O Dia Internacional da Mulher, celebrado hoje (8), costuma ampliar discussões sobre desigualdade de gênero e diferentes formas de violência enfrentadas por mulheres. No ambiente digital, esse debate também ganha espaço diante de episódios cada vez mais frequentes de ataques direcionados ao público feminino nas redes sociais. Comentários misóginos, tentativas de descredibilizar opiniões e até conteúdos manipulados por inteligência artificial, como imagens falsas que sexualizam mulheres sem consentimento, fazem parte de um cenário que tem chamado a atenção de pesquisadores e especialistas em saúde mental.
Embora essas agressões aconteçam por meio de telas e comentários, seus efeitos não ficam restritos ao ambiente virtual. Para entender como esse tipo de violência pode afetar o cérebro, o comportamento e o bem-estar emocional das vítimas, o TechTudo entrevistou duas especialistas na área. A psicóloga Erica Lopes Rodrigues, professora de Saúde Mental na DomEduc, e Brunna Dolgosky, psicóloga, hipnoterapeuta e pós-graduada em arteterapia, explicam por que as redes sociais podem se tornar ambientes especialmente hostis para mulheres, o que acontece no cérebro diante de ataques online e quais são as consequências psicológicas dessa exposição contínua. Veja a seguir.
O TechTudo consultou duas especialistas para falar sobre os impactos do assédio digital em mulheres; confira — Foto: Reprodução/Pexels A normalização da violência digital em mulheres
A violência direcionada às mulheres não surge apenas do ambiente digital. Especialistas apontam que esse comportamento reflete desigualdades que já existem na sociedade e acabam ganhando ainda mais visibilidade nas plataformas online.
Segundo Erica Lopes Rodrigues, psicóloga e professora de Saúde Mental na DomEduc, escola de Educação Corporativa do Grupo Domingues, "é importante lembrar que a internet não é um espaço neutro. Ela é construída e alimentada todos os dias por pessoas. Portanto, acaba refletindo valores, conflitos e desigualdades que já existem na sociedade”. Como esses problemas não são novidade, eles acabam sendo normalizados também na web.
Segundo ela, “basta observar alguns movimentos que ganharam força nas redes, como certos grupos da chamada 'red pill', que defendem papéis extremamente rígidos para homens e mulheres. Nesses espaços, a mulher costuma ser retratada em posições de submissão e frequentemente há tentativas de controlar como ela deve se comportar, se vestir ou se apresentar”.
Apesar das semelhanças com o “mundo real”, Erica aponta uma diferença: “nas redes sociais, essas dinâmicas podem ganhar mais visibilidade e intensidade, principalmente por causa da lógica de engajamento e da polarização que muitas vezes organiza os debates online.”
Desigualdade de gênero que existe na sociedade acaba se estendendo às redes sociais — Foto: Reprodução/Freepik O que acontece no cérebro diante de um ataque online?
Comentários hostis podem ativar áreas cerebrais relacionadas à dor e ao estresse. De acordo com Brunna Dolgosky, psicóloga, hipnoterapeuta e pós-graduada em arteterapia, “o assédio digital costuma provocar uma resposta emocional intensa porque o cérebro humano interpreta rejeição social como uma ameaça real. Estudos em neurociência mostram que áreas como o córtex cingulado anterior, relacionadas à dor social, são ativadas quando alguém sofre humilhação pública ou exclusão. Em mulheres, que muitas vezes são socializadas para valorizar vínculos e aprovação social, esse impacto pode ser ainda mais sensível”.
Ela destaca que “na prática clínica, é comum observar sentimentos de vergonha, hipervigilância, insegurança e medo de exposição. Muitas passam a revisar compulsivamente comentários ou evitam se expor. Em níveis mais profundos, o assédio repetido pode afetar a autoestima, gerar sensação de desamparo e ativar memórias emocionais antigas de rejeição ou crítica.”
