A prática de entrar no perfil de alguém no Instagram e curtir fotos publicadas há anos, comportamento apelidado nas redes de deep like, tem sido cada vez mais associada ao conceito de microtraição. Embora não envolva conversa privada ou encontro físico, o gesto pode gerar desconforto e conflitos no relacionamento. Pesquisas recentes indicam que o uso excessivo de redes sociais está diretamente ligado à queda na satisfação amorosa e ao crescimento de desentendimentos entre casais, especialmente diante de comportamentos online ambíguos e à falta de comunicação.
Para entender como a ciência interpreta esse cenário, o TechTudo conversou com o psicólogo clínico e psicanalista, especialista em saúde mental pela PUC-Minas, Ray Caetano Andrade Pinto. Confira mais detalhes, a seguir!
Microtraição pelo Instagram: psicólogo explica o fenômeno de curtir fotos antigas em outros perfis — Foto: Tero Vesalainen/Getty Images O significado do deep like
Diferentemente de uma curtida casual no feed, o deep like exige uma ação deliberada. O gesto pressupõe uma busca ativa e um direcionamento específico: o usuário precisa acessar o perfil, rolar até postagens antigas e interagir com um conteúdo que já não estava mais em circulação. Essa intencionalidade é o que diferencia a prática de um simples deslize automático pela tela, fazendo com que o movimento seja percebido como uma escolha consciente de dedicar atenção exclusiva a alguém.
Além disso, com base na pesquisa intitulada Social Media and Romantic Relationship: Excessive Social Media Use Leads to Relationship Conflicts, Negative Outcomes and Addiction via Mediated Pathways , o uso excessivo de redes sociais pode reduzir a satisfação no relacionamento e aumentar conflitos por meio de caminhos mediadores, como ciúme, comparação social e dependência da plataforma.
Nesse cenário, o problema não reside necessariamente na ação isolada, mas no contexto emocional em que ela se insere, especialmente quando a dinâmica digital já ocupa espaço sensível dentro do vínculo amoroso
Somado a esse contexto, estudos publicados no Journal of Social and Personal Relationships discutem como comportamentos digitais ambíguos podem ser interpretados como sinais de disponibilidade emocional fora da relação principal, ainda que não ocorra conversa privada ou intenção explícita de aproximação.
Entenda o que é o deep like — Foto: Getty Images Dentro dessa perspectiva simbólica, o psicólogo Ray Caetano Andrade Pinto observa que o gesto pode funcionar como uma forma indireta de comunicação, mesmo quando não há declaração clara de interesse:
Ao aprofundar esse tópico, ele sugere que o movimento pode carregar também um desejo deslocado, em que a responsabilidade por uma eventual aproximação é transferida ao outro.
Assim, o deep like deixa de ser apenas um clique e passa a representar um gesto carregado de intenção subjetiva, consciente ou não, dentro de um ambiente em que toda interação é pública, rastreável e suscetível a interpretações.
A linha tênue da microtraição
Se no tópico anterior o deep like foi analisado como um gesto ativo e simbólico, aqui, a discussão avança para o campo dos limites e das interpretações. O incômodo geralmente não nasce do clique em si, mas da narrativa que ele constrói na mente de quem observa: por que alguém em um relacionamento estaria revisitando fotos antigas de outra pessoa, especialmente quando essas imagens já não aparecem espontaneamente no feed?
É nesse ponto que o conceito de microtraição ganha forma. A expressão passou a ser utilizada para descrever comportamentos que não configuram infidelidade concreta, mas que podem sinalizar uma brecha emocional ou uma disponibilidade simbólica fora da relação principal.
A literatura científica sobre redes sociais e relacionamentos indica que o aumento do uso dessas plataformas está associado a uma maior incidência de conflitos conjugais, sobretudo, quando há comportamentos percebidos como ambíguos ou pouco transparentes.
Estudos publicados no Journal of Social and Personal Relationships discutem justamente como determinadas interações digitais podem funcionar como gatilhos de ciúme e insegurança, não apenas pela gravidade objetiva da ação, mas pela interpretação subjetiva que ela desperta em quem se sente afetado.
