
Crédito, Historica Graphica Collection via Getty Images
- Author, André Bernardo
- Role, Do Rio de Janeiro para a BBC News Brasil
Há 23 minutos
Tempo de leitura: 7 min
Em 1899, o escritor britânico Arthur Conan Doyle recebeu um telegrama do dramaturgo americano William Gillette. Na mensagem, o remetente dizia que estava adaptando Sherlock Holmes para o teatro e pedia autorização do destinatário para tomar algumas "licenças poéticas".
"Posso casar o Holmes?", perguntou Gillette, cauteloso.
"Você pode fazer o que bem entender com ele", respondeu Doyle, impaciente. "Pode casá-lo, assassiná-lo…".
O próprio Conan Doyle assassinou Holmes uma vez. Na verdade, tentou. Foi em 1893, no conto O Problema Final.
"A ideia me ocorrera durante umas férias na Suíça, quando conheci as maravilhosas cataratas de Reichenbach, um túmulo digno para o pobre Sherlock", relata em Memórias e Aventuras (1924).
Mas Holmes não permaneceu "morto" por muito tempo. Nove anos depois, foi "ressuscitado" no romance O Cão dos Baskervilles (1902).
Não foi por falta de aviso de sua mãe. Em 1891, quando confidenciou a Mary Doyle que estava pensando em matar Holmes, Conan Doyle ouviu dela: "Faça o que achar melhor, mas saiba que o público não aceitará isso em silêncio".
E não aceitou mesmo. Conan Doyle recebeu cartas de repúdio e sofreu ameaças de morte.
"Cedeu à tentação após receber garantias de que receberia o dobro de seu cachê normal", revela o pesquisador Leslie S. Klinger.
Mas, afinal, por que Conan Doyle queria tanto se livrar do detetive que, além de lhe conferir prestígio, o ajudava a pagar as contas?
É o próprio Klinger, um estudioso em literatura policial, quem responde:
"Escrever as histórias de Holmes o impedia de se dedicar a trabalhos melhores e mais importantes".
Um desses trabalhos é O Mundo Perdido (1912). Ambientado na Amazônia, teria inspirado Jurassic Park (1993), de Steven Spielberg.
Gênio imortal

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Arthur Conan Doyle morreu em 7 de julho de 1930. Sherlock Holmes, não. O detetive mais famoso da literatura continua vivo até os dias de hoje.
No caso, "até os dias de hoje" não é força de expressão. O ilustre morador da 221B Baker Street acaba de chegar às livrarias com o romance Holmes e Moriarty, escrito por Gareth Rubin, e ao streaming com a série Jovem Sherlock, produzida por Guy Ritchie.
A ideia de escrever Holmes e Moriarty (Globo Livros) partiu do próprio Rubin, famoso pelo thriller A Ampulheta (2023).
"Todo escritor de mistério sonha escrever um romance de Sherlock Holmes", declara o britânico de 50 anos.
"Aquelas noites esfumaçadas, aqueles becos escuros, aquelas facas ensanguentadas... Bem, as histórias de Arthur Conan Doyle estão no nosso sangue. Quando você abre um livro dele, tudo pode acontecer", afirma.
Por sorte, o agente de Rubin é o mesmo dos herdeiros de Conan Doyle. Se ele, como todo escritor de mistério que se preza, sonhava escrever um romance de Holmes, os herdeiros de Conan Doyle, por sua vez, estavam à procura de um autor para assumir o legado de seu ancestral.
O agente colocou os dois em contato, e o resultado desse encontro é Holmes e Moriarty.
"Se ele teria gostado do livro? Acredito que sim!", arrisca Rubin.

