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Eletrônico estragou em dias de chuva mesmo fora da tomada? Evite conexões

O Brasil detém o título de campeão mundial em incidência de raios, registrando uma média impressionante de 118 milhões de descargas atmosféricas por ano entre 2018 e 2022, como mostra os dados do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Esse fenômeno natural é um problema econômico real que causa prejuízos de cerca de R$ 1 bilhão anuais aos setores de tecnologia, telecomunicações e indústria. A cada temporada de chuva, o cenário se repete em milhares de lares brasileiros: smart TVs, roteadores e micro-ondas queimam indiretamente deixando consumidores perplexos sem entender a situação.

Para entender por que o isolamento do plugue de energia é apenas uma parte da solução e como os mecanismos físicos de indução e condução metálica operam em 2026, o TechTudo consultou especialistas para explicar a vulnerabilidade dos componentes durante as chuvas. Participaram desta análise Victor Henriques, engenheiro da Help Reformas e Construções; Clever de Souza, engenheiro civil e professor da FMU; e Léo Seidel, coordenador dos cursos de graduação em Engenharia Elétrica da Uniasselvi.

 Reprodução/Freepik Proteja sua casa com dispositivos automáticos contra surtos elétricos. Especialistas explicam por que Smart TVs e roteadores queimam durante tempestades. A prevenção técnica vai além de desconectar cabos de energia de forma manual — Foto: Reprodução/Freepik

Veja abaixo o índice com todos os tópicos que serão abordados:

  • Os caminhos que o raio percorre até o seu aparelho;
  • O perigo invisível: quando nem o fio importa;
  • Você corre risco ao desconectar cabos durante a tempestade?
  • O que instalar para proteção automática, mesmo sem estar em casa;
  • Proteção para aparelhos que não podem ser desligados;
  • Dicas práticas.

Os caminhos que o raio percorre até o seu aparelho:

O erro mais comum do consumidor, é acreditar que desconectar o plugue da tomada garante imunidade total durante uma tempestade, como aponta o engenheiro Victor Henriques. Na prática, a descarga elétrica é oportunista e utiliza qualquer caminho metálico para invadir a residência.

"Mesmo que a Smart TV esteja fora da tomada, o surto pode entrar pelo cabo da operadora ou pela antena e atingir os circuitos internos", alerta Henriques.

Segundo ele, um raio nas proximidades gera um campo eletromagnético tão intenso que induz corrente nesses condutores, danificando a placa principal.

 Reprodução/Sikkema/Unsplash Retirar o plugue da tomada não garante proteção total contra raios. Descargas elétricas utilizam cabos de rede e sistemas de TV para atingir circuitos sensíveis. Entenda os mecanismos físicos que causam prejuízos mesmo sem conexão elétrica — Foto: Reprodução/Sikkema/Unsplash

Essa rede de condução é ainda mais ampla do que parece, segundo a análise do engenheiro civil e professor Clever de Souza. Ele reforça que até estruturas metálicas da edificação e tubulações de água podem servir de trilhas alternativas para a energia atmosférica. Léo Seidel acrescenta que aparelhos como roteadores e modems estão entre os mais vulneráveis.

"Esses equipamentos sofrem elevações bruscas de tensão vindas das linhas de sinal e telefonia, tornando-os os alvos mais frágeis da casa", explica Seidel.

A ciência por trás desses danos é documentada pelo NIST (EUA), que descreve como transientes elétricos de alta energia viajam por cabos de dados com a mesma facilidade das linhas de força. A velocidade desse deslocamento é tão alta que, conforme os registros técnicos do instituto, os componentes sensíveis são destruídos antes que qualquer ação manual de proteção possa ser executada pelo usuário.

O perigo invisível: quando nem o fio importa

Além dos surtos que viajam por cabos, existe um fenômeno menos conhecido e ainda mais difícil de evitar: a queima por indução eletromagnética. Nesse cenário, o aparelho não precisa estar conectado a nada para sofrer danos. O engenheiro Victor Henriques explica que, embora seja uma situação menos comum em residências, um raio muito próximo gera campos magnéticos capazes de induzir tensão diretamente nos circuitos.

"Pequenas induções podem ser suficientes para causar danos, já que chips modernos operam com tensões baixas, próximas de 1 volt", alerta o especialista da Help Reformas.

