2 horas atrás 5

Ele deixou o supertime de IA de Zuckerberg: 'Meta não era o lugar certo'

Radar Big Tech: Há nos EUA preocupação sobre a construção de data centers, devido ao gasto energético e hídrico. A capacidade por lá é da ordem de 55 GW e a nossa não não chega a 1 GW. Faz sentido restringir a instalação no Brasil com base no que acontece nos EUA?
Matt Velloso:
Eu sou muito pragmático com as coisas. Não dá para simplesmente cruzar os braços e falar: "Eu não aceito isso, porque vai causar dano ao meio ambiente". A gente não consegue regular a evolução e impedi-la de acontecer. Se eu falo assim, "Não vai ter mais data center porque ninguém consegue resolver esse problema", o que que vai acontecer? EUA, China e outros países vão evoluir 100 anos em cinco, e a gente vai voltar para 1500, quando os europeus chegaram e a gente estava despreparado. Não é uma solução pragmática simplesmente não aceitar porque causa poluição. A solução é criar as duas variáveis, a do incentivo econômico, fiscal e à infraestrutura, e a que vem junto, sem impedir o que torna aquilo economicamente inviável. As duas coisas têm que andar juntas, senão não tem progresso, não tem nada, só tem gente reclamando e impedindo a coisa de acontecer.

Radar Big Tech: O Tribunal Superior Eleitoral tem criado regras para coibir o uso ilícito de IA nas eleições. Essas barreiras são suficientes?
Matt Velloso:
É um começo, com certeza, e é melhor que nada. Mas eu voltei de Boston recentemente e ouvi empresários de marketing discutindo como vão usar a inteligência artificial para mapear cirurgicamente os eleitores indecisos. A eleição no Brasil, assim como nos EUA, vai se resumir a encontrar essa camada de eleitores indecisos e minerá-la cirurgicamente com IA. Vão atacar essas pessoas com informação direcionada para induzi-las. Se eu vou atrás da minoria indecisa e controlo a opinião dela, eu controlo a eleição de um país e, para mim, isso é vender voto. Bom que estão regulamentando, mas não é nem de longe o suficiente.

É só olhar o que aconteceu com a Cambridge Analytica. Foi exatamente isso, só que agora as armas são muito mais poderosas para fazer de novo. Está abaixo do radar porque o problema não é só se o ChatGPT pode ou não falar de política. Isso não resolve tudo. Mas, muito em breve, se a gente entrar em um tribunal com o vídeo de alguém matando uma pessoa, não haverá mais como provar se é verdade ou não. Como as autoridades vão decidir? Nós precisaremos de um sistema de reputação e assinatura digital. Se sair um vídeo na internet, precisaremos checar: foi assinado digitalmente por quem? Veio de um grande veículo de imprensa com reputação ou de uma pessoa aleatória? A reputação terá de ser usada como parte da decisão. Teremos que repensar o sistema de Justiça.

Radar Big Tech: As grandes plataformas têm feito esforços conjuntos para tentar identificar e rotular o conteúdo sintético. Esse caminho funciona?
Matt Velloso:
Nem de muito longe. É bom o Google assinar digitalmente um vídeo gerado por IA e criar uma identificação. O criminoso, porém, não vai fazer isso, ele vai usar um modelo de IA que não tem trava [de segurança] nem marca d'água. As pessoas de bem obedecem à lei, os criminosos não. Não haverá um modelo de IA capaz de olhar para um vídeo e cravar com certeza se ele é digital ou real; será um jogo de gato e rato que nunca vamos ganhar. O único caminho lógico é a assinatura digital na origem para provar a procedência. Se um anônimo posta algo, já temos de olhar com desconfiança saudável.

Radar Big Tech: No Google, você participou do desenvolvimento do Gaia, um modelo treinado com dados brasileiros. Vale a pena o Brasil investir na criação de modelos fundacionais próprios de IA para competir globalmente?
Matt Velloso:
O Gaia foi a última coisa que anunciei antes de sair do Google, e tenho orgulho disso até hoje. Existe espaço para iniciativas locais quando a pergunta é: que dados nós temos que os grandes laboratórios internacionais não têm? Muitas empresas brasileiras possuem acesso a informações e dados que são o novo petróleo, com um valor enorme. Há espaço. Mas eu acho que, agora, criar grandes modelos fundacionais para competir com OpenAI, Google ou DeepSeek não deve ser a prioridade do Brasil. Custa um absurdo de dinheiro e leva tempo, e teremos dificuldade de andar na velocidade deles. No final das contas, temos modelos open source [de código aberto] excelentes licenciados que podemos usar. Se temos recursos limitados e nos preocupamos com a soberania nacional, primeiro devemos construir a infraestrutura de energia e de data centers. Se fizermos a base, vão aparecer as oportunidades de treinar modelos locais ou de fazer trocas com laboratórios.

Radar Big Tech: Muitas startups nacionais vivem sob o risco de serem engolidas da noite para o dia por uma nova atualização da OpenAI ou da Anthropic. Como se proteger desse choque?
Matt Velloso:
Logo que saí da Meta, passei três semanas criando uma startup sozinho, só para ver no que dava. Alguns investidores me ofereceram dinheiro e eu recusei, mas perguntei se eles não tinham medo de a Anthropic copiar a minha solução em poucos dias. Eles disseram: "Matt, todo mundo está nessa situação agora. Toda startup tem esse risco e essa é a nossa realidade agora. Se formos nos preocupar com isso, a gente não investe em mais nada". Essa é a realidade de todos. Mas há um detalhe: ainda que eu consigo usar ferramentas modernas para replicar a estrutura do Instagram em duas horas, não significa que os usuários virão. O segredo está na capacidade de distribuição e em ter dados que ninguém mais tem. Além disso, os grandes laboratórios não podem atacar tudo, já que têm problemas gigantescos para resolver. Há muito espaço para criar soluções e estabelecer negócios viáveis. O momento é preocupante, mas nunca houve época melhor na história para criar uma empresa. Um sujeito sozinho consegue fazer milagres com IA.

Leia o artigo inteiro

Do Twitter

Comentários

Aproveite ao máximo as notícias fazendo login
Entrar Registro