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Metrópolis, 100 anos: o que ícone da ficção científica acertou sobre 2026

E é isso o que faz do filme um marco, pois, para Fernandes, a ficção científica funciona como manual de instruções, capaz de ser usado para o bem ou para o mal —depende de quem está no comando.

Nesse caso, Metrópolis é um filme que ficou para a história muito mais pelo fator humano do que pelo fator de invenções
Fábio Fernandes

Por mais que nós espectadores gostemos de comparar previsões com o que de fato aconteceu, o professor sugere outra forma de ver a ficção científica.

A ficção científica, mais do que tentar prever o futuro, embora às vezes acerte no futuro, é justamente tentar entender o presente. O que a gente está fazendo no nosso presente hoje. Então, Metrópolis traz essa questão.
Fábio Fernandes

Lançado no período entreguerras, o filme não foi um sucesso de audiência, mas captou um forte sentimento de incômodo com as desigualdades sociais na Alemanha e na Áustria pré-Nazismo.

Ainda que tenha imaginado um futuro com cidades gigantescas e a disseminação do trabalho automatizado, o filme acertou mesmo, palpita Fernandes, ao antever o uso da tecnologia para promover controle social e político.

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O centenário do longa reacende discussões sobre tecnologia, poder e desigualdade. O episódio destaca como o filme, mesmo sem prever smartphones ou inteligência artificial, antecipou o uso de máquinas e algoritmos como instrumentos de controle social.

Diogo Cortiz reforça o ponto ao trazer para a conversa o papel atual dos algoritmos, que decidem o que veremos nas redes sociais, quais conteúdos terão mais apelo, que pessoas mais aparecerão na timeline. Diante da visão pessimista a respeito da tecnologia, ele provoca o professor:

"Quando a gente olha para o presente, a gente vê os algoritmos cada vez mais tomando conta das nossas vidas. E aí fica a pergunta, dá para imaginar utopias? Ou a gente só consegue imaginar distopias cada vez mais realistas?"
Diogo Cortiz

A RESPOSTA ESTÁ NESTE VÍDEO

Para Fábio Fernandes, a ficção científica ainda é enxergada apenas como entretenimento, mas "Metrópolis" vai além ao tratar de questões sociais e políticas. Ele afirma que autores do gênero usam cenários fantásticos para distanciar o olhar do presente e, assim, promover reflexão. "Vamos botar uma outra capa no presente para ver se as pessoas conseguem entender um pouco melhor, se distanciar mas que seja uma distância saudável", diz.

Metrópolis acertou muito mais nisso: vamos entreter, vamos pegar cenários incríveis do expressionismo alemão, mas vamos falar também de sociedade.
Fábio Fernandes

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Futuro com IA não é tão apocalíptico assim, diz expert em ficção científica

A ficção científica antecipa o futuro ou somos nós que, quando o futuro chega, voltamos às obras antigas para reinterpretá-las?

Fábio Fernandes responde: o segredo está na forma como olhamos o passado. Segundo um dos maiores expert em ficção científica do Brasil, tudo passa por como ressignificamos experiências ao longo do tempo. Essa perspectiva aparece na forma como a inteligência artificial vem sendo retratada.

Produções antigas costumam ver a IA como ameaças, mas livros, filmes e séries recentes apresentam outras possibilidades. Sai a destruição automática. Entra a negociação, parceria e convivência.

Para Fábio Fernandes, a ficção científica continua funcionando como um manual de instruções onde o futuro pode até não ter sido previsto com exatidão, mas que oferece ferramentas simbólicas para pensar como vamos negociar num mundo em que humanos e sistemas artificiais coexistem

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Prometeu e não entregou: por que tecnologia não fez você trabalhar menos

A esperança de que a tecnologia libertaria o ser humano do excesso de trabalho nunca se realizou, avalia o escritor e professor Fábio Fernandes.

Para Fernandes, a expectativa era toda nossa, afinal o discurso de que a tecnologia traria eficiência e liberdade parte de quem domina os meios de produção. E isso ocorre desde a Revolução Industrial, quando os donos das tecnologias passaram a buscar mais produtividade e controle, e não a redução da carga de trabalho.

Perfeitamente sou capaz de dizer exatamente o momento que isso aconteceu. Revolução industrial. Josiah Wedgwood, final do século 18, na primeira linha de produção em série de cerâmica. O dono da tecnologia, o empregador, diz assim, 'eu quero colocar cada vez mais pessoas trabalhando cada vez mais'. Em momento nenhum houve uma declaração de alguma dessas pessoas dizendo, 'estou fazendo isso para que o trabalhador trabalhe menos'. Não!
Fábio Fernandes

Na prática, diz Fernandes, a tecnologia virou infraestrutura invisível, organizada por algoritmos que impõem um ritmo de trabalho contínuo e cada vez mais acelerado.

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Ficção científica é sobre humanos, não só sobre tecnologia ou alien, diz expert

Seres humanos são capazes de imaginar alienígenas? A resposta guarda uma armadilha, conta Fábio Fernandes. Para um dos maiores especialistas em ficção científica do Brasil, mesmo que criem sociedades altamente avançadas, o que as obras de ficção exploram mesmo são os conflitos humanos.

Experiências de sociedades totalmente alienígenas é uma coisa muito difícil para a gente fazer, porque a gente é demasiado humano
Fábio Fernandes

As máquinas funcionam como ferramentas narrativas para testar limites éticos, culturais e políticos. E ainda há obras de ficção científica que nem recorrem aos subterfúgios tecnológicos, partem diretamente para discutir temas como identidade, diferença social, cooperação e choque cultural entre civilizações. Segundo Fernandes, mais do que somente antecipar gadgets ou automatizações, a ficção científica é capaz de ampliar cenários e analisar valores e estruturas de poder

DEU TILT

Toda semana, Diogo Cortiz e Helton Simões Gomes conversam sobre as tecnologias que movimentam os humanos por trás das máquinas. O programa é publicado às terças-feiras no YouTube do UOL e nas plataformas de áudio. Assista ao episódio da semana completo.

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