Afastar crianças e adolescentes das telas é um desafio cada vez mais presente na rotina das famílias. Contudo, a solução passa longe de proibições ou cortes radicais. A psicóloga Aline Restano, autora do livro "Crianças Bem Conectadas", defende que o caminho está na combinação entre diálogo constante, exemplo dos adultos e estratégias práticas para reduzir o tempo de exposição, como criar momentos de qualidade. Nesta matéria, a especialista explica ao TechTudo os impactos do uso excessivo de telas, por que a proibição costuma falhar e quais medidas podem ajudar pais e responsáveis a estabelecer uma relação mais saudável com a tecnologia. Confira a seguir!
Quais impactos o uso exacerbado de telas gera nos jovens e como lidar com o problema? Confira o que diz especialista — Foto: Reprodução/Freepik Quais impactos o uso demasiado de telas causam em crianças e adolescentes?
O uso excessivo de telas apresenta impactos na saúde física e emocional de crianças e adolescentes. Segundo a psicóloga Aline Restano, o hábito atinge diferentes áreas do desenvolvimento. “A gente tem vários impactos físicos, como problemas de postura, obesidade, problemas de visão…”, afirma. Os prejuízos emocionais também vêm sendo cada vez mais observados, especialmente em jovens em situação de vulnerabilidade. “Existe, ainda, o aumento de ansiedade, aumento de depressão e maior exposição a riscos em situações de vulnerabilidade, como ser mais um fator para desencadear transtornos alimentares”, completa.
Aline alerta, também, para o papel das plataformas digitais em contextos mais sensíveis. “Quando um adolescente já está com depressão, com ideias suicidas, esse ambiente digital pode torná-lo mais vulnerável a cometer atos impulsivos de maior risco pra ele”, conclui.
Uso exacerbado de telas por crianças e adolescentes causa impactos físicos e emocionais — Foto: Reprodução/Freepik Por que proibir costuma falhar?
A proibição total do uso de telas tende a não funcionar, principalmente porque o contato com dispositivos digitais é cada vez mais difuso no cotidiano. “A proibição absoluta não tem sido usual, até porque quando falamos de telas, estamos falando em muitas telas”, explica a psicóloga. Mesmo quando o acesso ao celular é restrito, outras telas continuam presentes. “Mesmo que a pessoa consiga segurar o uso do celular, há telas da TV, há telas no avião, há telas de tablet. Ou, às vezes, o jovem não tem o próprio celular, mas usa o celular dos pais”, afirma.
Por isso, Aline destaca a importância de adiar o acesso aos dispositivos, sem abrir mão do diálogo contínuo. “É muito importante que se adie o máximo possível, hoje em dia tendo aquela orientação de adiar celulares até os 14 anos e adiar redes sociais até os 16 anos. E mesmo nesses casos, quando a pessoa só vai ganhar um celular nessas idades, as conversas e orientações devem ser constantes”, diz.
Diálogo claro sobre telas é mais eficaz do que a proibição, de acordo com psicóloga — Foto: Reprodução/Freepik Para ilustrar essa construção gradual, a especialista compara o tema da tecnologia a outros assuntos delicados da educação. “Por exemplo, a gente não conversa com um filho sobre álcool somente quando chega a primeira festa que ele vai”, afirma, ao explicar que essas conversas acontecem ao longo da vida. “Outro exemplo: não é na primeira vez que um adolescente vai sair sozinho na rua que a gente explica como é que funciona pra atravessar ou que não se deve conversar com uma pessoa estranha".
Nesse processo, diferentes assuntos devem ser introduzidos conforme a idade da criança. “É muito importante que essas conversas sejam constantes, incluindo temas como o não encaminhamento de fotos sem autorização, sobre não usar o celular em momentos de refeição, sobre pessoas que estão em chats de jogos ou chats de redes sociais, sobre o funcionamento do algoritmo, sobre como um adolescente se sente vendo as redes sociais de outras pessoas”, afirma.
Aline reforça que o acesso à tecnologia vai acontecer, independentemente das regras familiares.
Para ela, a dificuldade maior está no fato de muitos pais não terem referências anteriores. “Sobre esse assunto de tecnologia, eu costumo dizer que é muito difícil conversar, porque a gente não tem os modelos de como nossos pais lidaram conosco sobre isso”, pontua. Por isso, a orientação deve ser baseada em informação e equilíbrio. “É muito importante ler sobre o assunto, se informar, conversar com outros pais sobre jogos, sobre redes, sobre o que está arriscado”, afirma. Segundo a psicóloga, o tom da conversa também faz diferença. “Essas orientações e conversas têm que se dar de forma tranquila. Não desesperada, não acreditando que todas as pessoas da internet são pedófilas, golpistas; sempre mostrando pra criança ou adolescente que a grande maioria das pessoas é do bem, está lá pra jogar, se divertir, interagir com os amigos nas redes sociais, mas existe sim uma minoria (que acaba sendo um número significativo, mas ainda assim uma minoria) de pessoas que estão lá pra prejudicar o outro”, conclui.
