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É #FAKE que EUA foram 'donos' da Groenlândia durante a 2ª Guerra Mundial e 'devolveram' a ilha à Dinamarca após o fim do conflito

Alegação foi feita por Donald Trump em discurso no Fórum de Davos nesta quarta. Ao Fato ou Fake, especialista explicou que acordo de 1941 nunca previu transferência da ilha aos americanos e reconhecia, inclusive, a soberania dinamarquesa.


Presidente dos EUA deu declaração enganosa sobre relação americana com a Groenlândia durante a Segunda Guerra Mundial — Foto: Redação

Mas isso não é verdade. A história começa em 1940, quando a Alemanha nazista ocupou a Dinamarca. Em 9 de abril do ano seguinte, os EUA assinaram o acordo "Defesa da Groenlândia" com o embaixador dinamarquês. O documento, que tornou a ilha uma espécie de "protetorado" dos americanos, garantia a construção de bases miliares no território, mas nunca previu a transferência definitiva de "posse" após o fim da guerra (leia mais abaixo).
  • Após participar de Davos, Trump disse que o governo americano e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estabeleceram a estrutura de um futuro acordo envolvendo a Groenlândia e, de forma mais ampla, a região do Ártico. Isso marcou um recuo em relação à sequência de recentes ameaças contra o território.
  • Desde o início de seu segundo mandato, em 2025, Trump encampou discurso pela anexação da Groenlândia, alegando que o controle do território seria crucial para os interesses de segurança nacional de Washington. Segundo o presidente, um dos desdobramentos da tomada da ilha seria a instalação de um sistema de defesa antimíssil conhecido como "Domo de Ouro".
  • Localizada entre os EUA e a Rússia, a Groenlândia é uma ilha de 2.166.000 km² e vista há muito tempo como uma área de grande importância estratégica, particularmente no que diz respeito à segurança do Ártico (veja infográfico abaixo).
  • Os EUA já têm uma base militar na ilha, mas ao longo do tempo reduziram drasticamente sua presença no país, de cerca de 10 mil militares durante o auge da Guerra Fria, para menos de 200 atualmente.

Ao Fato ou Fake, Vitelio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF) detalhou:

"A Alemanha Nazista ocupou a Dinamarca em 1940, surgindo o temor de que a Groenlândia cairia em mãos alemãs. Aí, em 1941, os EUA e representantes dinamarqueses no exílio assinaram um acordo que permitia aos americanos proteger o território e instalar bases e aeroportos. Esse acordo nunca previu nenhuma transferência de posse. Os americanos agiram para ajudar um aliado, mas a Groenlândia nunca foi dos EUA".

O texto do acordo pôde ser encontrado no site govinfo.gov, pertencente ao Government Publishing Office (GPO, na sigla em inglês), que é uma agência federal americana. O primeiro artigo do acordo diz:

"O governo dos Estados Unidos da América reitera seu reconhecimento e respeito pela soberania do Reino da Dinamarca sobre a Groenlândia. Reconhecendo que, em decorrência da atual guerra europeia, há o perigo de que a Groenlândia possa ser transformada em um ponto de agressão contra nações do continente americano, o Governo dos Estados Unidos da América, tendo em vista suas obrigações decorrentes do Ato de Havana, assinado em 30 de julho de 1940, aceita a responsabilidade de auxiliar a Groenlândia na manutenção de sua posição atual".

Excerto do acordo entre EUA e Dinamarca para a proteção da Groenlândia contra a invasão alemã — Foto: Departamento do Estado americano

Brustolin recapitula que em 1946, no seguinte à vitória dos Aliados sobre o Eixo, o governo Truman (1945-1953) tentou comprar a ilha Dinamarca: "Foi feita uma proposta formal de US$ 100 milhões em ouro para a Dinamarca, mas foi rejeitada".

Já em 1951, Estados Unidos e Dinamarca assinaram um novo acordo que permitiu a instalação de bases americanas na ilha.

"O acordo de Defesa de 1951 confirmou a soberania dinamarquesa e levou à instalação de bases militares que podem permitir, inclusive, esse 'Domo de Ouro' que Trump quer instalar no território. Além disso, ele possibilitou a consolidação dos EUA dentro da arquitetura da Otan. Em 2009, esse acordo foi revisto, para incluir também os interesses da população local da Groenlândia", diz Brustolin.

Infográfico mostra a posição estratégica da Groenlândia — Foto: Editoria de Arte/g1

Presidente dos EUA deu declaração enganosa sobre relação americana com a Groenlândia durante a Segunda Guerra Mundial — Foto: Redação

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