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- Author, Ione Wells
- Role, BBC News, correspondente na América do Sul
Há 8 minutos
Tempo de leitura: 5 min
É possível que os Estados Unidos queiram que muitos de seus inimigos deixem o poder. Mas eles normalmente não enviam militares para destituí-los fisicamente.
O despertar abrupto da Venezuela assumiu duas formas.
Seus residentes acordaram repentinamente com um barulho ensurdecedor: o som de sua capital, Caracas, sob o ataque dos bombardeios americanos direcionados à infraestrutura militar.
Seu governo também acordou agora de qualquer ilusão de que a intervenção militar dos Estados Unidos ou a mudança de regime fossem apenas uma ameaça distante.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que o líder venezuelano, Nicolás Maduro, foi capturado e levado para fora do país. Agora, ele enfrenta acusações de tráfico de armas e drogas. Seu paradeiro exato é desconhecido e seus colegas exigiram provas de que ele continua vivo.
Os EUA não realizam uma intervenção militar direta na América Latina como esta desde a invasão do Panamá em 1989 para derrubar o então governante militar Manuel Noriega.
Naquela época, assim como agora, Washington apresentou a ação como parte de uma campanha mais ampla contra o tráfico de drogas e a criminalidade.
Os EUA há muito tempo acusam Maduro de liderar uma organização criminosa dedicada ao tráfico ilegal, algo que ele nega veementemente. Designaram como grupo terrorista estrangeiro o "Cartel dos Sóis", nome com o qual os EUA se referem a um grupo de elites venezuelanas que, segundo afirmam, orquestram atividades ilegais como o tráfico de drogas e a mineração ilegal.
Esta última operação, executada diretamente dentro de uma capital soberana, marca uma escalada dramática na participação dos EUA na região.
Mudança de regime
A destituição forçada de Maduro será aclamada como uma grande vitória por algumas das figuras mais belicistas do governo dos Estados Unidos, muitas das quais têm argumentado que apenas uma intervenção direta poderia forçar Maduro a abandonar o poder.
Washington não o reconhece como presidente do país desde que as eleições de 2024 foram amplamente rejeitadas pelos observadores internacionais por não terem sido livres nem justas.
Para o governo da Venezuela, essa intervenção confirma o que vem afirmando há algum tempo: que o objetivo final de Washington é uma mudança de regime.
A Venezuela também acusou os EUA de quererem "roubar" suas reservas de petróleo, as maiores do mundo, e outros recursos, uma acusação que considerou justificada depois que os EUA confiscaram pelo menos dois petroleiros na costa.

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Os ataques e a captura ocorrem após meses de escalada militar dos Estados Unidos na região.
Os EUA enviaram para a região o seu maior contingente militar em décadas, composto por aviões de combate, milhares de soldados, helicópteros e o maior navio de guerra do mundo.
Realizaram dezenas de ataques contra embarcações pequenas supostamente dedicadas ao tráfico de drogas no Caribe e no Pacífico oriental, nos quais morreram pelo menos 110 pessoas.
Qualquer dúvida que pudesse existir sobre o fato de que essas operações estavam relacionadas, pelo menos em parte, com uma mudança de regime, foi dissipada com as ações deste sábado.
O que ainda não está claro é o que acontecerá agora dentro da própria Venezuela.
Futuro incerto
É evidente que os EUA desejam que a oposição venezuelana, da qual são aliados, assuma o poder, possivelmente liderada pela líder oposicionista María Corina Machado, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, ou pelo candidato oposicionista das eleições de 2024, Edmundo González.
No entanto, mesmo alguns dos críticos mais ferrenhos de Maduro alertam que isso não seria fácil, dado o controle rígido sobre o poder exercido pelo governo do país.
O governo controla o Poder Judiciário, o Tribunal Supremo de Justiça, o Exército e está alinhado com paramilitares fortemente armados conhecidos como colectivos.
Alguns temem que a intervenção dos EUA possa desencadear uma fragmentação violenta e uma prolongada luta pelo poder.
Mesmo alguns dos que detestam Maduro e desejam sua saída mostram-se receosos com a intervenção dos Estados Unidos como meio para alcançar esse objetivo, lembrando-se das décadas de golpes de Estado e mudanças de regime apoiadas pelos EUA na América Latina durante o século 20.
A própria oposição também está dividida: nem todos apoiam a transição para Machado nem o seu apoio a Trump.

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Não está claro qual será o próximo passo dos EUA.
Tentarão promover novas eleições? Tentarão destituir outros altos cargos do governo ou do exército e obrigá-los a enfrentar a justiça nos EUA?
Quanto a Trump, seu governo tem se tornado cada vez mais agressivo na região, com um resgate financeiro para a Argentina, tarifas impostas ao Brasil para tentar influenciar o julgamento por golpe de Estado contra o aliado de Trump e ex-presidente brasileiro de direita Jair Bolsonaro, e agora a intervenção militar na Venezuela.
Agora, ele se beneficia de ter mais aliados na região, já que o continente se inclinou para a direita nas últimas eleições, como no Equador, na Argentina e no Chile. Mas, embora Maduro tenha poucos aliados na região, ainda há grandes potências como o Brasil e a Colômbia que não apoiam a intervenção militar dos EUA.
E alguns dos próprios apoiadores de Trump nos EUA também não estão satisfeitos com o seu crescente intervencionismo, depois de ter prometido colocar "os EUA em primeiro lugar".
Para os aliados mais próximos de Maduro, os acontecimentos de sábado levantam questões urgentes e receios sobre o seu próprio futuro.
É possível que muitos não queiram abandonar a luta nem permitir uma transição, a menos que sintam que podem receber algum tipo de proteção ou garantia contra a perseguição.

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