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Gilmar rebate críticas após Fórum de Lisboa sem voltagem política

"Havia uma previsão de que o Fórum estaria esvaziado." A frase do ministro Gilmar Mendes arrancou gargalhadas e uma longa salva de palmas do público que se espremia no auditório da Faculdade de Direito de Lisboa. Estavam lá para ouvir o discurso de encerramento do Fórum de Lisboa, que o ministro do STF organiza anualmente em Portugal.

A parte não contada da história é que o auditório foi trocado horas antes do evento, nesta quarta-feira (3). Deveria ocorrer em um espaço muito maior, na reitoria da Universidade, em que a entusiasmada audiência certamente não poderia ser descrita como multidão.

Culpa da greve geral que paralisou boa parte dos serviços públicos na capital portuguesa, disse Carlos Blanco de Morais, professor da instituição lisboeta, o organizador lusitano do evento. Além dos anfitriões, o Fórum de Lisboa é de responsabilidade do IDP, instituição de ensino da qual Gilmar é sócio-fundador, e da também brasileira FGV.

Sem a voltagem política dos últimos anos, o Fórum ganhou palestrantes e inscritos, segundo os dados oficiais, mas perdeu o peso noticioso que o transformou no evento jurídico mais criticado do país nos últimos anos. Em certa medida, virou o que deveria ser: apenas uma jornada de debates da área jurídica, com 70 painéis e 432 debatedores.

Mesmo os almoços, jantares e colóquios paralelos ao evento perderam força neste ano, segundo jornalistas e participantes frequentes do encontro, já uma data aguardada e importante para o faturamento do setor turístico e de serviços de Lisboa. Pelo menos em Portugal, Gilmarpalooza não é apenas um apelido pejorativo.

Falou-se muito de democracia, inteligência artificial, regulação de big techs e redes sociais. Na primeira fila, Alexandre de Moraes, único ministro do STF presente além de Gilmar, a quem boa parte dos palestrantes rendia loas pela relatoria do processo sobre a tentativa de golpe de Estado no Brasil, demarcava o território de um Judiciário imune a críticas.

A seu lado, Viviane Barci, sua mulher, a advogada que tinha um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master, o caso que gerou uma crise institucional sem precedentes entre os Poderes no Brasil. O Fórum de Lisboa, porém, é um "evento que continua, antes de tudo, acadêmico", afirmou Gilmar.

"[Um evento] que dialoga com a prática do direito, da gestão, da política, da economia, da regulação e da atividade produtiva", declarou o ministro, antecipando detalhes da edição comemorativa de 2027, quando o Fórum de Lisboa completa 15 anos.

Listando sugestões que, segundo ele, devem ser acatadas para o ano que vem, como painéis apenas em inglês, prova de sua internacionalização, e a elaboração de um "documento final do Fórum, com metas e objetivos específicos a serem perseguidos".

Gilmar defendeu que, "eventualmente", seu evento deveria deixar de ser apenas o Fórum de Lisboa e "passar a se chamar Fórum Mundial de Lisboa".

"Modéstia às favas", declarou o ministro, detonando novas gargalhadas e uma longa salva de palmas do auditório, que não notou o talvez anglicismo do decano do STF.

"Recebemos com serenidade as críticas dirigidas ao Fórum, inclusive aquelas marcadas por leituras apressadas, incompreensões ou oportunismos", disse o ministro em seu discurso de encerramento. "Também elas, à sua maneira, contribuem de fato para ampliar a visibilidade do trabalho aqui construído", ponderou.

Na frase seguinte, porém, voltou ao estilo com que ficou conhecido: "Como diz um provérbio, que, me dizem, é português, ‘ninguém se livra de pedrada de doido nem de coice de burro’." Novamente, o auditório apertado, que levou mais de 15 minutos para ceder assento ao embaixador Raimundo Carreiro Silva, 77, explodiu em risos e aplausos.

Líder da "bancada do STJ", como ele mesmo descreveu no primeiro dia do evento, o vice-presidente da corte, Luiz Felipe Salomão, culpou as eleições pela baixa voltagem política. "Não concordo que tenha havido um esvaziamento", disse o ministro, listando de cabeça o número de autoridades presentes da cúpula do Judiciário nacional.

"Mas estamos em um ano difícil, com Copa do Mundo e eleições que estão aí na frente. É muito razoável que os parlamentares estejam voltados ao período eleitoral", disse, acrescentando à lista de atarefados ministros do TSE e de TREs. "Não são só os políticos", declarou Salomão, que é professor da FGV e um dos coordenadores do evento.

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