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Fed interrompe ciclo de cortes e mantém juros dos EUA na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano

A primeira decisão sobre os juros em 2026 ocorre em meio à pressão crescente do presidente Donald Trump, incluindo acusações diretas ao chefe do Fed, Jerome Powell, e o julgamento da Suprema Corte sobre a tentativa do republicano de demitir a diretora Lisa Cook.

O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) informou, em comunicado, que a geração de empregos permaneceu baixa no país, enquanto a taxa de desemprego mostrou sinais de estabilidade. O colegiado também destacou que a inflação segue "um pouco alta".

"A incerteza sobre as perspectivas econômicas permanece elevada. O Comitê está atento aos riscos em ambos os lados de seu duplo mandato [direcionado a estimular o emprego e controlar a inflação]", diz o comunicado.

"Em apoio aos seus objetivos, o Comitê decidiu manter a faixa-alvo para a taxa dos fundos federais entre 3,5% e 3,75%", acrescentou.

  • ➡️ A política de juros nos EUA tem reflexos no Brasil. Com as taxas ainda elevadas, cresce a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça em patamar alto por mais tempo, além de gerar efeitos sobre o câmbio. (leia mais abaixo)

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Economistas, agentes do mercado e o próprio Fed têm destacado os impactos, nos EUA, das sobretaxas aplicadas por Trump. Um dos principais receios é a alta da inflação ao consumidor, o que levou o banco central do país a adiar sucessivas vezes a redução dos juros.

No segundo semestre do ano passado, dados de um mercado de trabalho mais fraco passaram a indicar desaceleração da economia americana, abrindo espaço para cortes de juros. Ao mesmo tempo, a inflação seguiu sob controle, embora ainda acima da meta de 2% — o que dividiu o Fed.

No comunicado desta quarta, o Fomc afirmou que "continuará monitorando as implicações das novas informações para as perspectivas econômicas" e que está "preparado para ajustar a política monetária, se necessário, caso surjam riscos que possam comprometer o alcance de seus objetivos".

"As avaliações do Comitê levarão em consideração uma ampla gama de informações, incluindo dados sobre condições do mercado de trabalho, pressões inflacionárias e expectativas de inflação, além de desenvolvimentos financeiros e internacionais", acrescentou.

A decisão não foi unânime. Além do presidente do Fed, Jerome Powell, e do vice, John C. Williams, oito diretores votaram para manter a taxa inalterada. Outros dois se manifestaram a favor de um corte de 0,25 ponto percentual: Stephen I. Miran, indicado por Trump, e Christopher J. Waller.

Trump chegou a afirmar em algumas ocasiões sua pretensão de indicar o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent — que recusou o convite. Com isso, o nome de Kevin Hassett, conselheiro econômico da Casa Branca, passou a ser apontado como um dos favoritos para o cargo.

Em entrevista ao site Politico, em dezembro, o presidente dos EUA foi questionado se apoiar a redução dos juros seria um requisito para o próximo indicado a comandar o Fed. Ele respondeu: “Sim”.

Os governadores do Fed Christopher Waller e Michelle Bowman também figuram entre os cotados para assumir a presidência da instituição. A escolha deve ocorrer em um momento marcado pela intensificação da pressão de Trump por cortes nos juros e por suas ofensivas contra o BC americano.

No episódio mais recente, Trump ameaçou apresentar uma acusação criminal contra Powell em relação a uma reforma de US$ 2,5 bilhões (R$ 15,6 bilhões) na sede da instituição, em Washington.

O caso levou à abertura de uma investigação criminal por procuradores federais. Powell é acusado de minimizar, em depoimento ao Senado, gastos elevados e considerados luxuosos na reforma da sede do Fed, o que levou parlamentares a comparar o projeto ao Palácio de Versalhes.

Powell, por sua vez, afirmou que as acusações são imprecisas e enganosas, negou a compra de itens de luxo e disse que a reforma, financiada pelo próprio Fed, visa modernização e redução de custos no longo prazo.

No segundo semestre de 2025, Trump passou a se dedicar à indicação de nomes alinhados à sua agenda econômica para a diretoria do Federal Reserve.

Caso a Justiça confirme a demissão de Lisa Cook, Trump terá garantido ao menos duas indicações para a diretoria do Fed. O cargo de presidente da instituição também está no horizonte, já que o mandato de Powell se encerra em maio.

Em meio às movimentações no Fed, caso Trump alcance maioria de aliados no conselho da instituição — que tem sete membros —, ele terá maior influência sobre a aprovação das nomeações nos 12 bancos regionais. Assim, ampliaria sua interferência sobre as decisões de juros.

Efeito dos juros no Brasil — e nos mercados

Os juros, ainda considerados elevados nos EUA, mantêm os rendimentos das Treasuries, os títulos públicos americanos, em níveis mais atraentes.

Por serem considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com rentabilidades elevadas despertam o interesse de investidores estrangeiros, que direcionam recursos aos EUA e fortalecem o dólar.

Em outra perspectiva: apesar de diversas variáveis interferirem nessa lógica, o movimento tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real em relação à moeda americana.

Além disso, o dólar em nível elevado aumenta a pressão sobre a inflação por aqui, com reflexos na manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil.

Prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington, EUA (maio/2020) — Foto: Kevin Lamarque / Reuters

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