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Lugar de mulher ainda é ser vice e longe dos conchavos, criticam senadoras de direita

Ex-ministras do governo Bolsonaro, as senadoras Damares Alves (Republicanos-DF) e Tereza Cristina (PP-MS) ganharam papel de destaque entre as lideranças de direita pela postura mais independente.

Com um bom trânsito na esquerda e no centro, a senadora sul-matogrossense é cogitada para ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-SP) à Presidência.

"Quando precisam de uma mulher na chapa, pegam o nosso nome e colocam lá, mas não conversam com a gente", diz a senadora, sobre a tradicional composição tendo sempre um homem como cabeça de chapa.

Apesar de figurar bem nas pesquisas entre os presidenciáveis ligados ao bolsonarismo, Michelle Bolsonaro sempre foi vista como possível candidata a vice em uma chapa presidencial encabeçada por Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A ex-primeira-dama é peça-chave no pleito de 2026. É reconhecida como "um fenômeno na política brasileira" pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

"Você preside o PL Mulher com uma competência e um carisma que eu raramente vi em tantos anos de política. Você tem o dom de se comunicar com o povo, que é impressionante. Isso não se aprende. O Brasil precisa de sua liderança. O PL precisa de você", diz ele, em mensagem de vídeo postada no Instagram em 22 de março, aniversário de Michelle.

Nos bastidores é travada uma queda de braço familiar pelo apoio da ex-primeira-dama à candidatura do enteado Flávio, entronizado pelo pai como "herdeiro-mor" do espólio político do clã, quando é sabido que a relação entre eles nunca foi amistosa.

De qualquer forma, as articulações partidárias ainda passam ao largo das mulheres, segundo Damares.

"Nós não participamos das grandes decisões dos nossos partidos. Somos comunicadas. Tanto nos partidos de direita quanto nos de esquerda, nós somos úteis para mobilizar", desabafa a senadora, que foi ex-ministra de Direitos Humanos do governo Bolsonaro. "Michelle arrasta multidões. Tereza arrasta. Eu arrasto. Mas na hora H não somos consultadas."

Tereza Cristina endossa a opinião. Constata que mulheres são convidadas para as reuniões políticas formais, mas não para aquelas em que são feitos os conchavos, onde "as coisas realmente acontecem".

"No meu estado, eu não vou na pescaria só com homens. Lá acontecem as articulações, os conchavos e as combinações. Pra gente já chega meio pronto", relata. "As mulheres têm que tentar furar essa bolha."

A senadora sul-matogrossense entende que o modo feminino de fazer política é diferente.

"Os homens estão precisando ter um olhar mais feminino. As mulheres são mais sérias. É muito mais difícil fazer uma proposta indecorosa ou não republicana para uma mulher do que para um homem. Mulher não é afeita a negócios. Talvez a gente tenha mais espírito público."

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Para Damares, o cenário político brasileiro caminha para um fenômeno sem precedentes nas eleições de 2026: a consolidação da mulher conservadora como força de massa. Ela faz uma distinção entre ser conservadora e cristã, embora os dois perfis se fundam em sua base eleitoral.

"Antigamente havia um pudor em se assumir conservadora. Hoje, muitas mulheres se identificam com a nossa pauta."

Damares avalia que a bancada feminina deu um "show de maturidade". Segundo ela, as senadoras decidiram ignorar pautas divergentes, como o aborto, para focar em convergências, como o aumento da pena para estupradores e a licença-paternidade.

"O Brasil achava que a gente vinha cuidar só de pauta de bebê e educação. Nós provamos que somos boas em reforma tributária, agro, economia e combate à corrupção. Não é só a 'bancada do batom'; mostramos que estamos prontas para discutir qualquer tema."

É como se enxerga também Tereza Cristina. "Minha agenda é muito mais pró-desenvolvimento. Adoro política internacional, além do agro que é o meu setor. As mulheres têm lugar onde elas quiserem."

Um exemplo foi ter provado ser possível uma senadora de oposição assumir a relatoria do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia.

"Nós aqui estamos trabalhando para o Brasil. Sou conservadora e de oposição, mas, se o governo estiver fazendo uma pauta que é boa para o país, eu vou aplaudir", afirma, ao defender uma convivência civilizada com quem pensa diferente.

Sobre a sua relação com as colegas de esquerda, Damares surpreende ao relatar sororidade real. "Nós nos gostamos, tomamos chá e choramos juntas. É difícil para os homens entenderem essa cumplicidade. Eu apanho dos conservadores por abraçar mulheres de esquerda, mas o diálogo é fácil porque elas sabem que minhas motivações são legítimas."

Essa certa independência de Damares tem custado caro. A senadora revela que suas redes sociais estão fechadas há meses devido a mensagens com ataques de conservadores. "Eles me chamam de comunista porque defendo o ECA Digital para proteger a infância, enquanto a esquerda me chama de extremista. Eu fico nesse limbo, mas sigo minhas promessas de campanha."

O ponto mais alto da tensão, porém, é com a cúpula evangélica. Recentemente, Damares trocou farpas públicas com o pastor Silas Malafaia, líder da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Malafaia a chamou de "leviana, linguaruda, cínica e mentirosa" e "indigna de ter o voto dos evangélicos", após a senadora denunciar igrejas evangélicas e pastores por envolvimento no esquema de fraudes no INSS.

"Malafaia é um pastorzinho de terceira categoria que não entende o universo feminino. Ele precisa aprender a lidar com uma mulher. Quando se chama uma mulher de 'leviana', está colocando em risco a honra dela", critica a senadora, uma das principais líderes neopentecostais do país. "Eu comprei briga com pastores a vida inteira porque sou uma pastora que não cabe na caixinha que eles montaram."

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