Qual é o papel do adulto como modelo de comportamento digital?
Além das regras e conversas, o comportamento dos adultos tem peso decisivo na relação das crianças com as telas. “O papel do adulto é muito importante não só nas conversas e orientações de forma clara, tranquila, consciente, mas também através do modelo de identificação do seu próprio uso”, afirma Aline.
Embora ainda faltem estudos de longo prazo sobre o impacto das telas ao longo da vida, a psicóloga aponta paralelos com outros comportamentos. “Se a gente pegar outros vícios comportamentais e vícios químicos, a gente sabe que os pais que não apostam, os pais que fazem um uso equilibrado de álcool, formam famílias cujos filhos têm menos chance de ter esse comportamento”, explica.
No dia a dia, pequenas atitudes ajudam a construir esse exemplo. “A gente sabe que faz muita diferença o uso saudável dos pais, como optar por não usar o celular na hora que estão conversando com os filhos, brincando ou no momento das refeições”, afirma. Para ela, essa coerência é fundamental ao longo do crescimento. “Não dá pra gente, na infância do filho, passar olhando o celular enquanto ele está desenhando, montando Lego, tentando fazer uma apresentação de dança pra gente e achar que na adolescência, quando a gente for falar com ele, ele deverá nos olhar”, diz.
Aline também chama atenção para acordos familiares que incluam os adultos. “Essas combinações que valem pra toda a família, essa conversa aberta - ainda que a gente não tenha estudos de longuíssimo prazo de modelos diferentes de uso familiar - por outros tipos de dependência a gente sabe que o uso saudável dos pais vai ter um resultado mais positivo”.
Influência dos pais é de grande importância para manter crianças e adolescentes longe das telas — Foto: Reprodução/Freepik Quais estratégias podem ser adotadas para diminuir o tempo de tela nessas faixas etárias?
Para reduzir o tempo de exposição às telas, a psicóloga defende que o principal caminho é o fortalecimento do vínculo e cita os pais que conhecem seus filhos e que desde o início da vida deles estiveram presentes no momento das brincadeiras. Atividades fora do ambiente digital ajudam a ocupar esse espaço. Ela cita esportes, atividades ao ar livre na presença dos pais e a possibilidade de interagir com pares. Mesmo em espaços menores, alternativas podem ser criadas, como jogos de tabuleiros, ofertas de desenhos e brinquedos como blocos de construção.
O cuidado com o sono também é essencial. “Em horários de sono, é importante retirar a tela uma hora e meia, duas horas antes da criança ir dormir para ela se adaptar a esse instante de estar sozinha, de relaxar a cabeça, de poder se voltar para a leitura, para os próprios pensamentos, lidar com a própria companhia…” afirma, destacando o peso dos momentos de desaceleração.
Mais do que contar o tempo, Aline defende a criação de rituais familiares. “Eu sempre digo que, mais importante até do que o número de horas, é que existam momentos sagrados pra uma família”, afirma. Para algumas famílias, pode ser a hora do esporte, a hora de um ritual religioso, enfim, que as famílias tenham esses momentos de contato em que o uso é proibido. Segundo ela, esses acordos precisam valer para todos. “Que seja uma combinação pra todos, que ninguém vai usar o celular, que é o momento deles conversarem”, conclui.
Brincadeiras ao ar livre e "momentos sagrados" com a família podem ajudar a reduzir o tempo de tela — Foto: Reprodução/Freepik Tecnologia x tecnologia: controle parental, alarmes e outras estratégias
A própria tecnologia pode ser usada como ferramenta de mediação entre crianças, adolescentes e telas. Em vez de apostar apenas na negociação verbal ou na vigilância constante, recursos já disponíveis em celulares, tablets e computadores ajudam a criar limites mais claros. Funções de controle parental, por exemplo, permitem definir quanto tempo um aplicativo pode ser usado por dia, além de bloquear conteúdos inadequados para a idade e até restringir o acesso em determinados horários.
Outra estratégia simples é o uso de alarmes ou temporizadores para marcar o início e o fim do tempo de tela. Esse recurso ajuda a criança ou o adolescente a se preparar para o “fim”, em vez de ser interrompido de forma brusca. Com isso, o encerramento deixa de parecer uma punição inesperada e passa a fazer parte de um combinado previamente estabelecido.
A gestão do acesso à internet também pode ser feita de forma estratégica. Alguns pais optam por desligar o Wi-Fi em horários específicos, como durante as refeições ou à noite, criando períodos naturalmente livres de telas sem a necessidade de monitorar o uso. Nesse caso, o limite não recai sobre uma pessoa, mas sobre a casa como um todo.
Vale destacar que essas ferramentas não substituem o diálogo, mas funcionam como apoio para que os acordos familiares sejam cumpridos com mais consistência.
Qual tecnologia ESPECÍFICA mudou a sua vida??

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3 semanas atrás
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