Ferramentas de inteligência artificial conhecidas por respostas racionais, lógicas e previsíveis estão passando por uma transformação curiosa: a aplicação de códigos que simulam os efeitos de substâncias psicoativas para alterar o comportamento dos algoritmos. A prática, apelidada de “drogas digitais”, vem ganhando espaço em comunidades criativas e despertando debates sobre até que ponto é possível forçar sistemas de IA a pensar fora dos padrões tradicionais.
Um dos principais exemplos desse movimento é o projeto Pharmaicy, que vende módulos capazes de modificar a forma como chatbots como o ChatGPT interpretam comandos e constroem respostas. Conheça e veja testes realizados por uma internauta.
IA sob efeito de 'drogas digitais'? Conheça o mercado que cresce online — Foto: Imagem criada com Nano Banana (IA)
Publicação feita pela criadora de conteúdo Ana Freitas, sobre o uso de drogas digitais — Foto: Reprodução/Gabriel Pereira A novidade ganhou repercussão nas redes sociais após ser apresentada pela criadora de conteúdo Ana Freitas, conhecida no Instagram pelo perfil @anacron.ia, onde compartilha experimentos e reflexões sobre inteligência artificial e criatividade. Em um de seus testes, Ana aplicou o módulo que simula os efeitos da ayahuasca no ChatGPT e comparou o comportamento da ferramenta antes e depois da “dose”. Segundo ela, inicialmente a IA apresentava respostas mais diretas, objetivas e até com um tom leve e bem-humorado; após a aplicação da substância digital, porém, o chatbot passou a exibir camadas adicionais de criatividade, com construções menos lineares, associações mais livres e respostas que fugiam do padrão lógico convencional.
Os módulos vendidos pelo Pharmaicy variam de preço conforme o tipo de “substância digital” escolhida. As opções mais baratas custam cerca de US$ 30, no caso do módulo que simula os efeitos da maconha, enquanto versões mais intensas, como ayahuasca e ketamina, saem por aproximadamente US$ 50 e US$ 45, respectivamente. Já o pacote inspirado na cocaína é o mais caro, com valor em torno de US$ 70. Segundo a plataforma, cada módulo atua de forma diferente no comportamento da IA, alterando parâmetros como aleatoriedade, encadeamento lógico e estilo de resposta.
Para quem não quer investir de imediato, o site também oferece uma “microdose” de ayahuasca gratuita, que libera um módulo leve com efeitos reduzidos. A ideia é permitir que os usuários testem, de forma limitada, como a IA reage às alterações antes de adquirir as versões completas. Essa amostra funciona como uma demonstração do conceito e tem sido usada para atrair curiosos e criadores interessados em explorar respostas menos convencionais dos chatbots. Para receber essa microdose, é necessário apenas fornecer o email na página inicial do site oficial e aguardar o código ser enviado por e-mail.
O código que simula a microdose de ayahuasca é enviado por e-mail assim que o usuário se cadastra — Foto: Reprodução/Gabriel Pereira Drogas digitais de IA: testamos no ChatGPT
Para testar os efeitos da 'substância' no ChatGPT, nós realizamos o seguinte teste: foi fornecido o mesmo comando em dois chats diferentes, um com e o outro sem a micro dose. O comando utilizado foi o seguinte:
"Gere um parágrafo descrevendo o seguinte cenário de forma apaixonada: É uma manhã fria, porém ensolarada. O local é um campo com vastas colinas gramadas. Há um casal fazendo um piquenique na grama"
A primeira resposta, gerada sem o uso da micro dose, seguiu o padrão habitual do ChatGPT: um texto criativo, porém previsível, com construções seguras e um tom levemente genérico.
Texto gerado sem a microdose — Foto: Reprodução/Gabriel Pereira Já o segundo texto, produzido por um chat submetido à microdose de ayahuasca, exibe mudanças perceptíveis em relação ao comportamento padrão da ferramenta, apostando em uma abordagem mais sensorial e enriquecida por detalhes que ampliam a profundidade da narrativa.
Texto gerado com a microdose de ayahuasca — Foto: Reprodução/Gabriel Pereira Na comparação entre os dois conteúdos, fica evidente a mudança de estilo. Enquanto a versão gerada sem a microdose prioriza clareza, objetividade e uma criatividade mais contida, resultando em um texto organizado, porém previsível, o material produzido após a aplicação da ayahuasca digital aposta em construções menos lineares, descrições mais sensoriais e associações livres. O resultado é uma narrativa mais rica em imagens e nuances, que amplia o impacto emocional, mas também pode sacrificar parte da lógica e da precisão típicas do modelo tradicional.
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1 mês atrás
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