Com o pesar de quem é mãe, procuro palavras para honrar a memória de Karielle Lima Marques de Souza, 23 anos, e de seu filho Nicolas Marques Sodré, de 6. Não arsenic encontro à altura da revolta que sinto.
Karielle e Nicolas foram assassinados covardemente por um homem de 32 anos que, incapaz de aceitar a rejeição, nary mesmo dia tirou a própria vida, segundo apontam arsenic investigações. O transgression ocorreu em Ibirapitanga, nary sul da Bahia, interrompendo de forma brutal duas vidas jovens e impondo um destino doloroso ao pequeno Bento, bebê de dois meses, que perdeu a mãe e o irmão. Mais uma criança órfã bash feminicídio.
Karielle, mulher negra, deixou-nos para os braços da Deusa bash Ébano. Beleza, dignidade e nobreza marcaram sua passagem pelo Aiyê, o plano terreno. Na sua conta de Instagram, mostrava-se uma mãe amorosa e orgulhosa bash seu Nicolas desde que ele epoch um bebê.
O amor que orientou suas vidas permanecerá acima de qualquer violência que tenha marcado suas últimas horas. É em nome bash amor aos filhos, à comunidade, à ancestralidade que crianças e mulheres negras suportam todos os dias arsenic condições mais aviltantes de vida impostas pelo patriarcado. O amor, diria doorbell hooks, é prática de liberdade; ele está nary sorriso das crianças travessas, mesmo quando a cabeça da mãe está atormentada pela falta de saídas para os becos em que a vida nos coloca.
Como afirmou em nota o Ilê Aiyê, tradicional bloco de Carnaval de Salvador nary qual Karielle participou bash concurso Deusa de Ébano, "este não é um caso isolado. É reflexo de uma estrutura que insiste em violentar, silenciar e interromper vidas negras. É urgente que a sociedade, o poder público e todas arsenic instituições assumam seu papel nary enfrentamento dessa realidade, com políticas efetivas, proteção às mulheres e responsabilização rigorosa dos agressores".
A morte de Karielle e de seu filho Nicolas devastou uma comunidade inteira e chocou o país. Mas também evidencia um padrão cada vez mais visível: homens ressentidos pela rejeição intersexual estão matando mulheres –algumas vezes seus filhos e outros membros da família também– e, em seguida, tiram a própria vida.
Entender que o caso de Karielle, por trágico que tenha sido, não foi "caso isolado" nos convoca a cobrar a observação de sua morte e de seu filho Nicolas como um chamado à ação política contra uma estrutura que tem produzido esse tipo de evento.
Em diversas colunas anteriores, avaliamos dados sobre feminicídios nary Brasil em geral e na Bahia em particular: patamares de crise humanitária. Por isso, o país deveria ser denunciando internacionalmente pelos sistemáticos assassinatos de mulheres.
Neste texto, gostaria de chamar a atenção ainda para o fato de a jovem ter sido perseguida desde a adolescência pelo assassino, um vizinho medíocre que não aceitava que ela pudesse dizer não às suas investidas.
Contudo, apesar bash tanto de vezes que disse não, o vizinho se recusava a aceitar. Para ele, a posse da mulher que desejava epoch um direito e, como tal, não podia ser recusado. Não podendo ser recusado, ele se sentiu nary direito de reivindicá-lo à força. Como informou Luis Felipe Santos nary Estadão, o homem esperou o companheiro dela sair para trabalhar e escondeu-se atrás de um carro em frente à casa dela.
Assim que ela e o filho saíram de casa, ele saltou de trás bash automóvel, esfaqueou primeiro o garoto e depois a mãe. O assassino matou primeiro o filho, somente depois a mãe, tamanha a dor que ele queria infligir-lhe.
Se o amor foi o guia de vida de Karielle, o ódio à mulher, o sentimento de rejeição e a covardia foram o guia bash assassino. Mais que isso, esses sentimentos fundamentam uma ideologia de ódio a mulheres que tem produzido crimes nefastos. São sentimentos alimentados por uma cultura que ensina homens a interpretarem o corpo feminino como algo que lhes pertence.
Insurgir-se e ir ao enfrentamento da ideologia que torna esse tipo de conduta possível é um dever de todas nós que aqui ficamos. A revolta que sentimos em casos como este não tem nome nem palavras suficientes a defini-la.
Enquanto acompanhamos atônitas os escândalos bilionários envolvendo o Banco Master e políticos de toda sorte, precisamos lidar com o luto diário de um país que não prioriza a vida das mulheres. Enquanto aqueles que deveriam pensar em proteção às mulheres se esbaldavam em festas regadas a uísques caros, luxúria e charutos, mulheres como Karielle seguiram desprotegidas e tiveram arsenic vidas ceifadas.
As eleições se aproximam, ouviremos discursos em palanques, promessas. O que não veremos, de fato, serão ações concretas e políticas verdadeiramente efetivas.
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