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Corpos enfileirados, tiros para matar e perseguição: como o Irã usou a violência para reprimir protestos

Os atos começaram em 28 de dezembro, quando milhares de pessoas marcharam nas principais cidades iranianas contra o regime do aiatolá Ali Khamenei. As manifestações tiveram início em meio à insatisfação popular com a situação econômica do país.

O governo chegou a prometer a abertura de um canal de diálogo com representantes da sociedade para discutir as demandas da população. No entanto, enquanto afirmava que os protestos eram legítimos, o regime apostou na violência para reprimir os manifestantes.

Com o acesso à internet bloqueado, a comunicação com iranianos se tornou extremamente limitada. As poucas imagens que chegaram ao exterior mostravam ruas cheias, prédios em chamas e relatos de perseguição.

  • Vídeos que circularam nas redes sociais no início de janeiro mostravam corpos com marcas de balas, que aparentavam ser de manifestantes na região de Teerã.
  • Dias depois, a agência alemã Deutsche Welle obteve imagens que mostravam dezenas de corpos enfileirados em frente a um necrotério da capital.

“Entraram nas vielas em veículos particulares e atiraram de dentro dos carros contra as pessoas. Eram dois ou três mortos em cada beco”, disse uma testemunha.

Outras pessoas que presenciaram protestos em Teerã e Karaj disseram à BBC que forças de segurança disparavam contra civis a partir de pontes e terraços de prédios. “Se você corresse, não era perseguido, mas, se parasse e gritasse palavras de ordem, abriam fogo”, afirmou uma delas.

Na sexta-feira (16), uma moradora de Teerã contou à Reuters que a filha foi morta há uma semana, depois de participar de uma manifestação perto da casa da família.

“Ela tinha 15 anos. Não era terrorista, nem manifestante violenta. As forças Basij a seguiram quando ela tentava voltar para casa”, disse, em referência a um braço das forças de segurança frequentemente usado para reprimir os manifestantes.

Em entrevista ao podcast O Assunto, o cientista político Demétrio Magnoli disse que onda de protestos é diferente de ciclos anteriores de mobilização no Irã. Segundo ele, as manifestações expõem um regime muito isolado, disposto a recorrer a uma violência sem precedentes para se manter no poder.

“Quando essa história for contada até o fim, nós vamos estar diante de um dos maiores e mais cruéis massacres da história contemporânea. Isso revela que o regime sentiu claramente que lutava pela sua sobrevivência.”

Protesto no Irã — Foto: UGC via AP

Os protestos no Irã começaram após comerciantes iniciarem uma greve e fecharem lojas em reação à situação econômica. As manifestações ganharam força na capital, Teerã, e se espalharam para outras cidades no dia seguinte, com apoio principalmente de jovens e estudantes.

  • A população enfrenta inflação elevada, acima de 40% ao ano. Somente em 2025, a moeda local perdeu cerca de metade do valor em relação ao dólar e atingiu a mínima histórica.
  • O descontentamento também cresceu diante da desigualdade entre cidadãos comuns e a elite do país, além de denúncias de corrupção no governo.
  • Além das questões econômicas, os manifestantes também passaram a exigir a queda do governo do aiatolá Ali Khamenei.

“Todos querem ganhar dinheiro. Mas isso não é mais possível com esses preços. Dá vergonha dizer aos clientes quais são os novos valores”, escreveu um vendedor em uma rede social logo após o início das manifestações.

Iranianos entrevistados pela Associated Press disseram que vários bancos e repartições públicas foram incendiados à medida que os protestos ganhavam força. Para conter a população, forças de segurança usaram armas de fogo, bombas de gás lacrimogêneo e cassetetes.

Mehmet Önder estava em Teerã a trabalho quando os protestos começaram. Cidadão turco, disse que permaneceu escondido no hotel até o local ser fechado por razões de segurança. Depois, ficou na casa de um cliente até conseguir retornar à Turquia.

“Eu entendo de armas, porque servi no Exército no sudeste da Turquia. As armas que estavam sendo disparadas não eram simples. Eram metralhadoras”, disse à AP.

Carros são incendiados durante protesto em Teerã, capital do Irã, no dia 8 de janeiro de 2026 — Foto: West Asia News Agency/Reuters

Manifestantes ouvidos pelo jornal The New York Times relataram que as manifestações ganharam força principalmente pelo sentimento de cansaço da população. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é uma república teocrática, em que a autoridade máxima é o líder supremo.

Saeed, empresário do setor de tecnologia em Teerã, disse ao jornal que as pessoas têm a sensação de que o país está em queda livre. Segundo ele, a situação piorou após a guerra entre Irã e Israel, em junho de 2024.

“Estou cansado e exausto dos tolos e idiotas que nos governam. Cansado de roubo, corrupção e injustiça”, afirmou. “Eu vi um jovem levar tiros na cabeça.”

Outro manifestante ouvido pelo NYT disse que ou as pessoas morreriam ou sairiam das “condições terríveis” em que estão vivendo.

Enquanto isso, o governo começou a adotar um tom agressivo nos meios de comunicação, fortemente controlados pelo regime. Civis que participavam dos protestos passaram a ser rotulados de “terroristas”.

  • Em comunicado transmitido pela TV estatal, a Guarda Revolucionária do Irã acusou “terroristas” de atacar bases militares.
  • O procurador de Teerã afirmou que “terroristas” envolvidos nos protestos poderiam ser condenados à morte.
  • O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã prometeu “não demonstrar qualquer leniência com sabotadores”.

Em discurso no rádio, Ahmad Khatami, membro do alto escalão do regime descreveu os manifestantes como “mordomos” do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e “soldados” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ele disse ainda que os dois líderes deveriam aguardar uma “vingança dura”.

Dias antes, o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, também adotou um tom de ameaça: “Diante daqueles que promovem destruição, a República Islâmica não recuará”.

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