Na primeira parte de uma investigação com repórteres disfarçados, migrantes com vistos prestes a expirar são orientados a fabricar provas para pedir asilo alegando ser gays e temer perseguição no Paquistão ou Bangladesh

Legenda da foto, Na primeira parte de uma investigação com repórteres disfarçados, migrantes com vistos prestes a expirar são orientados a fabricar provas para pedir asilo alegando ser gays e temer perseguição no Paquistão ou Bangladesh
    • Author, Billy Kenber
    • Role, Correspondente de investigações políticas
    • Author, Phil Kemp
    • Role, Repórter de política
  • Há 32 minutos

  • Tempo de leitura: 14 min

Uma indústria paralela de escritórios de advocacia e consultores está cobrando milhares de libras para ajudar migrantes a fingir ser homossexuais a fim de permanecer no Reino Unido, revela uma investigação da BBC.

Na primeira parte de uma ampla investigação com repórteres disfarçados, revelamos como migrantes cujos vistos estão prestes a expirar recebem histórias de fachada e são instruídos sobre como obter provas fabricadas, incluindo cartas de apoio, fotografias e laudos médicos.

Com isso, eles solicitam asilo afirmando ser gays e alegando temer por suas vidas caso retornem ao Paquistão ou Bangladesh.

Em resposta às descobertas da reportagem da BBC, o Ministério do Interior do Reino Unido afirmou: "Quem for flagrado tentando se aproveitar do sistema enfrentará todo o rigor da lei, incluindo a expulsão do Reino Unido."

O processo de asilo britânico oferece proteção a pessoas que não podem retornar a seus países de origem por estarem em risco.

No entanto, a investigação da BBC revela que esse processo está sendo sistematicamente distorcido por consultores jurídicos que cobram taxas de migrantes que desejam permanecer no país.

Trata-se, em grande parte, de pessoas cujos vistos de estudante, trabalho ou turismo expiraram, e não daquelas que acabaram de chegar ao país em pequenas embarcações ou por outras rotas ilegais.

Esse grupo representa atualmente 35% de todas as solicitações de asilo, que superaram 100 mil pedidos em 2025.

Após reunir evidências iniciais, incluindo denúncias, a BBC enviou repórteres disfarçados para investigar o quanto esses consultores de imigração estavam dispostos a ajudar pessoas a fabricar alegações falsas de asilo.

Os repórteres se passaram por estudantes internacionais do Paquistão e de Bangladesh cujos vistos estavam prestes a expirar.

A investigação descobriu:

  • Um escritório de advocacia cobrou até £ 7.000 (cerca de R$ 46 mil) para apresentar um pedido de asilo fabricado e afirmou que a chance de recusa pelo Ministério do Interior do Reino Unido era "muito baixa"
  • Falsos solicitantes de asilo procuraram clínicos gerais fingindo estar deprimidos para obter evidências médicas que reforçassem seus casos; um deles chegou a mentir dizendo ser uma pessoa vivendo com HIV
  • Uma consultora de imigração se gabou de ter mais de 17 anos de experiência ajudando a apresentar pedidos falsos, afirmando que poderia providenciar alguém para fingir ter tido um relacionamento sexual homoafetivo com o cliente.
  • Um repórter da BBC infiltrado chegou a ser informado de que poderia trazer sua esposa do Paquistão após obter asilo no Reino Unido, e que ela então poderia apresentar um pedido falso alegando ser lésbica
  • Um advogado ligado a outro escritório disse a um repórter da BBC disfarçado que já havia ajudado pessoas a fingir ser gays ou ateias para obter asilo com sucesso; ele se ofereceu para auxiliar em um pedido falso por £ 1.500 (cerca de R$ 9.800) e afirmou que a criação de provas custaria entre £ 2.000 e £ 3.000 (cerca de R$ 13 mil a R$ 20 mil)

'Aqui ninguém é gay'

Em uma terça-feira à noite, em um centro comunitário em uma área tranquila de Beckton, no leste de Londres, mais de 175 pessoas se reuniram para um evento.

Algumas viajaram de lugares tão distantes quanto o sul do País de Gales, Birmingham, no centro da Inglaterra, e Oxford, a cerca de 100 km de Londres, para participar de um encontro organizado pela Worcester LGBT, que se descreve como um grupo de apoio para solicitantes de asilo gays e lésbicas.

Imagem dividida. À esquerda, há um convite online para uma festa de Eid, com ilustrações de jovens, homens e mulheres, diante de uma mesquita, com fogos de artifício ao fundo.

