A nova fronteira da inteligência artificial não está mais apenas em responder perguntas, mas em controlar o computador do usuário para realizar tarefas sozinho. O caso mais recente a ilustrar essa tendência é o Moltbot — renomeado às pressas para OpenClaw —, um software que promete assumir o mouse e o teclado para trabalhar por você. Embora a ideia de um "piloto automático" para o PC soe promissora, a execução dessa tecnologia trouxe à tona problemas graves de segurança, expondo arquivos pessoais e abrindo brechas para golpes digitais em questão de dias.
Diferente dos chatbots que rodam isolados na nuvem, ferramentas como o Moltbot são instaladas diretamente no sistema operacional. E isso cria um paradoxo: para serem úteis, elas precisam de acesso total a pastas, e-mails e navegadores; mas, ao conceder esse acesso, o usuário derruba as barreiras de proteção contra vírus e invasões. O entusiasmo inicial com a ferramenta logo deu lugar a alertas de especialistas, que classificaram o software como imaturo e perigoso para o usuário comum, especialmente após relatos de extensões maliciosas criadas para roubar dados de quem instalou o programa.
Para entender a dimensão desses riscos e o futuro dessa tecnologia, o TechTudo conversou com quatro especialistas do mercado. A análise a seguir reúne a visão de Wilson Silva, especialista em IA e CEO da WS Labs; Rafaela da Silva, executiva da Navita Enghouse; Igor Moura, COO da empresa de segurança Under Protection; e Fabricio Carraro, gerente de produtos da Alura e apresentador do podcast IA Sob Controle.
Moltbot (agora OpenClaw) é agente de IA que executa tarefas automaticamente no computador do usuário — Foto: TechTudo/Késya Holanda - O que é o Moltbot e como ele funciona?
- O que são agentes autônomos de inteligência artificial?
- O que aconteceu no caso Moltbot OpenClaw?
- Quais são os riscos ao usar esse tipo de IA?
- Como avaliar a segurança antes de instalar?
1. O que é o Moltbot e como ele funciona?
O Moltbot, que agora se chama OpenClaw, é uma ferramenta de código aberto que conecta modelos de linguagem (como o do ChatGPT ou Claude) diretamente às funções do seu computador. A proposta dele é sair da caixa de texto e agir. Em vez de apenas ler como se faz uma planilha, ele consegue abrir o Excel, preencher os dados, salvar o arquivo e enviá-lo por e-mail, simulando as ações de um humano.
Segundo Fabricio Carraro, da Alura, a grande diferença técnica é que o "cérebro" da IA continua na nuvem processando as ordens, mas as "mãos" do sistema estão na sua máquina local. O software tem permissão para mover o mouse, digitar textos, abrir aplicativos e navegar na web.
Para funcionar, o Moltbot exige que o usuário instale um ambiente de execução (terminal) e forneça chaves de acesso (APIs). Igor Moura, da Under Protection, compara a ferramenta a um "maestro" dentro de casa, pois ele gerencia o que sai e o que entra no computador, agindo como uma ponte entre a inteligência da IA e os seus arquivos locais. O problema é que essa ponte, no caso do Moltbot, foi construída sem as devidas travas de segurança.
2. O que são agentes autônomos de inteligência artificial?
Moltbot: a IA viral que age por conta própria e chama atenção — Foto: Sandra Mastrogiacomo/TechTudo Para entender o risco, é preciso entender o conceito de "agente". Enquanto um chatbot tradicional (como a versão gratuita do ChatGPT) funciona como um oráculo que dá conselhos e respostas, um agente autônomo funciona como um estagiário proativo.
Igor Moura explica essa distinção de forma simples:
- Chatbot: Você pede um roteiro de viagem e ele entrega uma lista de texto.
- Agente Autônomo: Você pede para planejar as férias e ele entra nos sites, reserva o hotel, compra a passagem e coloca o compromisso na sua agenda.
"A palavra-chave é ação", define Moura. O agente tem capacidade de planejamento. Se ele encontra um erro, tenta contornar sozinho. Rafaela da Silva, da Navita Enghouse, alerta que essa autonomia quebra o limite entre assistência e controle. Na prática, você entrega "poderes de administrador" para um software que vai tomar decisões e clicar em botões sem que você precise autorizar cada passo. É uma evolução natural da tecnologia, mas que exige um nível de confiança muito maior do que apenas conversar com um robô.
