Washington também quer que o governo de La Paz classifique o grupo armado libanês Hezbollah e o grupo Hamas — ambos considerados pelos Estados Unidos como representantes de Teerã — como organizações terroristas.
As fontes também disseram que diplomatas avaliam iniciativas semelhantes no Chile, no Peru e no Panamá.
Após uma operação no início de janeiro para capturar o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, autoridades americanas pressionaram rapidamente o governo da presidente interina Delcy Rodríguez a reduzir a cooperação econômica e de segurança entre Caracas e Teerã, segundo uma fonte separada familiarizada com o assunto. Por anos, Venezuela e Irã foram aliados firmes.
Questionado, o Ministério das Relações Exteriores da Bolívia afirmou que “ainda não há uma posição completamente definida sobre esse tema”. O Departamento de Estado não respondeu a um pedido de comentário, enquanto a missão iraniana nas Nações Unidas se recusou a comentar.
A foto, de setembro de 2014, mostra a Guarda Revolucionária Iraniana marchando durante a parada militar anual marcando a guerra do Irã contra o Iraque (1980-88) em Teerã. — Foto: Behrouz Mehri /AFP
Jogos de espionagem na América do Sul
À primeira vista, a Bolívia — um país sem saída para o mar, com 12 milhões de habitantes, localizado no coração da América do Sul — pareceria um local improvável para uma disputa indireta entre grandes potências mundiais. Alguns atuais e ex-funcionários dos EUA, no entanto, disseram que o país se tornou uma base importante para as operações diplomáticas e de inteligência do Irã em todo o continente.
Isso se deve, em parte, ao que autoridades americanas descrevem como um ambiente permissivo de contrainteligência, além da localização central do país, que faz fronteira com várias outras nações — algumas das quais teriam sido alvo de tentativas de ataques do Hezbollah nos últimos anos.
Rick de la Torre, ex-alto funcionário da CIA já aposentado e antigo chefe da estação em Caracas, disse que a principal base das operações diplomáticas e de inteligência do Irã na América Latina era a Venezuela. No entanto, Bolívia e Nicarágua — onde há um governo autoritário com relações frias com Washington — serviram como “nodos secundários” de Teerã na região nos últimos anos.
“Na prática, o padrão que se observa na América Latina é o Irã e o Hezbollah usando as jurisdições mais permissivas como centros, a partir dos quais se projetam discretamente para Estados mais capazes ou de maior valor nas proximidades.”
Mudança no cenário político
Evo Morales, presidente esquerdista da Bolívia de 2006 a 2019, aprofundou os laços com o Irã ao longo de seu governo, inclusive em temas de defesa e segurança, argumentando que ambos os países estavam unidos na luta contra o imperialismo dos EUA.
Morales e o presidente de esquerda Luis Arce, que governou de 2020 até o fim do ano passado, eram amplamente vistos por autoridades americanas como pouco receptivos a possíveis esforços para afastar La Paz de Teerã.
Agora, porém, autoridades dos EUA acreditam ter uma oportunidade única após a eleição, em outubro, do centrista Rodrigo Paz, cuja presidência marca o fim de quase duas décadas de domínio quase contínuo do partido esquerdista MAS.
Rodrigo Paz veste a faixa presidencial após tomar posse na Bolívia, em 8 de novembro de 2025 — Foto: Luis Gandarillas / POOL / AFP
O governo de Paz, que herdou uma grave turbulência econômica e um Legislativo fragmentado, tem buscado recompor os laços com Washington, ao mesmo tempo em que incentiva o investimento privado.
Autoridades americanas acolheram publicamente a eleição de Paz e, em dezembro, os EUA tornaram a Bolívia elegível para receber recursos de subvenção administrados pela Millennium Challenge Corporation, uma agência independente do governo americano.
Esforço para conter o Irã na região se intensificou
As fontes disseram que a ofensiva relacionada ao Irã na Bolívia faz parte de uma campanha mais ampla dos EUA na região.
Em setembro, o aliado americano do Equador classificou a Guarda Revolucionária Islâmica, o Hamas e o Hezbollah como organizações terroristas, enquanto a Argentina designou a Força Quds, do Irã, como terrorista na semana passada. Os EUA defenderam ambas as medidas, segundo as fontes.
- A Guarda Revolucionária Islâmica atua como uma força militar de elite leal ao líder supremo do Irã desde a Revolução Iraniana de 1979, enquanto a Força Quds é um braço da Guarda responsável por operações no exterior.
Embora o esforço atual para abrir uma cunha geopolítica entre o Irã e a América Latina não seja novo, há sinais de que a iniciativa esteja se intensificando.

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