Legenda da foto, Mais de 175 pessoas se reuniram em um evento organizado pela Worcester LGBT

O site do grupo afirma que apenas solicitantes de asilo genuinamente gays são bem-vindos.

Mas os homens que saem do centro e se espalham pela calçada do lado de fora admitem prontamente ao nosso repórter disfarçado que nem tudo é o que parece.

"A maioria das pessoas aqui não é gay", diz um homem que se identifica como Fahar.

Outro, que se apresenta como Zeeshan, vai além.

"Aqui ninguém é gay. Nem 1% é gay. Nem 0,01% é gay."

A jornada do repórter da BBC disfarçado até a reunião do grupo começou no fim de fevereiro, quando ele procurou Mazedul Hasan Shakil, assistente jurídico da Law & Justice Solicitors, um escritório de advocacia especializado em imigração com sede em Birmingham e Londres.

Além de seu trabalho jurídico, Shakil é também o fundador e presidente do Worcester LGBT. Até recentemente, ele usava o site do grupo comunitário para divulgar os seus serviços jurídicos.

Durante uma breve ligação telefônica, Shakil disse ao repórter disfarçado que ele precisaria estar sofrendo perseguição para solicitar asilo e que não parecia ter nenhuma base para fazê-lo.

Mas, poucas horas depois, inesperadamente, o repórter disfarçado recebeu uma ligação de alguém que se apresentou como Tanisa.

Com a conversa agora em urdu, idioma falado no Paquistão, ela se mostrou muito mais disposta a ajudar o repórter a permanecer no país, explicando como ele poderia solicitar asilo alegando ser gay.

Quando ele disse que não era gay, ela respondeu: "Me escute. Não há ninguém que seja de verdade. Só há uma saída para viver aqui agora, e é exatamente esse o método que todo mundo está adotando."

Ela não quis revelar quem havia passado o número dele, mas a equipe conseguiu associar a foto de perfil do WhatsApp e o primeiro nome ao de Tanisa Khan, que trabalha como consultora do Worcester LGBT.

'Um pacote completo'

Naquela noite, o repórter disfarçado viajou até Forest Gate, no leste de Londres, para uma consulta inicial com Tanisa.

O primeiro encontro não aconteceu nas instalações do escritório de advocacia que ela usaria posteriormente, mas em sua própria casa. Ele foi convidado a entrar e levado ao andar de cima, até um quarto.

"No momento, existe apenas uma rota pela qual você pode obter um visto e ela está aberta", explicou Tanisa, sentada na beira da cama.

"É o visto de asilo… é com base em direitos humanos e é chamado de caso gay ou de pessoas do mesmo sexo. Não há esperança para qualquer outro visto."

Tanisa ressaltou que o que ela estava propondo exigiria esforço, já que o repórter teria de memorizar uma história inventada para a entrevista com o Ministério do Interior do Reino Unido.

"É você quem vai lá fazer a prova. Estou aqui para preparar tudo para você, mas, no fim, é você quem terá de ir até lá", disse ela.

O que se seguiu ao longo de 45 minutos no quarto de Tanisa foi um vislumbre de quão sofisticada pode ser a fraude envolvida em alguns pedidos de asilo falsos — e, portanto, de como pode ser difícil para as autoridades identificá-la.

Imagens de câmera oculta mostram uma mulher asiática sentada em uma cama. Parede com papel de parede azul vivo e prata ao fundo, enquanto a colcha apresenta um padrão xadrez grande em amarelo, azul e cinza

Legenda da foto, A consulta inicial com Tanisa, consultora da Worcester LGBT, ocorreu em um quarto

Os solicitantes de asilo passam por uma entrevista inicial de triagem com o Ministério do Interior do Reino Unido e, em seguida, por uma "entrevista substantiva" exaustiva, que pode durar várias horas, durante a qual suas alegações são investigadas em detalhes.

As decisões do Ministério do Interior de rejeitar um pedido de asilo podem ser contestadas e eventualmente revertidas na Justiça.

"Não há como verificar se a pessoa é gay", disse Tanisa ao repórter da BBC disfarçado.

"O que importa é o que você diz. Você só precisa dizer a eles: 'Eu sou gay e essa é a minha realidade'."

"Há muitas organizações aqui com pessoas como você, que não são gays, mas estão solicitando o visto. Você não está sozinho", acrescentou, tentando tranquilizá-lo.

Em seguida, ela explicou como o esquema funcionaria.

