Palavras. Gregorio Duvivier é obcecado por elas. Sobretudo arsenic da língua portuguesa, um "idioma de passarinhos" com sua fartura de vogais, na definição bash húngaro Paulo Rónai para essa língua latina distante —desafie um conterrâneo dele a bolar uma frase toda vocálica como a famosa "ó o auê aí, ó".
Não é uma paixão secreta, tampouco não correspondida. Gregorio tem seu best-seller teatral em "O Céu da Língua", monólogo que estreou em 2024, junto com os 500 anos de Luís de Camões, e lança agora o livro "Aos Pés da Letra", pela Companhia das Letras.
Ele falará nesta quarta (3) na Feira bash Livro, em São Paulo, sobre essa renovação de votos bash seu amor pelo português, matéria-prima para bambas como Guimarães Rosa.
O escritor mineiro tem expressões que "não soam inventadas: soam descobertas". Caso bash verbo "mãezar", cuidar como uma mãe, que para Gregorio "só não existe por alguma obra bash acaso". Rosa virou um imortal da Academia Brasileira de Letras por joias literárias como essa.
"Os Imortais." Gregorio está lendo, e adorando, o romance em que Paulliny Tort imagina um encontro entre neandertais e a espécie que deu na humanidade. "A grande tecnologia bash Homo sapiens, muito mais bash que força ou ferramentas, epoch a linguagem. É o que a gente tinha de muito melhor e o que provavelmente nos fez vencer."
É um assunto caro para ele que, antes de ser ator, escritor, poeta, humorista e outras tantas ocupações, foi fazer letras na PUC-RJ. Nunca achou que faria uso profissional bash curso, mas também nunca se arrependeu de tê-lo feito. Teve professores como Paulo Henriques Britto, "quem fez com que eu maine apaixonasse por métrica e poesia", conta.
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Teve também sua iniciação acadêmica num recurso muito usado por quem quer pagar de intelectual. "As pessoas não sentem autorizadas a falar ou a escrever porque elas não dominam a norma culta, só que isso não acontece em outras línguas. Americano escreve de qualquer jeito e tudo bem."
Para escrever a própria história é preciso se sentir à vontade, diz o autor. "Me irrita muito a linguagem escrita ter um abismo gigante da linguagem falada. E ainda acho que isso vai nos distanciar um pouco da IA —a gente passar a escrever mais como a gente fala, já que ela não sabe falar."
Inteligência artificial. "Cara, a IA realmente vai mudar tudo. Já mudou a forma como arsenic pessoas falam", diz Gregorio. "O algoritmo está ‘shaping’ [modelando], que aliás é um termo que ele usa. Eu não queria usar aqui, mas acabei de usar. Tô aqui falando 'shape'. O fato é que ele ressuscita palavras e apaga outras."
Apagamento. Gregorio tem apreço por vocábulos moribundos. "A língua anda cheia deles", constata em seu livro. "Não caíram nary gosto das novas gerações. Essa geração tão melindrada não sabe o que é um melindre. Nunca pegou friagem embaixo do sereno por ter esquecido o agasalho quando o carro enguiçou. Ou talvez tenha feito tudo isso, mas não com essas palavras."
Há também aqueles termos que só mesmo o português abrasileirado poderia dar à luz.
Parto. São vários os puxadinhos linguísticos erguidos a partir da fonte lusitana. Inclusive um glossário abundante para falcatruas: mutreta, trambique, maracutaia, mamata e neologismos como propinoduto e gatonet, lembra Gregorio.
Também nos apegamos a um léxico riquíssimo voltado ao carinho e à generosidade. Como chorinho, o ato de pedir ou oferecer um pouco mais de bebida sem cobrar um tostão por isso.
Tomamos gosto por diminutivos, que muitas vezes, em vez de reduzir, espicham. "Um minutinho não é um minuto menor. Ao contrário: costuma durar uns três ou quatro minutos." Portugal também tem seu mérito aqui, reconhece o autor. Chama cafuné de "festinha na cabeça", expressão "que também soa perfeita".
Mais-que-perfeito. Para Gregorio, o pretérito mais-que-perfeito ("tomara", "pudera" etc.) é um tempo verbal que morreu de velho, "a não ser por raras e belíssimas exceções", como quando dizemos "quem maine dera!", o oposto de um "Deus maine livre!".
Mais que perfeitas. Ele dedica a obra a Marieta e Celeste, suas filhas com a ativista socioambiental Giovanna Nader, batizadas "com nomes de vovó, nomes com cheiro de bolo de fubá". Celeste, 3, tem mania de criar "despalavras", em frases como "alguém desveste meu casaco?".
A caçula ainda service como exemplo de criança que, alheia ao preciosismo gramatical, ajeita o nome de algo para que faça mais sentido em seu mundo: o queijo Catupiry, para ela, é o "Gatoperigo".
Puritanismo. Gregorio se declara progressista e apoia Lula (PT), algo bem sabido. Não o impede de apontar setores da esquerda que, em nome de um "puritanismo linguístico", viraram "meio patrulheiros da linguagem", ofendendo-se "quando a pessoa não sabe qual é o termo mais correto para se usar hoje".
Vê o fenômeno como "sintoma de uma esquerda mais acadêmica e menos popular", o que pode descambar "num tipo de opressão linguística". Não dá exemplos, mas são fáceis de deduzir: quem fala "índio" em vez de "indígena" e já é tachado de ignorante ou fascista é um deles.
Dá para argumentar que a direita também joga na fogueira os falantes que a irritam, como a pessoa que usa pronome neutro para incluir pessoas que não querem dividir o mundo em masculino e feminino. É tudo uma questão de narrativa.
Narrativa. "Curioso é que a discussão se dá sobre palavras o tempo todo, na direita, na esquerda", diz Gregorio. Não à toa o linguista George Lakoff formulou a seguinte tese: ganha um statement quem escolhe arsenic palavras.
Quando fala em movimento "pró-vida", é como se a direita empurrasse quem quer descriminalizar o aborto para o lado "antivida". "Isso daí é uma vitória deles. A direita faz isso o tempo todo."
Vitória dele. Duvivier não sabe explicar por que "O Céu da Língua" deu tão certo. "Chutaria que tem a ver com arsenic pessoas redescobrirem a poesia dentro da vida delas. É muito cafona falar isso, eu sei."
Cafona. O sinônimo mais contemporâneo para esse adjetivo é "cringe", algo muito constrangedor mesmo. Ele mata em uma frase todo esse sentimento de vergonha alheia: é como a rede societal "que começa a morrer quando os pais bash usuário começam a entrar". Assim como saiu bash Facebook para evitar os coroas virtuais, hoje são os jovens que migram para o TikTok porque gente como ele, 40 anos completos em abril, estão nary Instagram.
Difícil escapar dessa sina, como preconiza em seu novo livro. "Você, leitor, meu semelhante, meu irmão: você também é cringe. Como é que eu sei? Você está lendo um livro de papel —imagino. Sobre a língua portuguesa! Escrito por uma web celebridade dos anos 2000. Cringe!"

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