3. O que aconteceu no caso Moltbot OpenClaw?
O lançamento do Moltbot foi marcado pelo que Wilson Silva chama de "anatomia de um ciclo de hype acelerado". Em menos de 72 horas, o projeto passou de uma novidade curiosa para um problema de segurança pública na comunidade de tecnologia.
Moltbot: tudo o que você precisa saber sobre a nova IA — Foto: Arte: TechTudo Os principais eventos do caso foram:
- Viralização: O software prometeu autonomia total e atraiu milhares de downloads imediatos.
- Disputa Legal: O nome original e a tecnologia incomodaram a Anthropic (criadora do modelo Claude), forçando a mudança de nome para OpenClaw (e anteriormente Clawdbot).
- Falhas de Segurança: Especialistas encontraram vulnerabilidades que permitiam que o agente fosse "sequestrado" por comandos externos.
- Golpes: Criminosos aproveitaram a fama do nome para criar criptomoedas falsas e extensões maliciosas.
Wilson Silva destaca que a empolgação superou a análise técnica. O software foi disponibilizado como código aberto, mas sem a governança necessária. Isso permitiu que versões modificadas e perigosas circulassem livremente, expondo usuários que apenas queriam testar a novidade.
A corrida por visibilidade levou à divulgação de ferramentas que não estavam prontas para uso massivo
— explica Wilson Silva
4. Quais são os riscos ao usar esse tipo de IA?
O principal perigo, segundo os entrevistados, é a exposição invisível de dados. Rafaela da Silva aponta que o risco vai muito além de perder um arquivo de texto. Como o agente tem acesso ao sistema, ele pode ler:
- Cookies de navegação e senhas salvas no navegador;
- Chaves de acesso bancário e tokens de sessão;
- Backups de conversas de WhatsApp ou Telegram;
- Documentos sensíveis (contratos, fotos pessoais).
Outro ponto crítico levantado por Fabricio Carraro é o erro de interpretação. Um agente bem-intencionado pode entender errado um comando e apagar uma pasta importante ou enviar um e-mail corporativo para o destinatário errado. Como ele é autônomo, ele faz isso rápido, muitas vezes antes que o usuário consiga intervir.
Além disso, existe o risco de execução de código malicioso. Rafaela explica que o usuário não precisa necessariamente clicar em um vírus. Se o agente autônomo acessar um site infectado para "ler uma informação", ele pode acabar baixando e executando um malware automaticamente, já que ele tem permissão para operar o sistema.
A automação, que é o diferencial, torna-se o principal vetor de risco
— alerta Rafala da SIlva.
5. Como avaliar a segurança antes de instalar?
Diante de tantas promessas de produtividade, como saber se uma ferramenta é segura? Os especialistas concordam que, hoje, o uso desses agentes no computador principal, onde você acessa seu banco e e-mail pessoal, não é recomendado para usuários leigos.
Algumas dicas para avaliar riscos incluem:
- Verifique as Permissões: Se a ferramenta pede acesso total sem explicar o motivo ou sem oferecer um modo de "caixa de areia" (ambiente isolado), desconfie.
- Cuidado com "Comandos Mágicos": Tutoriais que pedem para você colar códigos no terminal que você não entende são um sinal vermelho.
- Evite a Pressa: Projetos que acabaram de ser lançados e estão no auge do "hype" costumam ter falhas não descobertas. Fabricio Carraro sugere esperar a maturação da tecnologia.
- Busque Fontes Técnicas: Wilson Silva recomenda um "ceticismo saudável". Procure análises de especialistas em segurança, e não apenas de influenciadores que mostram a ferramenta funcionando.
"A tecnologia avança rápido, mas a maturidade em segurança ainda não acompanha esse ritmo", finaliza Rafaela. Por enquanto, o Moltbot e similares devem ser tratados como experimentos para desenvolvedores, e não como assistentes prontos para o dia a dia do consumidor final.
Veja também: Como fazer a trend dos objetos falantes com IA: veja passo a passo
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