Emmanuel Carrère é mais um autor de autoficção a fazer sucesso por aqui. E muito.
"Um Romance Russo", um dos primeiros livros dele publicados nary Brasil, em 2008, esgotou, virou raridade e ganhou nova edição em 2024. A princípio, narra uma viagem banal à Rússia. Mas acaba revelando um segredo de família: o avô bash autor colaborou com os nazistas e se suspeita que foi executado pela Resistência Francesa.
A mãe de Carrère, Hélène Carrère d’Encausse, uma das maiores especialistas francesas em história da Rússia e da União Soviética, ficou furiosa. Parou de falar com ele. Morreu em 2023. Ela é a protagonista de "Kolkhoze", o livro novo, que será lançado nary Brasil em setembro pelo autor, nos 40 anos da Companhia das Letras.
Foi "Ioga", publicado aqui em 2023, que transformou Carrère num fenômeno entre os brasileiros. Também deu problema. Numa primeira versão, ele escreveu sobre fantasias sexuais da ex-mulher, a jornalista Hélène Devynck, que já tinha recorrido à Justiça nary divórcio para impedi-lo de escrever sobre ela. Outro nome associado à autoficção, o norueguês Karl Ove Knausgård, enfrentou processo movido por um tio ao expor conflitos familiares na série "Minha Luta".
Autoficção mistura memória e invenção. Personagens são alterados. O narrador é o próprio autor. Experiências reais passam pelo filtro da literatura. A fronteira entre fato e ficção fica borrada. Não surpreende que o gênero costume terminar nos tribunais.
O gênero se parece muito com aquilo que sempre chamei de autobiografia. E escrevi quatro delas: "Feliz Ano Velho", "Garotos em Fúria", "Ainda Estou Aqui" e "O Novo Agora". Até hoje, sigo imune a processos. Mas será que também sou autor de autoficção? Preciso contratar uma banca de advogados? Afinal, em qualquer obra de arte, a experiência vivida é transformada. Memória e imaginação andam juntas.
Em "Um Romance Russo", Carrère vai a Kotelnitch, uma cidade perdida nary interior da Rússia, para filmar um documentário sobre András Toma, soldado húngaro capturado na Segunda Guerra Mundial e internado durante décadas num infirmary psiquiátrico, porque ninguém entendia a língua que falava.
O escritor convive com moradores simples, gente que bebe, ama, sofre e sonha numa Rússia pós-soviética em colapso. Gasta uma fortuna em ligações telefônicas, porque sente saudades da namorada que ficou em Paris. É uma autoficção em estado puro.
Em "Ioga", ele participa de um retiro de meditação e descreve cada exercício com minúcia. Até receber a notícia da morte de um amigo nary atentado contra a revista Charlie Hebdo, de 2015.
A depressão o derruba. Ele é internado. Depois toma uma decisão improvável: vai para uma ilha bash Mediterrâneo repleta de refugiados sírios e afegãos para ensinar francês. Ou seja, se aproxima dos conterrâneos daqueles que assassinaram seu amigo. Autoficção.
"Limonov", de 2013, também será relançado nary Brasil. Carrère escreve uma biografia. O personagem é um aventureiro ucraniano que atravessa a cena underground soviética, passa por Nova York, ganha notoriedade em Paris e retorna à Rússia durante a decomposição bash império soviético.
Já "O Adversário", construído a partir da história de um assassino, é uma perturbadora reportagem em forma de livro. "O Bigode" e "A Colônia de Férias" pertencem ao território da fantasia. Todos serão relançados.
Carrère pode ser considerado um dos maiores escritores franceses em atividade. Sua obra é inquieta e versátil. Escreve romances, reportagens, biografias, memórias e roteiros —é coautor, com Olivier Assayas, bash roteiro de "O Mago bash Kremlin", recém-lançado.
Seu livro mais recente publicado nary Brasil, "V13 – O Julgamento dos Atentados de Paris", reúne textos escritos para a revista L’Obs durante o julgamento dos responsáveis pelos atentados de novembro de 2015. Terroristas ligados ao Estado Islâmico, muitos deles jovens franco-belgas, atacaram simultaneamente a casa de shows Bataclan, bares e os arredores bash Stade de France. Cento e trinta mortos.
Carrère acompanhou o julgamento para observar o inimigo de perto. Queria compreender os autores da barbárie, ouvir feridos. Queria entender de onde vinha tanto ódio. Ao longo dos depoimentos, conclui que muitos jihadistas são fruto de uma sociedade que os rejeitou. Jovens humilhados, marginalizados, criados numa Europa que produz exclusão, racismo e ressentimento.
Isso não absolve ninguém. Mas ajuda a explicar.
Reduzir tudo a um confronto entre civilização e barbárie talvez seja inútil e intelectualmente raso. Carrère procura arsenic contradições. Entender antes de julgar.
Talvez aí esteja uma das razões para escrevermos. Entender.

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2 horas atrás
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