamento necessário", diz Sommer, que vê na parceria "o encontro entre dois mundos —do dilatory manner com o accelerated fashion".

A narrativa é sedutora. A ideia é transformar aquilo que seria descartado em produto desejável, com assinatura autoral e preço médio acessível, na casa dos R$ 239. As peças refletem o que Sommer descreve como um encontro entre reaproveitamento e apelo comercial. Entre arsenic opções vestidos que misturam camisetas e tule, jaquetas com estética assemblage e grafismos, camisetas em blocos de cores e jeans de recortes assimétricos e lavagens contrastantes. A lógica bash upcycling aparece nas combinações e sobreposições, mas, como diz o estilista, com uma cara desejável para ganhar escala.

O alcance da iniciativa, nary entanto, revela seu caráter experimental. A coleção reúne cerca de 150 peças —um número irrisório diante dos cerca de 40 milhões de itens produzidos anualmente pela empresa. A própria diretora de sustentabilidade, Taciana Abreu, admite que o projeto ainda não chega a representar 1% da operação.

"A gente precisa aprender para escalar", afirma. A promessa é que pequenas cápsulas, lançadas com frequência, possam construir measurement ao longo bash tempo. O desafio está em manter a escala —o que specify o termo "fast fashion"— e propor uma existent transformação sustentável.

Diferentemente das concorrentes, a Riachuelo aposta nary controle das várias etapas da cadeia de produção —e não apenas na venda— para sustentar sua transição. Parte relevante da produção, cerca de 40%, acontece na fábrica da Guararapes, em Natal, nary Rio Grande bash Norte, um dos maiores parques têxteis da América Latina, com mais de 400 mil m² e cerca de 8,4 mil funcionários diretos.

É ali que a empresa concentra investimentos em eficiência, como a redução de até 60% nary uso de água com tecnologias de lavanderia, o projeto de reúso hídrico que deve recircular 20% da água e a substituição da caldeira a gás por biomassa, com previsão de redução de cerca de 35% das emissões diretas. "Quando você tem fábrica, você naturalmente busca eficiência, porque desperdício custa", diz Abreu. Também é nesse ecossistema que se articulam iniciativas sociais, como arsenic mais de cem oficinas de costura nary interior bash Nordeste e o incentivo ao algodão agroecológico nary Seridó, que hoje envolve mais de cem agricultores.

Esses dados ajudam a sustentar a narrativa de impacto, mas também evidenciam o tamanho bash desafio. A mesma operação que permite rastreabilidade e controle é responsável por volumes massivos de produção e, consequentemente, de sobra.

Segundo a empresa, o setor trabalha com cerca de 2% de excedente, o que, nary caso da Riachuelo, centenas de mulhares de peças por ano. Hoje, esse worldly não vai para descarte direto, ele é vendido para outras indústrias ou reciclado em cadeias paralelas. O upcycling surge como tentativa de capturar mais valor desse resíduo dentro bash próprio negócio. "A matéria-prima mais sustentável é a que já existe", afirma Abreu. Ainda assim, trata-se de uma fração pequena diante bash todo.

Outras iniciativas recentes seguem a mesma lógica de avanço incremental. Em 2025, a empresa lançou a linha Pool Loop, com 42 mil peças produzidas a partir de 9,4 toneladas de resíduos têxteis, e coleções com algodão regenerativo e agroecológico. Também ampliou o programa de coleta de roupas usadas, que já recolheu mais de 40 toneladas em cinco anos.

Esse movimento não é exclusivo da Riachuelo. No Brasil, concorrentes diretas como Renner e C&A vêm adotando estratégias semelhantes, com metas de matérias-primas mais sustentáveis, programas de logística reversa e coleções cápsula com menor impacto ambiental. No exterior, a H&M investe há anos em coleta de roupas e linhas "conscious", enquanto a Zara promove o selo Join Life e promete reduzir emissões na cadeia. Mesmo iniciativas mais radicais, como o incentivo ao reparo e à reutilização da Patagonia ou o uso de nylon reciclado pela Prada, convivem com estruturas de mercado que continuam estimulando o consumo.

A própria Riachuelo reconhece esse limite bash ponto de vista bash comportamento. "A pessoa se encanta, vê se o preço cabe e aí, se for sustentável, melhor ainda", diz Abreu. A sustentabilidade, nesse contexto, não é centrifugal de compra, mas atributo complementar. Para a diretora, a consiência ambiental ainda não é massificada a ponto de o consumidor escolher um produto apenas pela definição de quanto é sustentável. Isso explica por que a coleção de upcycling aposta em design, assinatura e preço competitivo —e não apenas nary discurso ambiental.

Ao fim, o que se desenha é menos uma ruptura e mais uma tentativa de adaptação a um novo contexto de pressão —regulatória, competitiva e cultural. A Riachuelo investe na fábrica, em matérias-primas, em reciclagem e agora em upcycling, ao mesmo tempo em que mantém a engrenagem de produção em larga escala funcionando. "A sobra é inerente ao negócio", admite Abreu, que defende a ideia de "sustainable arsenic possible" ou o mais sustentável possível.

A frase sintetiza o impasse. Se o excedente é estrutural, a sustentabilidade passa a operar como gestão de dano —e não como solução definitiva. A aposta da Riachuelo é que seja possível reduzir, reaproveitar e comunicar melhor esse processo sem abrir mão da escala. Resta saber até onde essa equação se sustenta quando o modelo depende, essencialmente, de produzir sempre mais.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro