O empréstimo com celular como garantia tem ganhado espaço no Brasil. A modalidade permite a liberação de crédito a consumidores com score baixo ou restrições no CPF ao vincular o pagamento das parcelas ao controle do aparelho. Embora o smartphone não seja confiscado, a credora pode exigir a instalação de um aplicativo que autoriza o bloqueio de funções em caso de atraso. Para entender como esse modelo funciona, quais custos estão envolvidos e onde começam os abusos, o TechTudo conversou com Adriana Melo, especialista em finanças e tributação, que analisa os riscos, os limites legais e os cuidados antes da contratação.
Empréstimo com celular como garantia: como funciona e quais os riscos reais — Foto: Mariana Saguias/TechTudo Empréstimo com celular como garantia tem riscos?
No índice abaixo, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria do TechTudo.
- Empréstimo com celular como garantia: como funciona na prática
- Juros, taxas escondidas e CET: onde mora o verdadeiro custo do empréstimo
- Atrasou o pagamento: o banco pode bloquear seu celular?
- Empréstimo ou golpe? Sinais claros de oferta abusiva com celular como garantia
- Empréstimo com garantia de celular é legal no Brasil?
- Seu celular vale mais que dinheiro: os riscos de dados pessoais nesse tipo de empréstimo
- O maior erro de quem contrata empréstimo com celular como garantia
- Quando (e se) o empréstimo com garantia de celular pode fazer sentido
- Alternativas mais seguras ao empréstimo com celular como garantia
1. Empréstimo com celular como garantia: como funciona na prática
O ponto central desse tipo de empréstimo não é a entrega do celular, mas a transferência de controle sobre o aparelho, algo que muda completamente a relação entre credor e consumidor. É esse controle — e não o valor liberado — que concentra os principais riscos da modalidade. Segundo Adriana Melo, o público-alvo é bastante específico:
Embora o consumidor continue com o celular em mãos, o uso passa a ser condicionado. “Na prática, o solicitante instala um aplicativo no aparelho que permite à instituição financeira bloquear remotamente funções como chamadas, mensagens, internet e acesso a apps em caso de inadimplência”, explica.
Esse nível de ingerência só é possível porque o app exige permissões profundas no sistema. “Na prática, isso permite restringir funções como chamadas, dados móveis e acesso a aplicativos até a regularização”, afirma Adriana, citando o uso de tecnologias de Mobile Device Management (MDM).
O crédito liberado costuma ser bem inferior ao valor do bem. “O valor liberado costuma ser entre 30% e 70% do valor de mercado do celular, com aprovação mais rápida do que empréstimos tradicionais sem garantia.” O aparelho permanece com o usuário, mas sob monitoramento constante, o que ajuda a explicar por que essa modalidade se expandiu mesmo sem oferecer juros necessariamente mais baixos.
Ainda assim, o controle do aparelho segue sendo o principal elemento viabilizador desse tipo de crédito — sem reduzir, necessariamente, o custo final da dívida.
Entenda como a modalidade de empréstimo funciona — Foto: Mariana Saguias/TechTudo 2. Juros, taxas escondidas e CET: onde mora o verdadeiro custo do empréstimo
O principal erro de quem contrata esse tipo de crédito é avaliar apenas a parcela mensal, ignorando o custo total da operação. Em empréstimos com celular como garantia, essa diferença costuma ser significativa. Adriana alerta que o juro anunciado é apenas parte da conta:
É no CET que aparecem os encargos menos visíveis. “Nele entram IOF, tarifas administrativas, seguros ‘opcionais’ e demais encargos. Muitas vezes o juro anunciado não é o problema principal. O CET é.”
Apesar de ser vendido como crédito com garantia, o custo não costuma ser baixo. “Em empréstimos com garantia de celular, as taxas costumam ser mais altas do que em créditos com garantias tradicionais, como imóvel ou veículo.”
Na prática, isso faz com que essa modalidade fique, em muitos casos, mais cara do que o empréstimo pessoal sem garantia oferecido por bancos tradicionais, mesmo com a promessa de maior segurança para a instituição. Segundo a especialista, há um ponto que funciona como linha vermelha.
Para saber se a taxa está fora do padrão, a especialista orienta recorrer a dados oficiais. “Para comparar se a taxa faz sentido, o consumidor pode consultar as taxas médias oficiais no site do Banco Central do Brasil.” O caminho, segundo ela, é direto: “Estatísticas → Taxas de juros → Operações de crédito.”
Quando o custo se mostra incompatível com a renda, o risco deixa de ser apenas financeiro e passa a afetar a própria rotina do consumidor.
Veja onde estão as pegadinhas do empréstimo — Foto: Reprodução/Getty Images 3. Atrasou o pagamento: o banco pode bloquear seu celular?
Já há algum tempo, o bloqueio remoto foi usado como principal instrumento de cobrança nessa modalidade. O impacto, porém, vai muito além da dívida e atinge diretamente a vida cotidiana do consumidor. Adriana explica como esse mecanismo funciona:
Esse modelo passou a ser barrado pela Justiça. “Esse mecanismo foi amplamente usado, mas decisões judiciais entre 2023 e 2025 passaram a considerar o bloqueio remoto ilegal e abusivo, por falta de previsão legal para tratar celular como garantia fiduciária e por violar o Código de Defesa do Consumidor.”
A inadimplência, no entanto, não deixa de existir. “A dívida, por outro lado, permanece: a instituição ainda pode aplicar multa e juros de mora, negativar e cobrar judicialmente.” O limite está no método. “O que não pode é usar o aparelho como instrumento de execução privada.”
Se isso ocorrer, há caminhos formais. “Se o bloqueio ocorrer, o consumidor pode buscar desbloqueio via Procon ou Judiciário.”
Além das consequências diretas do atraso, esse tipo de crédito também convive com um ambiente de ofertas abusivas e abordagens fraudulentas, que se aproveitam da fragilidade financeira de quem busca esse recurso.
Entenda se o banco pode bloquear seu celular — Foto: Mariana Saguias/TechTudo 4. Empréstimo ou golpe? Sinais claros de oferta abusiva com celular como garantia
A falta de regulamentação específica abriu espaço não apenas para práticas questionáveis, mas também para fraudes explícitas. Identificar os sinais cedo é essencial para evitar prejuízos maiores. Adriana é direta no primeiro alerta: “Desconfie de qualquer um que apareça falando em ‘tomar’ ou ‘confiscar’ seu celular.” Segundo ela, a cobrança antecipada é um divisor claro.
Outros sinais envolvem promessas irreais. “Proposta boa demais para ser verdade, com juros muito abaixo do mercado para um perfil de alto risco”, além de pressão psicológica. “Pressão para decidir rápido, com ameaça de perder a ‘oportunidade'."
Há também padrões operacionais recorrentes. “Erros grosseiros de português, mensagens genéricas e atendentes que mudam de número”, além de pedidos excessivos de dados sensíveis sem necessidade clara. O checklist final é objetivo.
Mesmo quando não há fraude explícita, permanece a dúvida central sobre os limites legais desse tipo de contrato.
Veja sinais claros de oferta abusiva com celular como garantia — Foto: Reprodução/Unsplash 5. Empréstimo com garantia de celular é legal no Brasil?
A popularização desse tipo de crédito não foi acompanhada por uma regulamentação específica, o que explica parte da insegurança jurídica em torno do tema.
O problema está no enquadramento do celular como garantia. “O bloqueio remoto não tem base legal no Código Civil ou em leis de alienação fiduciária, sendo considerado abusivo por decisões judiciais.” Diferentemente de imóveis ou veículos, o celular não é reconhecido pela legislação brasileira como bem passível de garantia fiduciária.
Isso coloca a modalidade em uma zona cinzenta. “O BC supervisiona instituições financeiras, mas essa modalidade opera em uma área cinzenta, sem regras dedicadas.” Há ainda uma limitação clara: “Empresas de pagamento (não financeiras) não podem oferecer empréstimos.”
Essa insegurança jurídica não se limita ao contrato em si. Ela também se estende aos riscos impostos ao consumidor quando dados pessoais e acesso ao aparelho entram na equação.
Entenda se modalidade é legal no Brasil — Foto: Luciana Maline/TechTudo 6. Seu celular vale mais que dinheiro: os riscos de dados pessoais nesse tipo de empréstimo
Ao conceder permissões amplas ao aplicativo da credora, o consumidor não expõe apenas o aparelho, mas toda a sua vida digital.
Para Adriana, esse risco costuma ser subestimado. “Aqui está o principal risco que muita gente subestima: acesso indevido a dados pode abrir espaço para golpes e até extorsão.” As consequências podem ser graves.
Por isso, a Justiça passou a intervir. “Decisões judiciais recentes passaram a considerar esse tipo de bloqueio abusivo, por não ter previsão legal e por violar direitos do consumidor.” Em caso de abuso, há caminhos institucionais.
Mesmo sem golpe ou vazamento comprovado, falhas básicas de planejamento financeiro seguem sendo o principal gatilho de endividamento.
Veja riscos para os dados pessoais nessa modalidade de empréstimo — Foto: Amanda Zola/TechTudo 7. O maior erro de quem contrata empréstimo com celular como garantia
Segundo a especialista, o problema começa antes mesmo da contratação.
Esse descuido costuma vir acompanhado de falta de planejamento. “Muitos também contratam sem planejamento de pagamento, agravando dívidas.” Outro erro recorrente envolve o destino do dinheiro. “Outro erro comum é usar para despesas não essenciais, subestimando o impacto de um bloqueio em um bem essencial como o celular.”
Sem um plano concreto de quitação, o crédito deixa de ser solução e passa a aprofundar o problema, criando um ciclo de endividamento difícil de interromper.
Não ler o contrato é o principal erro de quem solicita empréstimo dando o celular como garantia — Foto: Reprodução/Getty Images 8. Quando (e se) o empréstimo com garantia de celular pode fazer sentido
Segundo Adriana, há situações extremas em que essa modalidade aparece como última alternativa disponível.
Mesmo nesses casos, o cuidado precisa ser máximo. “É uma opção para emergências, mas só se o CET for competitivo e a instituição for confiável.” Os riscos, porém, permanecem. “As decisões judiciais limitaram o bloqueio, mas não eliminaram juros altos, exposição de dados e cobranças agressivas.”
Por isso, a especialista pondera: “No geral, dadas as restrições judiciais e os riscos, é raro recomendar.” Justamente por isso, antes de recorrer a esse tipo de crédito, vale olhar com atenção para alternativas menos agressivas.
Empréstimo com o celular como garantia deve ser uma última alternativa — Foto: Reprodução/Getty Images 9. Alternativas mais seguras ao empréstimo com celular como garantia
Antes de recorrer a essa modalidade, Adriana recomenda avaliar opções com menor risco estrutural.
A especialista também cita o uso consciente do cartão de crédito para despesas pontuais, desde que haja controle do parcelamento e pagamento da fatura. Outro caminho é melhorar o score de crédito, com pagamento em dia de contas, renegociação de dívidas e uso moderado do limite disponível.
Para concluir, Adriana faz um alerta:
Empréstimo deve ser analisado com cautela — Foto: iStock
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