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Mãe de Lula foi uma leoa, mas esquecem tio Dorico

A Acadêmicos de Niterói levou Lula para a avenida. Cantou um samba com jeito de tese de doutorado e foi rebaixada. Nada a ver com a beleza da exaltação de Mestre Ciça. Cantaram a vida de Lula, em certos momentos na voz de Dona Lindu (Eurídice Ferreira de Mello), sua mãe.

Na sua voz:

"Com o peito em pedaços
Parti atrás do amor e dos meus sonhos
Peguei os meus meninos pelos braços
Brilhou um sol da pátria incessante
Pro destino retirante
Te levei, Luiz Inácio
Por ironia, treze noites, treze dias
Me guiou Santa Luzia, São José alumiou
Da esquerda de Deus Pai, da luta sindical
À liderança mundial."

Dona Lindu foi uma leoa. Viveu um matrimônio sofrido, criou oito filhos (quatro morreram na infância) e morreu em 1980, quando Luiz Inácio era uma nova liderança sindical.

Em biografias e na memória de sua vinda para São Paulo, estão lá as seis crianças, Lula com sete anos de idade. Uma escultura colocada no parque do Recife, que leva seu nome, lembra esse grupo de retirantes.

No bronze, como no samba e em todas as descrições da viagem, faltam outras quatro pessoas: Dorico, irmão de Lindu, sua mulher, Laura, e duas crianças. Somando-se um casal de adultos à viagem penosa, seu lado épico muda de qualidade.

Dorico ajudou Lindu nos seus primeiros tempos em Santos. Montou um bar e, em 1955, acolheu Lindu quando ela se livrou do marido promíscuo e alcoólatra. Já adulto, Lula recordaria:

"No quarto dormiam minha mãe, duas irmãs e eu, que era o caçulinha e podia dormir junto com as mulheres. Na cozinha, naquelas caminhas de abrir, dormiam sete ou oito pessoas. E o banheiro não tinha vaso sanitário, era bacia turca, daquelas de agachar, que usam nas cadeias."

Noutra lembrança, Lula deu mais detalhes:

"Morávamos em 13 pessoas nesse quarto e cozinha. Porque, além de todos nós que morávamos com a minha mãe —aí já estávamos os oito morando com a minha mãe—, tinha mais um primo chamado Luiz Graxa e outro primo chamado Zé Graxa. (...) Como tinha pouca comida, minha mãe comprava carne de segunda para fazer no molho, colocava bastante água e colocava aquela carne gorda, que ficava bem gordurosa. Então, aquele molho, você ia colocando farinha e colocava aquela graxa, colocava farinha para aumentar a quantidade de comida, para poder dar sustança para os barrigudinhos."

Nesses anos da infância de Lula, tio Dorico foi um porto seguro para sua família. As biografias de Lula deram pouca ou nenhuma importância a tio Dorico. Ele e seus filhos somem aos poucos. Não couberam no enredo da Acadêmicos de Niterói. Só o magnífico livro "Lula, O Filho do Brasil", de Denise Paraná, registrou sua oportuna presença com detalhes. São duas as referências nominais do biógrafo Fernando Morais a Dorico.

Na biografia e nas celebrações de Lula, Dorico cumpre o papel histórico do retirante: mesmo sendo relevante, torna-se um ausente.

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