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Lula assume riscos ao retomar a briga com Trump

O imbróglio em torno da visita do enviado de Donald Trump ao Brasil está inserido no contexto da corrida eleitoral deste ano. O presidente Lula (PT) parece disposto a ressuscitar a briga com o americano, mas tal aposta encerra riscos.

Recapitulando, após deixar o Brasil fora de seu radar no começo do segundo mandato na Casa Branca, Trump irrompeu no cenário local às vésperas do julgamento que levou seu aliado Jair Bolsonaro (PL) à cadeia por golpismo.

Justificou de saída a elevação de tarifas de importação de produtos brasileiros criticando a então ameaça de ver o seu maior fã local atrás das grades, misturando decisões do Judiciário e do Executivo. Colocou o ministro Alexandre de Moraes à sombra da draconiana Lei Magnitsky.

Noves fora a ignorância de Trump acerca das instituições brasileiras, a percepção não veio do nada: desde os ataques do 8 de janeiro de 2023 e com um Congresso largamente hostil a seu governo, Lula alinhou-se ao Supremo Tribunal Federal no campo político e simbólico.

Isso lhe rendeu frutos, em especial quando viu seu principal rival ser condenado a mais de 27 anos de prisão por tentar subverter a eleição que o petista havia ganhado em 2022.

Mas sobrevieram ônus: não há nada de casual no fato de Lula e do Supremo amargarem avaliações negativas em níveis recordes ao mesmo tempo, como indicou pesquisa do Datafolha.

Na guerra tarifária de 2025, o bolsonarismo foi com sede ao pote, apoiando a punição de Trump ao Brasil. Lula percebeu a oportunidade e abriu uma campanha de defesa da soberania nacional enquanto costurava uma aproximação com o americano.

O petista se deu bem, com o melhor momento de avaliação de seu terceiro mandato e abrindo um canal com Trump, selado num encontro pessoal na Malásia. Até a punição a Moraes foi removida.

A questão das tarifas foi amainada e os bolsonaristas ficaram só com o prejuízo: foram marcados como traidores da pátria e não podiam mais usar Trump como seu ativo exclusivo, ao menos para a faixa minoritária do eleitorado que gosta do americano. Esse crédito pode ser jogado fora agora.

Ao vetar o visto a Darren Beattie logo após Moraes proibir que o conselheiro visitasse Bolsonaro na Papudinha, por recomendação de um Itamaraty que corretamente identificou ingerência política, Lula reforça a simbiose com o ministro que comandou o processo de condenação do ex-presidente.

A justificativa formal, de que não poderia autorizar a concessão enquanto o visto de Alexandre Padilha (Saúde) segue cassado devido à briga do ano passado, é aceitável, mas o que o presidente quer é reavivar o espírito de confronto contra o Grande Irmão do Norte.

Em seu cálculo está o fato de que Trump está no momento preocupado com coisa maior, a guerra no Irã, o que lhe permitiria surfar na imagem de defensor da soberania. Resta saber se essa carta ainda ganha rodada na mesa do jogo de 2026, na hipótese de apoio aberto dos EUA a Flávio Bolsonaro (PL).

A medida também ignora que a Casa Branca não estão tão alheia ao país numa área em que o bolsonarismo pode se aproveitar eleitoralmente, a segurança pública.

A Estratégia de Segurança Nacional de Trump, lançada em dezembro, prevê a retomada da hegemonia de Washington na América Latina. A captura de Nicolás Maduro em janeiro foi mostra de que soberania é algo relativo para o republicano.

No fim de semana passado, Trump recebeu líderes da região para convocá-los a lutar juntos contra o narcotráfico. "Os EUA estão prontos para lidar com essas ameaças e ir à ofensiva sozinhos se for necessário", lembrou sem sutileza o belicoso secretário Pete Hegseth (Defesa).

O Brasil estava ausente e voltou à baila a possibilidade de o Departamento de Estado classificar o PCC e o Comando Vermelho como grupos terroristas —algo que, no limite, enseja interferência direta.

Isso pode ser um bode colocado na sala enquanto negociações sobre o tema do tráfico se desenrolam, mas o fato é que este é um campo em que o governo federal patina sempre, para a alegria dos rivais com discurso mais radical pronto.

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