"A abordagem que vamos adotar é a seguinte: vou prepará-lo completamente para a entrevista, reunindo um pacote completo para você, incluindo fotografias suas em clubes, vários outros documentos de apoio, uma carta de uma organização e outras cartas de recomendação, para que você esteja totalmente pronto quando eu o enviar."

Tanisa, que afirmou ter passado mais de 17 anos ajudando a apresentar pedidos falsos, disse que as fotos tiradas do repórter disfarçado em eventos LGBT e os ingressos que ele compraria serviriam como prova no processo.

"Vou fornecer uma carta de alguém, junto com a qual tiraremos algumas fotos, e essa pessoa escreverá que manteve relações sexuais com você", acrescentou.

O serviço de Tanisa tinha um custo — £ 2.500 (cerca de R$ 17 mil) —, com o alerta de que o valor aumentaria no improvável caso de o pedido do repórter ser recusado pelo Ministério do Interior e seguisse para recurso na Justiça.

Uma solicitação bem-sucedida compensaria o esforço envolvido, afirmou.

"Você pode viver aqui, trabalhar e também tem direito a receber benefícios."

Mas se o pedido de asilo fosse aprovado, o que isso significaria para a esposa dele no Paquistão, perguntou o repórter disfarçado, já que ele teria dito ao Ministério do Interior que era gay?

"Se você trouxer ela para cá, então solicitaremos asilo para ela também", respondeu Tanisa.

"Quando ela estiver aqui, podemos fazê-la se passar por lésbica."

A fabricação de provas

anisa não é uma consultora de imigração regulamentada e, por isso, é ilegal que ofereça aconselhamento nessa área.

Ela se mostrou evasiva sobre sua ligação com o assistente jurídico com quem havíamos falado naquela manhã, limitando-se a dizer que trabalhava com ele.

"Advogados e afins deveriam mostrar o caminho. No entanto, o trabalho de campo em si é algo que eles não fazem", afirmou, referindo-se aparentemente à fabricação de provas.

"Nós cuidamos do trabalho de campo."

Mas suas ligações com Shakil ficaram mais claras em dois encontros posteriores, ambos realizados no escritório de Ilford da Law & Justice, o escritório de advocacia onde ele Shakil trabalha.

"Eu trabalho com um advogado, então uso o escritório dele", explicou.

Em uma das reuniões, nosso repórter disfarçado pediu para ser apresentado a Shakil para agradecê-lo por tê-lo colocado em contato com Tanisa e foi conduzido a uma sala ao lado, onde cumprimentou Shakil com um aperto de mão.

Tanisa também explicou o papel desempenhado pela Worcester LGBT, que descreveu como "nossa organização" e que afirma em seu site ter sido "formalmente reconhecida pelo Ministério do Interior… reconhecendo nossa contribuição contínua no apoio a solicitantes de asilo LGBT+ em todo o Reino Unido".

Ela disse ao repórter disfarçado que ele deveria comparecer à próxima reunião, realizada no início de abril, e afirmou que algumas pessoas ali seriam como ele, buscando casos falsos, e que "também haverá casos genuínos".

"Essa reunião é essencial porque você precisa apresentar ao Ministério do Interior provas de que, sendo gay, está de fato vinculado a uma organização gay", disse ela.

Ela afirmou que a Worcester LGBT poderia emitir uma carta que ele poderia usar como prova em seu pedido.

"Emitiremos uma carta nossa declarando que você… é nosso membro, um membro genuíno, afiliado a nós e alguém que conhecemos pessoalmente. Esse tipo de prova é muito forte."

Investigação da BBC revela que assessores jurídicos ajudam migrantes a se passarem por gays para obter asilo

Legenda da foto, Investigação da BBC revela que assessores jurídicos ajudam migrantes a se passarem por gays para obter asilo

A BBC mostrou as imagens a Ana Gonzalez, advogada especialista em direito de imigração com 30 anos de experiência. Ela afirmou que Tanisa estava claramente infringindo a lei, "cometendo fraude ao fabricar um processo para entregar a essa pessoa".

"Pessoas assim [estão] tornando as coisas muito mais difíceis para os solicitantes de asilo e refugiados legítimos", disse Gonzalez.

"Especialmente quando se trata de algo tão intangível quanto ser LGBTI. Quando você é vítima de tortura, quando certas coisas acontecem com você, geralmente há uma forma de comprovar isso de maneira objetiva."

"No caso da comunidade queer, não é assim. Tudo se baseia no contato e em como você se apresenta e no quão convincente consegue ser naquele dia específico, independentemente de estar dizendo a verdade ou não."