Para Andrade Pinto, no entanto, qualquer definição rígida esbarra na singularidade de cada vínculo. “Primeiro, precisamos pensar sobre o que é traição para cada um, uma vez que cada pessoa traz seu próprio conceito e ideia sobre isso,” explica
Ao ampliar essa reflexão, o especialista ressalta que não existe um padrão universal capaz de delimitar de forma definitiva o que ultrapassa ou não o limite da fidelidade, pois cada relação estabelece seus próprios acordos e expectativas.
Isso significa que o mesmo comportamento pode ser interpretado de maneiras completamente distintas, dependendo do histórico emocional do casal e das regras implícitas ou explícitas que sustentam a relação.
Especialista afirma que a comunicação é a melhor forma de lidar com a situação — Foto: Freepik Diante dessa diversidade de percepções, o psicólogo reforça que o ponto de equilíbrio não está na vigilância constante, mas na comunicação aberta entre os parceiros. “Um ponto importante é que haja sempre comunicação entre o casal para alinhamentos sobre essas questões.”
Intencionalidade vs. Impulsividade
Outro fator que torna o debate mais complexo é o próprio desenho das plataformas digitais, estruturadas para estimular permanência e engajamento contínuo por meio de rolagem infinita, notificações e sugestões automatizadas de perfis e conteúdos antigos. Nesse ambiente, a fronteira entre gesto consciente e clique impulsivo pode se tornar menos nítida, especialmente quando o uso da rede já se dá de maneira automática e repetitiva.
A pesquisa Social Media and Romantic Relationship: Excessive Social Media Use Leads to Relationship Conflicts, Negative Outcomes and Addiction via Mediated Pathways aponta que o uso excessivo das redes está associado a conflitos e desfechos negativos nas relações por meio de caminhos mediadores, como dependência comportamental e insatisfação conjugal. Isso sugere que parte das interações digitais pode ocorrer dentro de um padrão automatizado de uso, e não necessariamente como estratégia deliberada de aproximação romântica.
Ainda assim, quando o parceiro descobre a curtida, a interpretação raramente considera o funcionamento do algoritmo; ela parte da emoção e da insegurança. Ray Caetano observa que o movimento mais produtivo não é presumir intenções, mas compreender o que o comportamento desperta em cada um:
Ao ser questionado sobre a diferença entre curtir uma foto recente e uma publicada há cinco anos, o psicólogo relativiza a gravidade objetiva da ação e reforça que o peso do gesto está na experiência subjetiva de quem o interpreta.
No fim, ele lembra que o vínculo amoroso envolve inevitavelmente risco e ausência de controle total sobre o outro.
Psicólogo explica o disputa entre intencionalidade x impulsividade — Foto: Freepik Estabelecimento de acordos digitais
À medida que as redes sociais se consolidaram como extensão da vida cotidiana, elas passaram a integrar a dinâmica afetiva dos casais, influenciando não apenas a comunicação, mas a própria percepção de compromisso. Curtidas, comentários e interações públicas deixaram de ser apenas recursos técnicos e tornaram-se marcadores simbólicos que geram aproximação ou insegurança, dependendo da leitura de cada parceiro.
Pesquisas acadêmicas indicam que conflitos conjugais surgem com maior frequência quando há percepção de ambiguidade ou ausência de combinados claros sobre o ambiente digital. Dessa forma, a discussão sobre microtraição não pode ser dissociada da necessidade de estabelecer acordos explícitos, uma vez que o que é considerado neutro para um casal pode representar quebra de confiança para outro.
Para Andrade Pinto, o caminho mais saudável não passa pela fiscalização constante, mas pela construção conjunta de limites possíveis dentro da realidade específica daquela relação. “Temos uma vasta maneira de se relacionar: relações monogâmicas, não monogâmicas e aquelas abertas em momentos específicos, conforme previamente acordado entre o casal, entre outros formatos”, pontua.
Ao ampliar o olhar sobre os diferentes formatos afetivos contemporâneos, o psicólogo lembra que não existe um único modelo legítimo de relacionamento e que os parâmetros variam conforme o tipo de vínculo estabelecido. Dentro dessa pluralidade, a tentativa de controle absoluto sobre o comportamento do outro tende a gerar mais desgaste do que segurança emocional.
Em vez de vigilância permanente, ele defende a aposta na responsabilidade compartilhada e no respeito aos acordos previamente definidos.
Caso surjam comportamentos que contrariem o que foi combinado, a resposta não precisa ser imediata ruptura, mas pode envolver reflexão sobre a dimensão do impacto e as possibilidades de reconstrução do pacto estabelecido.
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