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Juros altos: um diálogo com Samuel Pessôa

Os argumentos de Samuel são importantes e ajudam a compreender, em parte, que os juros são elevados por outras razões, possivelmente. Na sua visão, pelo peso excessivo dos gastos públicos, que estão crescendo acima do PIB (Produto Interno Bruto), o que é fato. É possível que o nível dos gastos, incluídos os governos subnacionais, as estatais e o governo federal, também reforce essa linha de argumentação.

Tendo a concordar com sua visão geral, mas gostaria de trazer elementos adicionais, para colaborar com essa discussão que, afinal, é central no debate sobre os arranjos de política econômica escolhidos nos últimos 30 anos pelo Brasil.

A partir das evidências trazidas por estudos de Thiago Cavalcanti e Carlos Eduardo Gonçalves, cujos principais resultados foram publicados em artigo no Valor Econômico ("Juro real no Brasil, uma jabuticaba?", de 23 de março de 2026), conclui-se que os juros de longo prazo têm se situado, entre 2005 e 2025, em patamar mais alto do que o esperado a partir de comparações internacionais.

Os autores estabeleceram controles variados, tentando projetar quais seriam os juros esperados para o Brasil, a partir de diferentes modelos econométricos, dadas as suas características em termos de "poupança, qualidade institucional, poupança interna, impulso fiscal, independência do Banco Central e o fato de o país ser ou não um grande exportador de petróleo". Também controlaram os cálculos pelo ciclo de juros mundial.

Suas conclusões são muito instigantes: os juros brasileiros de longo prazo são sistematicamente elevados. Eles não avançaram, ainda, sobre quais seriam as razões para esse achado. De 2005 a 2009, os juros reais de longo prazo estimados pelo modelo indicam taxa de 4,88% ao ano, enquanto o dado observado foi 8,48%. Para os períodos de 2010 a 2014, 2015 a 2019 e 2020 a 2025, respectivamente, as taxas projetadas e observadas são estas: 3,95% e 5,55%; 4,48% e 5,27%; e 3,07% e 5,35%.

Uma das questões interessantes a explorar parece ser a da composição da dívida pública, uma característica singular do Brasil. Aqui, quase metade da dívida mobiliária (títulos públicos somados às operações compromissadas do Banco Central, lastreadas em títulos) está atrelada à própria taxa de juros de curto prazo.

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