Após ser procurada pela BBC News com suas declarações feitas ao repórter disfarçado, Tanisa atribuiu a um "mal-entendido" decorrente de dificuldades de comunicação e disse não falar urdu com fluência. Ela negou ter aconselhado o repórter disfarçado a fazer um pedido falso ou ter se oferecido para criar provas fabricadas.

Shakil afirmou que repassou os dados do repórter disfarçado a Tanisa sem saber ou suspeitar que ela ofereceria a fabricação de um pedido de asilo.

Ele disse que a Worcester LGBT não cria nem apoia provas fabricadas em pedidos de asilo e que não cabe à organização determinar se um indivíduo é de fato gay.

Shakil acrescentou que o Worcester LGBT estava conduzindo uma investigação sobre a conduta de Tanisa e que ela não tinha autoridade para tomar decisões dentro do grupo.

O Law & Justice Solicitors afirmou que Tanisa não tem vínculo profissional com o escritório e que está investigando "qualquer possível acesso não autorizado" ao seu escritório em Londres.

O escritório afirmou que nosso repórter disfarçado nunca foi registrado como cliente da firma.

Paralelamente aos encontros com Tanisa, o repórter da BBC disfarçado também marcou uma reunião com um assessor do escritório de advocacia Connaught Law, localizado no centro do distrito jurídico de Londres. Lá, ele se reuniu com Aqeel Abbasi, assessor jurídico sênior da Connaught.

Ele prometeu que a chance de recusa pelo Ministério do Interior do Reino Unido era "muito baixa".

Abbasi disse ao repórter da BBC que poderia ajudá-lo a permanecer no país e pareceu disposto a orientá-lo sobre como fabricar provas para um pedido falso.

Disse que seus honorários seriam de £7.000 (cerca de R$ 47 mil) e que, após o pagamento, seu escritório entraria em contato com o repórter disfarçado para guiá-lo pelo processo e pelo tipo de provas necessárias.

Isso incluiria aconselhamento sobre "aonde ir ou que ações específicas tomar".

"As provas devem ser obtidas e apresentadas a partir de suas associações e clubes", disse Abbasi. "Os lugares que frequentam, onde ficam seus clubes gays."

Em determinado momento, o repórter perguntou se teria que ir a um clube gay.

"Sim, você terá que ir", respondeu Abbasi.

"Mas eu não sou assim", replicou o repórter.

Abbasi pareceu se divertir com a resposta e afirmou: "Eu tiro algumas fotos lá."

O assessor jurídico também sugeriu que o repórter disfarçado precisaria encontrar alguém disposto a fingir ser seu parceiro.

Quando o repórter disse que tinha uma esposa no Paquistão, Abbasi rapidamente sugeriu uma história de fachada para explicar a situação, dizendo que as coisas são "mais abertas" no Reino Unido do que no Paquistão e que ele agora teria um parceiro do sexo masculino.

"Vamos preparar uma declaração para você e, quando você a ler, vai entender exatamente como funciona", disse Abbasi.

'É um problema enorme'

A Worcester LGBT realiza encontros mensais que reúnem participantes de todo o país, muitos dos quais parecem ser solicitantes de asilo com pedidos falsos.

Mas não é o único grupo comunitário utilizado por solicitantes de asilo que fingem ser gays.

Ejel Khan, britânico fundador da Muslim LGBT Network, com sede em Luton, afirmou: "É um problema enorme. As pessoas se oferecem para me pagar para que eu lhes forneça cartas de recomendação da minha organização, mas eu nunca aceito. Todo o meu trabalho é voluntário."

Segundo ele, alguns chegaram a dizer: "Não sou gay, mas quero permanecer neste país".

É difícil saber com precisão quantos pedidos de asilo podem ser fabricados.

Mas dados do Ministério do Interior do Reino Unido mostram que cidadãos paquistaneses representam uma parcela desproporcional dos pedidos feitos com base na orientação sexual.

Em 2023, o ano mais recente com dados disponíveis, houve decisões iniciais sobre 3.430 pedidos de asilo LGBT e quase 1.400 novos pedidos apresentados com base na orientação sexual.

Cerca de 42% foram feitos por cidadãos paquistaneses, que representaram o maior número desse tipo de solicitação em cada um dos cinco anos anteriores.

No mesmo ano, os paquistaneses foram apenas a quarta nacionalidade mais comum entre todos os pedidos de asilo e responderam por apenas 6% do total.

Não há dados mais recentes sobre pedidos de asilo com base na orientação sexual.

