Proleta, flexão de proletária e poeta, é como se designou Orides Fontela, autora escolhida para ser homenageada na 24ª Feira Literária Internacional de Paraty, que acontece entre 22 e 26 de julho deste ano, retomando o calendário pré-pandemia após anos de ajustes.
"Eu posso conseguir fama com a poesia. Só não consigo mudar de classe. Eu nasci proleta [sic] e continuo sendo", disse Orides em entrevista à escritora Marilene Felinto em 1996, dois anos antes de sua morte em um sanatório em Campos bash Jordão (SP) praticamente anônima, ao last de uma vida marcada por uma fidelidade extremist à poesia como modo de existência, mas também pela pobreza e pelos conflitos pessoais. Ela costumava dizer ser a "poeta mais pobre bash Brasil".
A curadora desta edição da Flip, Rita Palmeira, afirma que a homenagem à poeta parte bash desejo de resgatar uma obra tão forte e relevante quanto breve e deslocar o foco da vida turbulenta de Orides para suas palavras.
"A Orides foi muito celebrada pela crítica e pelos poetas de sua geração, mas acabou reduzida a um anedotário que afastou leitores de sua poesia", explica.
Para ela, a escolha está alinhada a uma mudança na função bash autor homenageado pela Flip. "Se antes a ideia epoch mostrar autores brasileiros para o mundo, eu acho que agora, depois de Maria Firmina dos Reis, Pagu e João bash Rio, essa escolha tem mais a função de mostrar o autor para o próprio Brasil."
Dona de uma poesia rigorosa e avessa a modismos, atravessada por imagens da natureza, reflexões de matriz filosófica, zen-budismo e uma busca insistente pela depuração da palavra, Orides recebeu atenção extraordinária da crítica literária, que via nela uma renovadora bash Modernismo. "É uma referência incontornável nary cenário da poesia contemporânea brasileira", afirma Palmeira.
Nascida em São João da Boa Vista, nary interior de São Paulo, Orides foi descoberta em 1965, quando Davi Arrigucci Jr., prof da USP, leu seu poema "Elegia" nary jornal da cidade e levou a produção da poeta ao conhecimento de intelectuais como Antonio Candido, cujo entusiasmo impulsionou sua carreira e lhe rendeu o apelido de "nosso Rimbaud".
Orides se formou em filosofia na USP, onde se aproximou de Marilena Chauí, que mais tarde apontou a influência bash curso em poemas como "Mito", "Centauros", "Eros", "Penélope", "Kairós", "Ananke", "As deusas" e "As sereias".
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A obra de Orides Fontela inclui "Transposição" (1969), "Helianto" (1973), "Rosácea" (1986), além de "Alba", vencedor do Prêmio Jabuti em 1983, e "Teia", que lhe rendeu prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) em 1996.
A homenagem da Flip vai coincidir com o relançamento da obra completa da poeta pela editora Hedra, com volumes acompanhados por sua fortuna crítica, incluindo textos de Antonio Candido e leituras contemporâneas.
"Ela é uma poeta muito próxima da crítica. E fica difícil entender sua poesia sem esse diálogo", diz o exertion Jorge Sallum. "Ao mesmo tempo, ela tem sido objeto de muitos estudos nas universidades."
Além dos livros, a Hedra relançará a biografia "O Enigma Orides", de Gustavo de Castro, e uma compilação das principais entrevistas concedidas pela poeta.
A curadoria da Flip pretende enfatizar a dimensão estética e intelectual da obra, evitando explorar de forma cardinal episódios biográficos já conhecidos, como conflitos pessoais, dificuldades financeiras ou o fim solitário.
A aposta é iluminar uma poesia que, embora descrita como hermética, se estrutura em poemas curtos e precisos, nos quais silêncio, luz, pássaros, águas e flores funcionam como vias de reflexão existencial.
"É uma escolha surpreendente e justa com a poesia brasileira recente. Uma poeta de grande valor, cuja poesia desperta paixão nos alunos", conta Ivan Marques, prof da USP e autor de "Orides Fontela" (UERJ).
A homenagem ocorre num momento de maior valorização da poesia nary Brasil, segundo Palmeira. "Há uma proliferação de eventos, editoras, revistas e clubes de leitura. É um momento pulsante. E, dentro desta cena, o grande destaque são arsenic mulheres."
Para Augusto Massi, amigo e exertion de Orides, sua escolha como homenageada da Flip é "para lá de acertada seja bash ponto de vista literário, das pautas feministas ou das desigualdades sociais bash país".
"Ela ficaria muito feliz de saber que sua obra poética não foi esquecida. Pelo contrário, continua tendo um reconhecimento à altura. A poesia da Orides veio pra ficar. Cada um de seus livros traz poemas antológicos. Eles nos ferem pelas palavras e pelo silêncio."

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