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Nos Estados Unidos, os direitos autorais dos quatro romances e dos 56 contos de Sherlock Holmes expiraram no dia 31 de dezembro de 2022.
No Brasil e no Reino Unido, entre outros países, Holmes & Watson, seu fiel confidente, já estavam em domínio público desde 2000, ou seja, 70 anos depois da morte do autor, em 1930.
Quem explica é Richard Pooley, bisneto postiço de Arthur Conan Doyle e diretor do escritório que cuida de seu legado.
"Não impomos condições ou fazemos exigências a ninguém", garante Pooley.
"No caso de Gareth, havia alguns elementos do livro, principalmente no que diz respeito à representação de Watson, de que não gostei. E tenho quase certeza de que meu bisavô postiço também não teria gostado. Mas não somos censores. Escritores, dramaturgos, cineastas e desenvolvedores de videogames, entre outros, têm plena liberdade para escrever o que quiserem", diz.
Indagado se, para escrever uma história de Holmes, precisava da autorização dos herdeiros de Conan Doyle, Rubin responde: "Sim e não".
"Eles leram um esboço antes da versão final e fizeram alguns comentários bastante úteis", prossegue o autor.
"Duvido que vetariam o livro, a não ser que fosse algo completamente insano", pondera.
Tipo o quê? "Bem, se eu resolvesse transformar Holmes em um peixe gigante", dá um exemplo bizarro.
Quase 140 anos depois de sua estreia em Um Estudo em Vermelho (1887), qual é o segredo da longevidade de Holmes?
"Ficamos maravilhados com a sua criatividade, intrigados com a sua observação e enfurecidos com a sua arrogância. Mesmo assim, nos sentimos felizes por tê-lo por perto. Ele traz ordem ao caos", arrisca Pooley.
"Enquanto Watson é o homem comum, Holmes é o herói intelectual. Queremos sempre que a inteligência vença a força".
Herói imperfeito
Enquanto uns adaptam os livros já escritos, outros preferem criar suas próprias histórias. É o caso de Leah Moore, filha do roteirista Alan Moore, e John Reppion, seu marido.
Juntos, Moore & Reppion escreveram, entre outros títulos, as graphic novels O Demônio de Liverpool, ilustrado por Matt Triano, e O Julgamento de Sherlock Holmes, desenhado por Aaron Campbell. Os dois volumes foram lançados no Brasil pela Nova Fronteira.
"Não precisamos pedir autorização à família porque Holmes entrou em domínio público, mas estávamos ansiosos, é claro, com a reação dos leitores", admite Reppion.
"Muitos disseram que fomos fiéis a Conan Doyle porque conseguimos captar as 'vozes' de Holmes e Watson. Isso se deve, em parte, à nossa familiaridade com o Holmes de Jeremy Brett. Enquanto escrevíamos os roteiros, imaginávamos Brett repetindo os diálogos", confessa Moore.
Brett é um dos incontáveis atores que interpretou o maior detetive de todos os tempos. A série The Adventures of Sherlock Holmes teve início em 1984 e chegou ao fim em 1994. Ao longo de dez temporadas, deu origem a 36 episódios e 5 filmes.
"Nunca sabemos como Holmes vai solucionar um mistério. Ao contrário de Hercule Poirot, criado por Agatha Christie, ele pode ser tanto um herói de ação quanto um mestre dos disfarces", afirma Reppion.
Se Brett é o Holmes favorito de Moore & Reppion, o predileto de Benoit Dahan é Peter Cushing. O roteirista e ilustrador francês conheceu o famoso detetive através dos filmes O Cão dos Baskervilles (1959), de Terence Fisher, e O Enigma da Pirâmide (1985), de Barry Levinson.
"O que torna Holmes um personagem tão fascinante é a sua imperfeição. Ele não é como um herói qualquer. Tem defeitos. É arrogante e faz uso de drogas", aponta Dahan.

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Ao lado do também quadrinista Cyril Lieron, amigo desde o tempo do ensino médio, Dahan já lançou duas HQs dentro da série Na Mente de Sherlock Holmes: O Caso do Bilhete Escandaloso (Pipoca & Nanquim) e O Pesadelo do Lago Leathan (inédito no Brasil), ambas em dois volumes.
"Mais do que nas adaptações modernas, buscamos inspiração na obra original. Tentamos honrar ao máximo a memória de Conan Doyle", afirma Dahan.
Além de Brett e Cushing, Holmes foi interpretado por dezenas de outros atores em peças, filmes e séries. A lista inclui nomes como Basil Rathbone, Robert Downey Jr e Benedict Cumberbatch, três dos mais famosos.
O mais recente deles é Hero Fiennes Tiffin, que dá vida ao personagem em Jovem Sherlock.
"Por que admiro tanto Holmes? Acho que, no fundo, todos nós gostaríamos de ser como ele. Bem, às vezes, pelo menos", diverte-se Gareth Rubin.
Versão brasileira

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Na lista dos atores que interpretaram Holmes, há até um português: Joaquim de Almeida.
Foi no filme O Xangô de Baker Street (2001), adaptado por Miguel Faria Jr do romance de Jô Soares. Nele, Holmes é convidado por Dom Pedro II para encontrar um violino Stradivarius desaparecido no Brasil. Jô abriu caminho para outros autores, como Pedro Bandeira, de Melodia Mortal (2017), e Luiz Antônio Aguiar, de Eu Odeio Sherlock Holmes (2024).
Em Melodia Mortal, escrito a quatro mãos com Guido Levi, Holmes investiga a morte de alguns gênios da música, como Wolfgang Mozart, Frédéric Chopin e Ludwig Beethoven.
Bandeira gostou tanto da brincadeira que, no segundo semestre, lança Sherlock Holmes Investiga a Traição de Capitu (Rocco). O detetive interroga os personagens de Dom Casmurro (1899), obra-prima de Machado de Assis, como Bentinho, Capitu e Escobar.
"Eu devia estar no ginásio, entre os 11 e os 14 anos, quando li uma história de Sherlock Holmes pela primeira vez. O título do livro? Nem me lembro mais... O Signo dos Quatro, talvez", puxa pela memória o autor de 84 anos.
"Esse personagem é uma delícia. Eu o conheço tanto que ele mesmo guia meus dedos pelas teclas do computador. Depois de ler e reler tantas vezes as suas histórias, é como se eu mesmo o tivesse criado".
Já Odeio Sherlock Holmes é, nas palavras de Luiz Antônio Aguiar, o drama íntimo de Arthur Conan Doyle, o autor que se tornou inimigo do seu protagonista.
"Os anos em que Doyle não publicou histórias novas de Holmes foram chamados de O Grande Vazio. Ele até tentou emplacar outros heróis, tão bons quanto Holmes, como o Prof. Challenger, mas não teve jeito: não encantaram o público e tiveram vida curta", lamenta Aguiar.

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