
Crédito, Polícia Civil/Divulgação
- Author, Pedro Martins
- Role, Da BBC News Brasil em Londres
Há 6 minutos
Tempo de leitura: 5 min
Tudo o que se tem são 15 minutos — e dezenas de milhares de pessoas no meio do caminho.
É um desafio para quem tenta cruzar o Autódromo de Interlagos ao fim de um show e alcançar outro palco, às vezes a mais de cem de metros de distância, antes do início da próxima apresentação.
O empurra-empurra é inevitável, e as mãos nada podem fazer senão se entrelaçar às dos amigos, na tentativa de não perdê-los de vista — quem se solta desaparece, já que o sinal de telefone costuma falhar.
Quando chove — o que é frequente nesta época do ano —, tudo vira lama, e é preciso ainda calcular cada passo para se manter de pé.
Grandes festivais de música em São Paulo, como o The Town e o Lollapalooza — que teve sua última edição neste fim de semana —, são assim.
Essas condições viraram, nos últimos anos, a tempestade perfeita para a atuação de quadrilhas especializadas no furto de celulares em shows.
A Polícia Civil de São Paulo disse à BBC News Brasil que mapeou três grupos, formados em média por dez pessoas, que teriam cometido esse crime.
Eles são diferentes dos criminosos que atuam nas ruas no dia a dia, segundo o delegado Luiz Alberto Guerra, do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope).

Crédito, Ailen Diaz/EPA/Shutterstock
Disfarçados de fãs, eles adotam os mesmos códigos visuais do público e acompanham as tendências de cada edição — desta vez, predominaram camisetas temáticas e looks cor-de-rosa, com calças largas, peças brilhantes e leques.
Foi vestida dessa forma que uma jovem, na casa dos 20 anos, foi presa no primeiro dia do evento, na sexta-feira (20/3), carregando 11 celulares e uma câmera digital nos bolsos e nas roupas íntimas.
A maioria dos aparelhos era composta por iPhones, incluindo o modelo mais recente, que pode custar até R$ 11.500.
O caso é semelhante ao de outras cinco pessoas presas no fim de semana anterior, nos arredores do estádio Allianz Parque, também na capital paulista, onde acontecia um show do cantor sertanejo Luan Santana, que reuniu mais de 50 mil pessoas.
Em comum, está o investimento: eles desembolsam centenas de reais para comprar um ingresso — no caso do Lollapalooza, neste ano, R$ 1.659,44 pelos três dias de evento — certos de que os furtos renderão mais do que isso.
São criminosos jovens, em geral com menos de 30 anos, o mesmo perfil predominante do público, diz o delegado. É como se unissem a diversão dos shows ao "trabalho" no crime, ele acrescenta.
"Os furtos são feitos com uma destreza tremenda, então as pessoas nem percebem. Esse é o grande problema na identificação dos furtadores: eles não agem com violência ou ameaças. Normalmente quem furta, aliás, são mulheres, porque elas podem se aproximar mais tanto de outros homens quanto de outras mulheres sem gerar repulsa. Daí elas passam para outros comparsas, que podem ser homens."

Crédito, Polícia Civil/Divulgação
Dificuldade de flagrante e subnotificação
Guerra diz que essas prisões são difíceis de realizar, justamente pela dificuldade de identificar os criminosos em meio à multidão.
No caso do Lollapalooza, a polícia chegou à suspeita depois que uma das vítimas procurou o ônibus da Polícia Civil instalado próximo à entrada do festival e conseguiu rastrear o celular com outro aparelho — uma função disponível na maioria dos telefones hoje, mas que alguns usuários deixam desativado.
Os policiais então aguardaram a suspeita sair do festival e a abordaram nas imediações, onde encontraram os aparelhos. Metade deles foi devolvida às vítimas no mesmo dia, enquanto o restante ainda passa por perícia e deve ser entregue nesta ou na próxima semana.
Foram registrados 11 furtos neste ano no Lollapalooza — cinco a mais do que no ano passado — no posto móvel ligado à Delegacia de Atendimento ao Turista (Deatur).
O número real, no entanto, pode ser maior, diz Guerra. Isso porque muitos frequentadores desistem de registrar um boletim de ocorrência na hora para não precisar sair do festival, perder shows e ter ainda mais prejuízo.
Essas vítimas acabam registrando a ocorrência pela internet ou em delegacias próximas de onde vivem. Isso dificulta a localização dos aparelhos, acrescenta Guerra, já que, nesse intervalo, os criminosos conseguem desmontá-los. Também torna mais difícil prender os envolvidos e desarticular as quadrilhas.
Os seis suspeitos abordados nos dois eventos realizados neste mês, porém, permanecerão presos. Eles tiveram a prisão em flagrante convertida em preventiva em audiências de custódia e devem ficar detidos até o julgamento.
A pena pode chegar a quatro anos de reclusão, com possibilidade de acréscimo de até três anos por associação criminosa, conhecida como formação de quadrilha.
A receptação é um problema à parte para a polícia. Segundo o delegado, a maioria dos aparelhos é vendida no centro de São Paulo, seja para desmonte e reaproveitamento de peças, seja para exportação — já que o bloqueio da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) não implica, necessariamente, no bloqueio do aparelho no exterior.
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