Essa vulnerabilidade é ampliada pela miniaturização da tecnologia atual. Léo Seidel reforça que, embora o risco seja maior com cabos conectados, a interferência eletromagnética em componentes sensíveis pode, sozinha, causar a quebra do equipamento.

"Um raio gera um campo eletromagnético muito intenso, capaz de induzir tensões e correntes em circuitos eletrônicos próximos", explica Seidel.
 Reprodução/Freepik Cabos de rede e antenas externas funcionam como rodovias metálicas para descargas atmosféricas. A energia viaja por vias de dados e atinge a placa principal. Não ignore as conexões secundárias ao buscar segurança para seus eletrônicos — Foto: Reprodução/Freepik

O professor Clever de Souza, da FMU, confirma que a descarga busca o caminho mais fácil para se propagar.

"Ocorre o fenômeno chamado de LEMP, o pulso eletromagnético do raio, que afeta diretamente componentes eletrônicos sensíveis", completa Souza.

O LEMP, citado pelo professor Clever de Souza, é reconhecido por normas internacionais de proteção elétrica como um dos fenômenos mais destrutivos associados a descargas atmosféricas, exatamente por atingir circuitos sem necessidade de contato físico.

Você corre risco ao desconectar cabos durante a tempestade?

Uma das dúvidas mais frequentes do consumidor é se vale a pena tentar desligar os aparelhos no momento em que a chuva começa. A resposta dos especialistas não é unânime, mas a orientação prática converge para o mesmo ponto; o ideal é agir com antecedência.

Victor afirma que "o risco existe e pode ser significativo. Se um surto elétrico atingir a rede no momento em que a pessoa está puxando um plugue ou manipulando um cabo, pode ocorrer a formação de um arco elétrico entre a tomada e o conector. Esse arco pode provocar queimaduras graves ou até choque elétrico. Por isso, especialistas recomendam que a prevenção seja feita antes da tempestade começar. Se a chuva já está forte e acompanhada de raios, o mais seguro é evitar qualquer contato com tomadas, cabos ou aparelhos conectados à rede elétrica."

 Rafael Costa/TechTudo Manipular cabos durante uma tempestade ativa gera riscos de queimaduras e choques elétricos. O arco elétrico pode saltar da tomada para a mão do usuário. — Foto: Rafael Costa/TechTudo

Clever de Souza relata que "durante uma tempestade com raios, não há um risco real em desconectar cabos. Seria um evento raro. Não há um risco eminente de o arco elétrico saltar da tomada para a mão do usuário, levando-se em conta que a edificação atenda à NBR 5419/26, Proteção contra descargas atmosféricas."

Léo Seidel afirma que "o risco é real e não deve ser subestimado. Durante uma tempestade, uma descarga próxima pode gerar sobretensões capazes de provocar centelhamento, arco elétrico e choque no momento em que a pessoa toca em tomadas, plugues ou cabos metálicos. Em outras palavras, tentar desligar aparelhos na última hora pode colocar o usuário em perigo. A atitude segura é fazer isso antes do início da tempestade, não durante."

A divergência entre os especialistas reflete contextos distintos. Clever de Souza condiciona a segurança ao cumprimento da NBR 5419/26, norma de proteção contra descargas atmosféricas que a maioria das residências brasileiras mais antigas não atende. Nas demais situações, a cautela recomendada por Victor Henriques e Léo Seidel prevalece.

O que instalar para proteção automática, mesmo sem estar em casa:

A solução mais eficiente para proteger a casa de forma ininterrupta é o uso do DPS (Dispositivo de Proteção contra Surtos). O engenheiro Victor Henriques explica que esse equipamento, instalado no quadro de energia, atua em frações de segundo para desviar o excesso de tensão para o aterramento.

"O ideal é adotar um sistema em camadas, combinando o DPS do quadro com filtros de linha de boa qualidade nas tomadas de aparelhos sensíveis", aconselha o especialista da Help Reformas.

Essa estratégia de defesa é reforçada por outros componentes elétricos que garantem a segurança da rede. O professor Clever de Souza, da FMU, destaca que, além do DPS, sistemas como o DR (Disjuntor Residual) e o SPDA (Sistema de Proteção Contra Descargas Atmosféricas) são fundamentais para lidar com variações de corrente e raios.

