Longe da cidade

Quando foi inaugurado, Congonhas ficava em uma região afastada da área urbana de São Paulo. O local foi escolhido por oferecer boas condições de visibilidade e drenagem, além de ficar distante da cidade que ainda se expandia.
O nome Congonhas vem da antiga Vila Congonhas, loteamento criado na região nas primeiras décadas do século 20. Antes da urbanização, a área era ocupada por propriedades rurais, entre elas a Fazenda Congonhas, que deu nome ao futuro aeroporto.
Na década de 1930, a capital paulista precisava de um aeroporto mais adequado às operações comerciais. O Campo de Marte, então principal campo de aviação da cidade, sofria com limitações estruturais e com enchentes provocadas pelo rio Tietê.
Com o tempo, o que era um descampado nos arredores da cidade foi engolido pela expansão urbana. Bairros como Moema e Campo Belo cresceram ao redor das pistas, aproximando cada vez mais a população do aeroporto.
A era internacional
Durante esse período, companhias estrangeiras operavam regularmente no terminal, conectando a capital paulista a destinos internacionais.
Com a evolução da aviação e o surgimento de aeronaves maiores, porém, as limitações físicas de Congonhas começaram a se tornar mais evidentes. A solução encontrada foi transferir os voos internacionais para novos aeroportos com maior capacidade, primeiro em Viracopos (em Campinas) e depois em Guarulhos, inaugurado em 1985.
Ponte aérea

Em 1959, Congonhas tornou-se palco de uma das iniciativas mais emblemáticas da aviação brasileira: a criação da ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro.
O serviço foi lançado pelas companhias Varig, Vasp e Cruzeiro do Sul com um conceito inovador para a época: voos frequentes entre Congonhas e o aeroporto Santos Dumont, no centro do Rio de Janeiro. A ideia era simplificar o embarque e oferecer grande número de horários para atender aos passageiros que viajavam constantemente entre as duas maiores cidades do país.
O modelo consolidou-se como uma das rotas mais importantes da aviação brasileira, reforçando o papel estratégico de Congonhas no transporte aéreo nacional. Hoje, essa rota é disputada fortemente pelas empresas que operam no aeroporto, e tornou-se uma das mais lucrativas do país.
O aeroporto das grandes companhias
Ao longo de quase nove décadas, Congonhas foi base ou palco de operações de algumas das principais empresas da aviação brasileira. Hoje, o local é dominado por voos de Azul, Gol e Latam.
Entre as companhias que já operaram no aeroporto estão:
- Varig
- Vasp
- Cruzeiro do Sul
- Transbrasil
- TAM
- Avianca Brasil
- Pantanal
- Passaredo
Crises e acidentes

A história de Congonhas também inclui episódios que marcaram profundamente a aviação brasileira e provocaram mudanças nas regras de segurança e na operação do aeroporto.
Um dos acidentes mais graves ocorreu em 1996, quando um Fokker 100 da TAM caiu poucos minutos após decolar de Congonhas com destino ao Rio de Janeiro. A aeronave atingiu casas no bairro do Jabaquara e deixou 99 mortos, entre ocupantes do avião e pessoas em solo.
Mais de uma década depois, Congonhas voltaria ao centro das atenções após o acidente do voo TAM 3054, em 2007. Após tocar a pista sob chuva, o avião não conseguiu parar na pista principal, atravessou a avenida Washington Luís e colidiu com um prédio da própria companhia aérea. O desastre deixou 199 mortos e tornou-se o mais grave da história da aviação brasileira.
A tragédia ocorreu em meio ao chamado "apagão aéreo", período de crise no sistema de aviação civil do país marcado por atrasos, problemas operacionais e críticas à infraestrutura aeroportuária.

Após o acidente, autoridades adotaram uma série de mudanças em Congonhas, incluindo restrições operacionais, ajustes na infraestrutura da pista e novas regras para operações em pista molhada.
Mesmo antes dessas tragédias, o aeroporto já havia sido palco de outros incidentes e acidentes ao longo de sua história, reflexo do intenso movimento de aeronaves em uma área urbana densamente ocupada.
Os episódios reforçaram o debate sobre os limites operacionais de Congonhas e sobre o papel do aeroporto dentro do sistema aeroportuário da região metropolitana de São Paulo. Entretanto, a discussão é mais profunda, pois outros aeroportos de referência também ficam localizados em áreas urbanas, além da importância de Congonhas para o país.
Congonhas hoje

Desde que assumiu a concessão do aeroporto em 2023, a espanhola Aena iniciou um amplo processo de modernização do terminal, buscando ampliar a capacidade operacional e atualizar a infraestrutura sem descaracterizar elementos históricos do local.
Segundo Santiago Yus, diretor-presidente da concessionária no Brasil, uma das preocupações da empresa tem sido preservar a identidade arquitetônica de Congonhas, que possui áreas tombadas pelo patrimônio histórico municipal.
"Congonhas é o segundo aeroporto mais antigo do Brasil. Toda a história da aviação brasileira praticamente pode ser contada através dele", afirma.
De acordo com o executivo, diversas intervenções no aeroporto passam por avaliação do Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico) e do DPH (Departamento do Patrimônio Histórico), incluindo mudanças estruturais e até a abertura de novos espaços comerciais.

Entre as ações já iniciadas está o restauro de obras de arte e de elementos arquitetônicos históricos presentes no terminal. O processo inclui pisos, escadas, iluminação, revestimentos e outros componentes que fazem parte do conjunto arquitetônico protegido.
Há também a recuperação do antigo pavilhão de autoridades e de outras obras espalhadas pelo aeroporto, que, segundo Yus, estavam em estado de conservação inadequado.
A modernização do aeroporto também envolve melhorias operacionais. Entre as obras previstas estão a ampliação do pátio de estacionamento de aeronaves e a construção de novas pistas para taxiamento das aeronaves para facilitar o acesso à pista de pouso e decolagem.
Segundo a concessionária, o terminal de passageiros deverá passar por uma ampliação significativa. A área atual, de cerca de 40 mil m², deve chegar a aproximadamente 105 mil m² após a conclusão das obras.

