
Crédito, REUTERS/Adriano Machado
- Author, Rute Pina
- Role, Da BBC News Brasil em São Paulo
Published Há 13 minutos
Tempo de leitura: 8 min
Em um grupo de WhatsApp monitorado por pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), uma advogada de 29 anos de São Paulo diz que não se surpreendeu com o áudio enviado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Bolsonarista moderada, ela diz que tem a sensação de que todos são "farinha do mesmo saco". "Os apoiadores fiéis vão fingir que nada aconteceu, e por isso ele não deve desistir da candidatura", afirma.
"Essa notícia prejudicou a reputação dele; se alguém estava na dúvida sobre votar nele, acho que se inclina para não votar mais."
A avaliação da advogada resume um movimento identificado pelos pesquisadores após a crise que atingiu a campanha do pré-candidato à Presidência.
Segundo a reportagem, o repasse total acordado seria de US$ 24 milhões, o equivalente a cerca de R$ 134 milhões na época. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido de fato liberados entre fevereiro e maio de 2025.
Entre setores conservadores menos ideológicos, justamente um dos grupos considerados estratégicos para as eleições de 2026, a revelação provocou um desgaste relevante na imagem de Flávio Bolsonaro, segundo o Monitor do Debate Público (MDP).
O projeto do Instituto de Estudos Políticos e Sociais da UERJ, com o auxílio do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT/ReDem), mostra que bolsonaristas convictos mantiveram apoio a Flávio e interpretaram o episódio como perseguição política e midiática.
Mas, entre grupos de bolsonaristas moderados e, principalmente, entre conservadores indecisos, apareceram críticas às versões apresentadas pelo senador, dúvidas sobre sua credibilidade e sinais de cansaço com a política.
Os pesquisadores da UERJ acompanham, desde 2023, grupos de WhatsApp formados por diferentes perfis de eleitores.
Atualmente, o estudo monitora seis segmentos, identificados pelos pesquisadores como bolsonaristas convictos, bolsonaristas moderados, indecisos conservadores, indecisos progressistas, lulodescontentes e lulistas.
Os participantes, que recebem semanalmente perguntas sobre fatos recentes da política brasileira, receberam o áudio de Flávio Bolsonaro e foram estimulados a comentar o episódio e avaliar os impactos eleitorais.
'A direita deve ficar junta'
A cientista política Carolina de Paula, que coordena o estudo com o pesquisador João Feres Jr., afirma que o episódio foi um dos raros momentos em que surgiram divergências dentro de segmentos conservadores, que costumam estar alinhados.
"O que é interessante é que os bolsonaristas moderados tendem a trabalhar junto com os convictos, de modo geral. Mas houve um certo desgaste no sentido de falar que a credibilidade dele [Flávio Bolsonaro] poderia estar em jogo", disse à BBC News Brasil.
Segundo ela, os bolsonaristas mais fiéis permaneceram alinhados ao pré-candidato do PL, mas com uma diferença importante em relação a crises anteriores.
"Eles não se abalam, zero. Mas aparece uma coisa que a gente ainda não tinha visto muito nesse grupo: uma ideia de que ele precisa provar sua inocência", afirmou a pesquisadora.
Uma administradora de 47 anos da Bahia defendeu essa posição. Mesmo mantendo o apoio ao senador, ela afirmou que ele deveria apresentar mais esclarecimentos.
"Flávio precisa apresentar toda documentação desse patrocínio com a comprovação de origem e destinação de cada centavo se não quiser comprometer sua campanha eleitoral", escreveu.
"Tenho certeza que o capitão teria tomado essa decisão de recusar qualquer quantia", afirma, em referência ao ex-presidente Bolsonaro.
Os participantes desse grupo também interpretaram o caso como uma tentativa de desgaste político articulada pela mídia e adversários. Muitos deslocaram o foco do conteúdo das denúncias para ataques à imprensa.
"Para começo de conversa, o que a gente ouve ali é uma conversa sobre buscar patrocínio privado para um filme", escreveu uma enfermeira de 24 anos, de Goiás, integrante do grupo de bolsonaristas convictos.
"Todos nós sabemos que em período eleitoral, qualquer conversa ou áudio antigo é jogado na imprensa com o único objetivo de desgastar a imagem do candidato", concluiu.

