
Acompanhado de centenas de empresários, o presidente Lula (PT) visita desde ontem duas das principais economias asiáticas: Índia e Coreia do Sul. A intenção é reduzir a dependência da China ao destravar acordos comerciais que vão de carne bovina a minerais estratégicos. Desde 2023, o Brasil abriu 535 mercados, dos quais 228 ficam na Ásia, segundo o governo.
O que vai acontecer
O primeiro destino de Lula é Nova Deli, capital da Índia, onde fica até 22 de fevereiro. Com uma comitiva de 300 empresas, o presidente vai inaugurar um escritório da ApexBrasil para dar suporte a companhias brasileiras que se instalarem por lá.
O objetivo é acelerar as trocas comerciais entre os países, que em 2025 não passaram de US$ 15 bilhões. Embora a Índia seja a quarta economia do mundo, ela é apenas o décimo destino das exportações brasileiras: US$ 6,9 bilhões principalmente em minério de ferro, gorduras e óleos vegetais, açúcares, melaços e óleos brutos de petróleo.
O governo e empresários querem voltar da Índia pagando menos impostos e vendendo produtos mais caros. O Brasil deseja reduzir as tarifas indianas para óleos vegetais, algodão, feijões, etanol e frutas, na atualização do APTF (Acordo de Preferências Tarifárias Fixas), um dos pontos centrais da ampliação do acordo entre Mercosul e Índia.
Ampliar o acordo Mercosul-Índia é um dos pontos centrais da visita. A meta é expandir a lista de 450 produtos com descontos tarifários para até 4.000. A indústria nacional quer incluir produtos de maior valor agregado, como máquinas, equipamentos e produtos químicos na atualização do APTF.
Brasil e Índia também vão aprofundar acordos já iniciados em temas como segurança nacional, transição energética e novas tecnologias.
Minerais críticos e novas tecnologias

O Brasil quer atrair R$ 100 bilhões ao setor de minerais críticos até 2029. Materiais como lítio e terras raras são essenciais para a fabricação de baterias de veículos elétricos, chips e semicondutores. A Índia é vista como um bom parceiro: enquanto o Brasil tem as reservas, ela tem escala industrial para processamento, um trabalho difícil e caro. O Brasil também quer investimento indiano para processar esses minerais em solo nacional para criar sua própria indústria de eletrônicos e semicondutores.
Transição energética
A Índia está interessada na tecnologia brasileira de mistura de combustíveis. Ambos dominam a produção de etanol de cana-de-açúcar e milho. Agora, a Índia busca replicar o modelo brasileiro de mistura de combustível para reduzir sua dependência do petróleo.
Em troca, o Brasil quer a redução das tarifas de importação de leguminosas e a instalação de farmacêuticas por aqui. Os indianos são grandes consumidores de lentilha, grão-de-bico e ervilha. O Brasil também quer a instalação de farmacêuticas indianas para reduzir a importação de remédios, absorver tecnologia e abastecer o SUS (Sistema Único de Saúde).
O objetivo do encontro é acelerar a meta de atingir US$ 20 bilhões em trocas comerciais nos próximos cinco anos. "Com mais de 1,4 bilhão de habitantes, (...) a economia indiana é a que mais cresce entre os países do G20", afirmou na semana passada a embaixadora Susan Kleebank, secretária de Ásia e Pacífico do Ministério das Relações Exteriores.
Lula na Coreia do Sul

Entre 22 e 24 de fevereiro, será a vez de Lula visitar a Coreia do Sul. Na ocasião, será adotado o Plano de Ação Trienal 2026-2029 para aprofundar o relacionamento entre os países.
Um dos grandes objetivos do Brasil é exportar mais carne bovina. Quarto maior importador do produto no mundo, a Coreia do Sul compra principalmente carnes cozidas brasileiras, enquanto importa carne in natura de Estados Unidos e Austrália.
O principal entrave é sanitário. Os coreanos só aceitam carne de zonas livres de aftosa sem vacinação. Como o Brasil avança para esse status, a comitiva brasileira quer convencer a Coreia a realizar uma auditoria em frigoríficos brasileiros ainda no primeiro semestre. Em troca, o Brasil pode conceder incentivos fiscais para a produção de semicondutores coreanos em carros elétricos produzidos no Brasil.
Energia limpa e semicondutores
Diante das tensões entre China e EUA, a Coreia vê no Brasil um porto seguro industrial. Enquanto exportam tecnologia, garantem que suas fábricas não fiquem sem matéria-prima e energia limpa.
Os coreanos apostam na produção brasileira de hidrogênio verde a partir do etanol. A Hyundai promete investir até US$ 1,1 bilhão no Brasil até 2032. Parte desse dinheiro vai bancar o desenvolvimento de uma tecnologia que quebra as moléculas de etanol e libera hidrogênio para alimentar uma célula de combustível em carros elétricos, uma aposta da USP com apoio da Hyundai.
A comitiva brasileira quer insistir em um acordo que permitirá a Seul ajudar o Brasil a criar chips para automóveis. Para isso, 500 engenheiros brasileiros seriam treinados todos os anos na Coreia. Na volta, ajudariam a Ceitec, estatal de chips que o Brasil reativou em 2023.
Acordo comercial
Após anos de lenta negociação, Lula vai tentar destravar o acordo entre Mercosul e Coreia do Sul. O objetivo é concluir um texto ainda no primeiro semestre. Brasil e Argentina temem a competição com a alta tecnologia coreana, enquanto Seul dificulta o acesso de produtos agrícolas.
Durante a visita, acontecerá o Fórum Empresarial Brasil-Coreia, com 230 empresas brasileiras. O país asiático é apenas o 13º destino das exportações brasileiras — US$ 5,5 bilhões especialmente em óleos brutos de petróleo, minério de ferro, farelos de soja, álcool e café não torrado.
Queremos aproveitar o imenso potencial existente e aprofundar as relações com esse país tão relevante que é a Coreia do Sul.
Susan Kleebank, embaixadora

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2 semanas atrás
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