Qual o futuro?
Mesmo com as obras previstas, o futuro de Congonhas continuará condicionado por um fator que acompanha o aeroporto desde sua origem: o espaço limitado, tanto em terra quanto no ar.
O sítio aeroportuário possui cerca de 1,5 km² de área total, uma dimensão bastante inferior à de outros grandes aeroportos brasileiros.
Para efeito de comparação, o aeroporto de Guarulhos ocupa aproximadamente 13 km², enquanto o Galeão, no Rio de Janeiro, possui cerca de 15 km².
Essa limitação impõe desafios para a reorganização das operações dentro do aeroporto.

Segundo Yus, um dos processos conduzidos pela concessionária foi a reconfiguração das áreas destinadas à aviação comercial e à aviação executiva.
Historicamente, parte das aeronaves da aviação geral precisava cruzar a pista principal para acessar determinadas áreas do aeroporto, uma situação considerada pouco eficiente do ponto de vista operacional. A solução adotada foi concentrar as operações da aviação executiva junto à pista secundária, enquanto as operações comerciais permanecem na área principal do aeroporto.
A mudança também abriu espaço para as obras previstas no contrato de concessão. Além das melhorias na infraestrutura aeronáutica, a Aena pretende ampliar significativamente a oferta de serviços e áreas comerciais dentro do aeroporto.
Hoje, há 44 operações por hora em condições normais. São 40 de voos comerciais regulares e quatro da aviação geral, devendo permanecer assim após a conclusão das obras, de acordo com Yus, diminuindo a capacidade de fretamento de voos ou outros tipos de operação permanentemente no local para favorecer aviões com maior capacidade de transporte.

Segundo o executivo, cerca de 20 mil m² deverão ser destinados a novos espaços comerciais. A concessionária pretende atrair novas marcas e operadores internacionais para o terminal, aproveitando a experiência da empresa na gestão de mais de 80 aeroportos ao redor do mundo.
O objetivo, segundo Yus, é transformar a experiência do passageiro e diversificar as atividades econômicas dentro do aeroporto. "Nossa intenção é trazer a melhor experiência possível para o passageiro, com uma variedade comercial mais atrativa e novas experiências dentro do aeroporto", afirmou.
Segundo ele, a ampliação dessas atividades pode aumentar a participação das receitas comerciais na operação do aeroporto nos próximos anos. Mesmo com as transformações planejadas, a concessionária afirma que o objetivo é manter a essência de Congonhas como um dos aeroportos mais emblemáticos do país.
"A cidade abraçou o aeroporto. Não foi o aeroporto que chegou à cidade", conclui Yus.
Curiosidades
Origem do nome: O nome do aeroporto vem da antiga Vila Congonhas, loteamento criado nos anos 1920 na região onde o terminal seria construído. Esse, por sua vez, remete à Fazenda Congonhas, que existia na área antes da urbanização.
A palavra "congonha" designa uma planta nativa usada tradicionalmente para a produção de erva-mate.
Virou atração turística: Nas décadas de 1940 e 1950, visitar o aeroporto era um programa comum para os paulistanos. Muitas famílias iam até o terminal apenas para assistir aos pousos e decolagens das aeronaves, então uma novidade tecnológica que despertava fascínio na população.
Já foi o maior do país: Durante os anos 1950 e 1960, Congonhas foi o aeroporto mais movimentado do Brasil e um dos principais centros da aviação comercial da América Latina. Praticamente toda a aviação comercial que atendia São Paulo passava por ali antes da construção do aeroporto internacional de Guarulhos.
Terminal histórico tombado: Parte do conjunto arquitetônico de Congonhas, incluindo o antigo terminal de passageiros, foi tombado como patrimônio histórico municipal. O edifício preserva elementos arquitetônicos do período em que o aeroporto se consolidava como principal porta de entrada aérea da cidade.
Um dos mais movimentados do mundo: Na década de 1950, Congonhas alcançou um nível de atividade impressionante para a época. Em 1957, o aeroporto chegou a figurar entre os três maiores do mundo em movimentação de carga aérea, segundo registros históricos citados em publicações sobre a aviação brasileira.
Rotas mais movimentadas: Das dez rotas mais movimentadas, seis passam por Congonhas, sendo as quatro primeiras ligando o aeroporto ao Santos Dumont (RJ), Brasília, Confins (MG) e Porto Alegre, respectivamente. Em sétimo lugar está a conexão com São José dos Pinhais (PR) e, em nono, com Salvador.
Dados do aeroporto
Nome oficial: Aeroporto de São Paulo/Congonhas - Deputado Freitas Nobre
Inauguração: 12 de abril de 1936
Passageiros por ano: 24 milhões em 2025, ficando atrás apenas de Guarulhos, que registrou 29,9 milhões de passageiros no mesmo período
Operações: 214.916 pousos e decolagens em 2025 (segundo lugar nacional)
Localização: zona sul de São Paulo, a cerca de 8 km do centro
Pistas: Duas, sendo a 17R/35L (principal) com cerca de 1.940 m e a 17L/35R (auxiliar) com aproximadamente 1.435 m
Horário de funcionamento: Entre 6h e 23h (em casos excepcionais, como voos militares, com o presidente da República ou emergências médicas, o local pode operar de madrugada)
Reportagem
Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

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