Crédito, Jakub Porzycki/NurPhoto via Getty Images
Entre bolsonaristas moderados, predominou um discurso mais ambivalente. Os participantes, por exemplo, criticaram bastante as mudanças de versões de Flávio.
Na semana passada, ao ser abordado por um repórter do The Intercept Brasil, o senador inicialmente negou a informação sobre os repasses ao filme Dark Horse. Horas depois, após a publicação da reportagem, ele admitiu ter negociado recursos privados com Vorcaro para financiar a produção.
Um pensionista de 72 anos, do Rio de Janeiro, afirmou que o senador estava "começando a se enrolar nas próprias alegações". "Isso só vai minando a credibilidade dele e a imagem que ele não tinha envolvimento com Vorcaro", escreveu.
Mas, por outro lado, o grupo demonstrou preocupação com os impactos eleitorais para a direita.
Um eletrotécnico de 53 anos do Rio Grande do Norte disse que a direita estava "entregando de mão beijada a eleição para o atual sistema". "E continuarmos nessa doutrinação maligna, até o Brasil afundar de vez e levar o povo brasileiro junto", disse.
"Mas na atual conjuntura, mesmo errados, a direita deve ficar junta e não partida ao meio. Lá na frente isso só vai lascar o povo brasileiro", ele ponderou.
O grupo dos bolsonaristas moderados mostrou resistência a abandonar a candidatura de Flávio por receio de enfraquecer a direita diante do PT, analisa Carolina de Paula.
"É um grupo muito mais preocupado com a preservação do campo conservador. Tem um antipetismo muito forte nesse segmento. Então, como eles ainda não veem possibilidade de outro nome forte, ainda existe o apoio a Flávio Bolsonaro."
'Não confio em ninguém dessa família'
Segundo a pesquisadora, o segmento mais sensível ao episódio foi o dos indecisos, grupo visto como estratégico no próximo pleito eleitoral.
"Há muita desconfiança", resumiu Carolina. "Eles questionam a contradição, veem incoerência e problemas na relação entre política e empresariado. É um público que pode simplesmente se afastar, aumentar a abstenção e o cansaço com a política", afirma.
Entre os conservadores, houve estranhamento e irritação com a ligação do senador com o banqueiro.
Uma maquiadora de 30 anos, do Rio de Janeiro, notou a mudança das versões dadas por Flávio. "Interessante, ele confirma que recebeu o valor, e a produtora do filme nega esse recebimento. Talvez pra não 'sujar' a imagem da empresa estejam negando assim", disse ela, que participa do grupo de indecisos conservadores.
"Não confio em ninguém dessa família."
Já entre os indecisos progressistas, a reação foi diferente. Nesse segmento, o caso não gerou exatamente surpresa, mas funcionou como reforço de percepções negativas já existentes sobre o bolsonarismo.
O grupo também mostrou rejeição ao próprio filme sobre Jair Bolsonaro, interpretado como instrumento de propaganda política.
"O que pega muito para eles é essa ideia de usar um filme para convencer ou enganar", disse Carolina de Paula. "Tudo que eles veem como tentativa de propaganda política gera muita irritação."
Para a pesquisadora, o desgaste entre os indecisos não significa necessariamente migração de votos para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ou para a esquerda.
Ela afirma que o episódio pode aumentar o distanciamento em relação à política institucional, estimulando abstenção, voto em branco ou busca por alternativas dentro da própria direita.
Carolina enxerga que o episódio pode abrir espaço para candidaturas que consigam capturar esse eleitorado mais moderado e cansado da polarização.
"A posição do [Romeu] Zema foi acertada para tentar pegar justamente esse público do meio, que fala muito de transparência e coerência", disse a pesquisadora, mencionando as críticas feitas pelo ex-governador de Minas Gerais ao caso.
Zema classificou como "imperdoável" a conversa em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro — manifestação que o tornou alvo de críticas por parte da direita. Dias depois, disse que o assunto era "página virada".
Ainda assim, ela afirma que ainda é cedo para afirmar quem poderia capitalizar eleitoralmente o enfraquecimento de Flávio Bolsonaro.
Carolina também não enxerga, por enquanto, um rompimento na lógica de polarização.
Até aqui, o cenário de um segundo turno entre Flávio Bolsonaro e o presidente Lula vem sendo considerado o mais provável para as eleições de 2026.
O Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil mostra estimativas de intenções de voto similares para o filho de Jair Bolsonaro e o petista em um eventual segundo turno. Clique aqui para ver.
"Para isso, você tem que ter uma pessoa que arrisque uma outra saída. Mas a gente não tem nenhum nome", disse. "Mesmo quem tenta um discurso outsider, como Renan Santos ou Zema, está muito ligado ao campo do bolsonarismo."
Para que o eleitor saia da polarização, ela afirma, algum candidato teria que tentar ocupar uma posição associada à moderação e à coerência.

Crédito, REUTERS/Adriano Machado
Os pesquisadores ressaltam que o monitoramento não tem valor estatístico e não pretende representar numericamente o eleitorado brasileiro. É uma pesquisa qualitativa, usada para captar sentimentos, percepções e dinâmicas discursivas entre perfis específicos de eleitores.
"São pesquisas que não exigem um registro do TSE para serem divulgadas e são usadas para fazer aprofundamento. As campanhas eleitorais usam muito também", afirma.
"A qualitativa funciona muito como um termômetro rápido. Ela permite captar ruídos, emoções e mudanças de clima político antes mesmo de isso aparecer nas pesquisas quantitativas."
A pesquisadora explica que a pesquisa é feita com recorte de um perfil específico, desenhado para entender esse perfil de eleitor. "Ela é uma parte da leitura do cenário", diz. "A partir dessas inferências, podemos acompanhar como isso se reflete em dados quantitativos ou mesmo nas redes sociais."
A percepção da crise para a pré-campanha de Flávio Bolsonaro apareceu também nos dados quantitativos divulgados nesta terça-feira (19/5) pela AtlasIntel.
Flávio caiu seis pontos percentuais em relação ao levantamento anterior, enquanto sua rejeição subiu para 52%.
A AtlasIntel mostrou ainda que 55% dos entrevistados que tomaram conhecimento dos áudios consideraram as mensagens uma evidência de investigação legítima sobre possíveis irregularidades, enquanto 33% avaliaram tratar-se de uma tentativa de prejudicar o senador.

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