Protetor Contra Surtos Elétricos (DPS) CLAMPER 127/220V — Foto: Divulgação/CLAMPER Protetor Contra Surtos Elétricos (DPS) CLAMPER 127/220V — Foto: Divulgação/CLAMPER

Para Léo Seidel, coordenador da Uniasselvi, a eficácia do sistema depende da combinação de diferentes categorias de protetores.

"Modelos de Classe I e II nos quadros de medição desviam a maior parte da energia, enquanto o Classe III reforça a segurança direto na tomada", pontua Seidel.

O DPS funciona de forma automática e sua instalação é orientada pela norma ABNT NBR 5410, devendo ser realizada por um eletricista habilitado. É importante ressaltar que, após um evento de surto intenso, o equipamento deve ser verificado; em muitos casos, o dispositivo "se sacrifica" para salvar os eletrodomésticos e precisa ser substituído para manter a proteção ativa.

Proteção para aparelhos que não podem ser desligados

Roteadores Wi-Fi, modems e micro-ondas raramente são desconectados da tomada, o que os torna alvos frequentes de danos em dias de tempestade. Para esses casos, os especialistas apontam soluções específicas.

"Para equipamentos que permanecem ligados praticamente o tempo todo, como roteadores Wi-Fi, modems e micro-ondas, a proteção automática se torna ainda mais importante. Nesses casos, filtros de linha de boa qualidade podem ajudar a reduzir surtos menores, especialmente quando utilizados em conjunto com o DPS no quadro de energia [...] também é fundamental que a residência possua um aterramento elétrico adequado, pois é ele que permitirá o desvio seguro da energia excedente", aconselha Victor Henriques.
 Reprodução/depositphotos.com Filtros de linha de alta qualidade e sistemas de aterramento são fundamentais para roteadores e micro-ondas. O uso de DPS Classe III oferece uma defesa adicional em tomadas específicas. — Foto: Reprodução/depositphotos.com

"As soluções mais recomendadas são a utilização de filtros de linha e tomadas antissurto. A proteção real contra raios é o SPDA (NBR 5419). Contra surtos de tensão provenientes da rede da concessionária, o dispositivo mais adequado é o DPS", acrescenta Clever.

Léo Seidel afirma que "existem soluções mais adequadas para esse tipo de equipamento, que são os DPS Classe III. Estes dispositivos podem ser vendidos separadamente ou embutidos nas réguas de tomadas. É importante destacar que a grande maioria dos filtros de linha vendidos no mercado nacional não oferece este tipo de proteção, sendo necessária uma verificação atenciosa do usuário no momento da compra do dispositivo de proteção."

O alerta dos três engenheiros converge para um ponto central. Os filtros de linha sem certificação ou sem a presença de varistores de qualidade não oferecem proteção real. Ao comprar o produto, o consumidor deve verificar o selo do Inmetro e a especificação de absorção de energia em joules.

Como blindar sua casa: o guia definitivo de proteção

A segurança dos eletrônicos começa na infraestrutura da residência, sendo a instalação de um DPS no quadro elétrico o primeiro passo indispensável. Este serviço, que deve ser realizado obrigatoriamente por um eletricista habilitado, garante que a instalação esteja em conformidade com a norma ABNT NBR 5410, incluindo um sistema de aterramento adequado para escoar descargas.

Para aparelhos que precisam permanecer ligados, o uso de filtros de linha com certificação do Inmetro e especificação de absorção de energia (em joules) oferece uma camada extra de proteção, assim como estabilizadores com proteção contra surtos para equipamentos de alto valor, como computadores e dispositivos médicos.

 Reprodução/Mercado Livre DPS iClamper Pocket Fit 3P 10 A Transparente — Foto: Reprodução/Mercado Livre

No entanto, a proteção física direta ainda é a mais garantida em casos extremos. Além do plugue de energia, é fundamental desconectar cabos coaxiais de antena, cabos Ethernet e conexões HDMI antes do início da chuva, uma vez que essas vias são condutores eficientes para descargas.

É vital ressaltar que essa desconexão nunca deve ser tentada durante uma tempestade em andamento, pois o risco de arco elétrico e choque é real. Por fim, o monitoramento pós-chuva é essencial: após eventos severos, verifique o estado do seu DPS no quadro elétrico, já que o equipamento pode ter se "sacrificado" para salvar seus aparelhos e precisará de substituição imediata para manter a rede protegida.

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