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Em busca do passado perdido

A oficialização da chapa Lula/Alckmin, surpresa nenhuma, ilumina uma estratégia eleitoral cinzenta. Lula almeja retroceder os ponteiros do relógio da história, fazendo de 2026 um segundo 2022. Democracia versus golpismo, "frente democrática" contra o "fascismo" –eis a linha mestra da campanha petista. Trata-se da opção de quem carece de opções.

Lula não pode reclamar da sorte. Seu principal rival chama-se Bolsonaro –e, ainda por cima, é um candidato desqualificado cuja posição deve-se, exclusivamente, ao sobrenome. Apesar de tudo, como sugerem as pesquisas, o presidente arrisca-se a perder. Causa: o relógio recusa-se a retroceder.

Lá atrás, o golpismo bolsonarista era uma ameaça iminente, uma espada erguida sobre as instituições pelo ocupante do Planalto. Hoje, a camarilha golpista, derrotada, cumpre longas sentenças de prisão. A invocação de uma emergência perene enfrenta o ceticismo do eleitorado de centro que conferiu a Lula uma vitória na margem de erro.

Mais: 2026 não é 2022 porque, nesse intervalo, Lula frustrou as expectativas, revelando-se prisioneiro do passado: o expansionismo fiscal que congela as taxas de juros em patamares estratosféricos e a redução das políticas sociais a benesses pecuniárias. A metáfora grosseira do Opala atinge um nervo sensível. A maioria declara-se contrária a reconduzir o presidente.

Mesmo assim, a estratégia lulista pode funcionar. Em Dallas, na CPAC, conferência reacionária patrocinada pelo Maga, o herdeiro do nome insistiu no discurso extremista, disseminando teses conspiratórias sobre as urnas e clamando pela interferência de Washington na eleição brasileira. Trump, Milei, Bukele: a trindade sagrada de Flávio oferece ao PT alvos fáceis, abrindo um caminho para o triunfo.

A sorte, contudo, tem limites. Ao contrário do que imaginam esperançosas lideranças petistas, a candidatura de Caiado é notícia de mau agouro para Lula. A direita fala por dois microfones, enquanto a centro-esquerda move-se em círculos na jaula lulista.

Caiado representa uma falsa terceira via. Situa-se nitidamente na direita, mas distingue-se do reacionarismo antidemocrático do Bolsonaro substituto. Num lance tático tão esperto quanto oportunista, não envelopou sua promessa de anistia aos golpistas no celofane da vingança ou da reparação, mas no da "pacificação nacional".

O ex-governador goiano desfralda as duas bandeiras quentes do atual ciclo eleitoral latino-americano: segurança pública e corrupção. Beneficia-se de elevada popularidade, num estado impulsionado pelo agro, setor mais dinâmico da economia brasileira, e não é vulnerável a acusações verossímeis de golpismo. Além disso, diferentemente do Flávio das "rachadinhas", seus armários parecem livres de esqueletos.

A candidatura de Caiado cumpre dupla função. Num horizonte normal, conquistaria parcela significativa do eleitorado de centro-direita avesso ao bolsonarismo, convertendo-se em parceiro providencial do pretendente extremista no turno decisivo. Já num cenário de implosão do segundo Bolsonaro, sob implacável bombardeio petista, monopolizaria o antilulismo majoritário. Caiado, o improvável, aposta na seta do tempo, não no eterno retorno.

"A história repete a si mesma, a primeira vez como tragédia; a segunda, como farsa." Lula não decifrou corretamente o alerta de Marx.

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