Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que já se declarava evangélico, achou por bem reforçar o recado. No último domingo de 2025, o senador saiu de seu assento no culto da Lagoinha Church, em Orlando. Atendia ao chamado do pastor André Valadão para que todos que ali quisessem se reconciliar com Deus fossem à frente do púlpito: "Me deixa orar por você".
Ao compartilhar o momento nas redes sociais, o pré-candidato à Presidência evocou Deus, "o médico dos médicos", que iria "restabelecer a saúde de Jair Bolsonaro" e renovar "nossas forças" para o eleitoral 2026.
O primogênito de Jair permaneceu em Orlando para o Réveillon, que passou num megaevento conduzido por Valadão numa arena local, o Vira Brasil. O elenco evangélico contava com figuras de alto quilate do segmento, como o evangelista Deive Leonardo.
Antes do Natal, Flávio publicizou outra participação em ato religioso, dessa vez em solo nacional. Ao lado dos irmãos Carlos (PL-RJ) e Jair Renan (PL-SC), ele foi comparado pelo anfitrião àquele que na Bíblia lidera o povo de Israel na conquista da terra prometida.
Os filhos de Bolsonaro seriam "os Josués lá na frente da batalha", segundo o senador Magno Malta (PL-ES), que liderou a pregação ladeado pela filha Maguinha Malta.
O senador não deve parar por aí. Ele planeja intensificar aparições em eventos evangélicos, um flanco que o pai, hoje inelegível, trata como ativo eleitoral decisivo —representa 27% da população brasileira. A estratégia passa por apresentar-se como um interlocutor confiável, capaz de dialogar com lideranças que, nos últimos anos, oscilaram entre a fidelidade a Bolsonaro e a busca por alternativas menos conflituosas no campo conservador.
A antropóloga Lívia Reis, do Iser (Instituto de Estudos da Religião), aponta uma patente "tentativa de recall da popularidade de Bolsonaro por parte de Flávio, para tentar legitimar sua candidatura no segmento".
Com um porém: o cenário que elegeu o pai oito anos atrás já não é o mesmo. "A partir de 2016, as principais lideranças evangélicas se uniram em torno de um projeto e, mais importante, de um inimigo comum. Naquele momento, o católico Jair Bolsonaro era a única figura com potencial para derrotar o PT."
Daí vermos quase nenhuma resistência, entre essa cúpula evangélica, ao homem que acumulava três casamentos e falava palavrão. A leitura é a de que havia algo maior em jogo. "O que a gente observava era um esforço coletivo de se fazer uma limpeza moral da figura de Bolsonaro e de alçá-lo a um lugar de ‘escolhido por Deus’ para a missão de governar o Brasil. Nesse enredo, Michelle Bolsonaro teve um papel fundamental, porque a evangélica de fato era ela", afirma Reis.
Corta para 2026, e Flávio está longe do respaldo que seu pai tinha nesse quinhão religioso. Em primeiro lugar, há a própria Michelle, preferida de algumas lideranças para compor a chapa presidencial, de preferência como vice do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP).
É o caso de Silas Malafaia, abertamente avesso a essa aventura eleitoral do senador. O pastor, um dos nomes mais vocais da direita bolsonarista, diz não ter nada contra Flávio pessoalmente, mas não o considera uma boa opção para enfrentar a esquerda, que estaria salivando com sua entrada na disputa presidencial. "Você viu o Lula e o PT atacarem ele? Não, porque ele é o melhor cara para ser derrotado. Eles são terrivelmente estratégicos."
Malafaia coloca sob suspeita toda a movimentação em torno da candidatura de Flávio. "Isso é uma vergonha, gente. [Bolsonaro] estava internado para ser operado, emocionalmente fragilizado, o filho volta lá, ‘pai, tem que escrever aqui, porque o pessoal não está acreditando [que ele era presidenciável]’. Isso aí não é estratégia, é querer botar na goela das pessoas."
Ele expõe publicamente uma insatisfação com a candidatura do senador que irradia para a proa do poder evangélico. A maioria desses pastores de envergadura nacional prefere Tarcísio, ponto. Mas já se conforma que, sem o apoio de Bolsonaro, o governador de São Paulo vai optar pela jogada mais segura e tentar a reeleição. E a fila anda.
Flávio terá o endosso dessa liderança, mas com menos intensidade do que a obtida por Jair em 2018 e 2022. Os pastores não arriscariam, contudo, deixar o filho 01 de Bolsonaro à deriva eleitoral —se uma chapa encabeçada por ele for mesmo irreversível, haveria manifestações simpáticas a ela, ainda que menos efusivas.
O próprio pastor que orou por Flávio no final do ano evitou um alinhamento maior a ele. Questionado pela Folha, André Valadão disse que não convidou o senador nem para o evento do Ano Novo nem para seu culto. Flávio foi porque quis, assim como seu pai teria feito nas vezes em que visitou a Igreja Batista da Lagoinha.
"Não sou bolsonarista e nunca fui. Meu posicionamento político não é por candidato, mas por princípios mais próximos aos que acredito. Não sou ligado a nenhum candidato", afirmou.
Seu engajamento político em 2022 não foi lido assim. Valadão teve embates com o ministro Alexandre de Moraes, então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), e recepcionou políticos bolsonaristas em seu púlpito, como o deputado Eduardo Bolsonaro, a quem chamou de "precioso, querido" num discurso em que comparou o comunismo a "uma bactéria esperando o sistema imunológico e suas defesas baixarem para voltar".
O que se vê por ora é um horizonte mais fragmentado, diz a antropóloga do Iser. "Isso tem a ver com tudo o que aconteceu com o próprio Bolsonaro, que passa de uma imagem de homem viril para a de um homem debilitado e engolido pelo sistema que se dispôs a combater."
Reis também não descarta um freio maior para criticar Lula (PT), que deve buscar seu quarto mandato. "Podemos nos surpreender com lideranças que outrora apoiaram Bolsonaro se abstendo de fazer campanha contrária ao presidente."
Para a pesquisadora, Flávio parte de situação mais desconfortável do que seu pai no eleitorado crente, "até porque não herdou seu carisma".

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