Mas estatísticas do Ministério do Interior apontaram um aumento acentuado nos pedidos de asilo de cidadãos paquistaneses em geral, bem como de migrantes de Bangladesh e da Índia, com vistos de estudo ou trabalho, nos últimos anos.

Quase dois terços dos solicitantes de asilo que alegaram perseguição com base na orientação sexual tiveram seus pedidos aceitos na etapa inicial em 2023.

Ali, nome fictício, veio ao Reino Unido como estudante do Paquistão em 2011.

Ele procurou uma advogada antes de seu visto expirar, três anos depois, e afirma que ela o orientou a inventar uma história de que era gay para solicitar asilo e permanecer no país.

Segundo ele, a advogada "me orientou a procurar meu clínico geral e demonstrar que eu estava sofrendo de depressão, especificamente por causa dessa situação do visto".

Ele acrescentou: "Na verdade, não cheguei a tomar os remédios, mas ela insistiu que eu obtivesse a medicação para que pudéssemos apresentar ao Ministério do Interior uma prova de que eu havia entrado em estado de depressão."

Uma entrevista inicial com o Ministério do Interior não foi bem-sucedida, e os recursos prolongados acabaram elevando seus custos para mais de £ 10.000 (cerca de R$ 67 mil).

Ele participou de marchas do orgulho LGBT e frequentou clubes gays mais de dez vezes, tirando fotos para apresentar como prova, por orientação de sua advogada.

A BBC também teve acesso a evidências de que ele tentou, sem sucesso, obter uma carta de apoio de uma organização de apoio a pessoas vivendo com HIV, após frequentar reuniões do grupo e mentir dizendo que tinha o vírus.

Ele acabou retornando ao Paquistão em 2019, devido ao aumento dos custos jurídicos, oito anos após chegar ao Reino Unido.

Quando a sua esposa veio ao Reino Unido como estudante internacional em 2022, ele foi impedido de se juntar a ela por causa de sua própria tentativa fracassada de obter asilo.

Mas ele nos contou que três de seus amigos conseguiram asilo mentindo sobre sua sexualidade.

"Eles até se casaram no Paquistão e trouxeram suas esposas para cá, e agora têm filhos", disse.

Regras de imigração mais rígidas

A parlamentar Jo White, membro do Partido Trabalhista e integrante do comitê de assuntos internos do Parlamento britânico, afirmou que o governo deve "agir com rigor" contra os escritórios de advocacia e consultores expostos pela BBC.

Representante do distrito de Bassetlaw, White disse ao programa Today, da BBC Radio 4, que espera que a polícia investigue o caso.

"É absolutamente essencial que o governo tome medidas duras contra eles. Espero que provas como essas cheguem diretamente à polícia e que ela inicie suas ações e desmantele esse esquema."

White também pediu ao Ministério do Interior do Reino Unido que pare de emitir vistos de estudante a pessoas do Paquistão, assim como fez no mês passado com cidadãos do Afeganistão, Camarões, Mianmar e Sudão, alegando uso indevido generalizado de vistos.

O Ministério do Interior afirma que é crime fazer um pedido de asilo com base em informações falsas, e que qualquer pessoa condenada por isso pode ser presa e posteriormente deportada.

"Qualquer tentativa de usar indevidamente proteções destinadas a pessoas que fogem de perseguição real por causa de sua orientação sexual é deplorável", disse um porta-voz à BBC.

"O sistema de asilo é baseado em salvaguardas robustas para garantir que cada pedido seja avaliado de forma rigorosa e justa."

"A proteção é concedida apenas àqueles que atendem aos critérios estabelecidos. Abusos são ativamente identificados e os procedimentos são continuamente revisados para impedir usos indevidos."

Em março, a ministra do Interior, Shabana Mahmood, anunciou mudanças significativas nas regras de imigração do Reino Unido, o que significa que solicitantes de asilo passarão a receber apenas proteção temporária, com seus casos sendo reavaliados a cada 30 meses.

Um dia depois, durante uma reunião com o nosso repórter disfarçado, Tanisa demonstrou confiança de que essas mudanças não tornariam mais difícil obter asilo com base em provas fabricadas.

Ainda assim, ela usou o anúncio numa aparente tentativa de convencer o repórter a não adiar sua própria solicitação.

"Eles já fizeram isso agora", alertou. "Quem sabe o que mais podem fazer amanhã ou depois?"

À medida que o clima se tornava mais leve no fim da reunião, ela fez um pedido ao suposto cliente.

"Se você conhecer alguém que precise de ajuda no futuro, vai trazê-lo até mim, não vai?"