“Essa exposição repetida pode desencadear sintomas semelhantes aos observados em experiências traumáticas presenciais. Entre eles estão insônia, pensamentos intrusivos, sensação de perseguição e respostas emocionais desproporcionais a novas interações online. O sofrimento não está apenas na tela. Ele é processado biologicamente no sistema nervoso.”, completa Brunna.
Ataques online geram diversos impactos no cérebro das mulheres — Foto: Reprodução/Pexels Por que o impacto é maior em mulheres?
Além da maior frequência de ataques direcionados ao público feminino, fatores sociais e culturais também ajudam a explicar por que a violência digital pode ter efeitos mais intensos entre mulheres. Erica Lopes Rodrigues explica que “a violência contra a mulher é estrutural e, no mundo digital, não seria diferente. Raramente vemos assédio ou outras formas de violência acontecendo com a mesma frequência no público masculino. A internet acaba ampliando o que já acontece fora dela, como ataques sexualizados, misóginos e relacionados à aparência".
A especialista acrescenta que muitas mulheres já acumulam experiências anteriores de violência ou desrespeito, o que pode intensificar o impacto emocional de novos episódios. “A mulher que recebe um ataque virtual hoje raramente está vivendo a primeira situação de agressão. Ao longo da vida, muitas já passaram por assédios, comentários ofensivos ou situações de desrespeito. Ou seja, emocionalmente já existe um histórico de exposição que torna esses episódios ainda mais impactantes”, finaliza.
As consequências psicológicas
O recebimento de comentários agressivos pode provocar mudanças emocionais e comportamentais significativas, principalmente quando os ataques se tornam frequentes. De acordo com Brunna Dolgosky, “a exposição constante a críticas hostis ou ataques pessoais cria um ambiente psicológico de ameaça permanente. O cérebro passa a antecipar perigo sempre que a pessoa entra em uma rede social ou vê notificações”.
Ela explica, ainda, algumas mudanças de comportamento que resultam desse tipo de ataque. “Muitas mulheres passam a reduzir postagens, evitam expressar opiniões ou editam excessivamente o que dizem por medo de julgamento. Esse comportamento é um mecanismo natural de autoproteção psicológica".
“Do ponto de vista psicológico, isso é um exemplo de condicionamento emocional. O cérebro aprende que a exposição pode trazer dor social e tenta evitar novas experiências semelhantes. Embora seja uma estratégia compreensível, ela também pode gerar autocensura e sensação de perda de liberdade”, afirma a psicóloga.
Dolgosky destaca que "algumas mulheres desenvolvem crenças profundas de inadequação ou medo de julgamento público. Em abordagens terapêuticas como a hipnose clínica, muitas vezes observamos que esses episódios ficam registrados em níveis subconscientes e continuam influenciando comportamentos e emoções mesmo quando a pessoa tenta racionalizar o ocorrido”.
Ataques recebidos na web resultam em mudanças emocionais e comportamentais nas mulheres — Foto: Reprodução/Freepik O anonimato aumenta a agressividade?
Erica explica que “a relação entre anonimato e agressividade vem sendo cada vez mais estudada pela psicologia social e comportamental. A internet cria uma diminuição das barreiras sociais que normalmente ajudam a regular o comportamento humano”.
“O anonimato pode reduzir a sensação de responsabilidade social, desumanizar quem está do outro lado da tela e gerar uma espécie de desinibição. Soma-se a isso o chamado “efeito manada”, quando outras pessoas entram na agressão e reforçam aquele comportamento. Nesse contexto, o anonimato acaba facilitando a violência”, reforça Rodrigues.
Anonimato proporcionado pela web tem impacto direto na isenção de responsabilidade social — Foto: Reprodução/Freepik Como se proteger emocionalmente?
Apesar do ambiente digital poder ser hostil em alguns contextos, especialistas apontam que algumas estratégias podem ajudar a reduzir o impacto emocional dos ataques. Brunna Dolgosky explica que “o primeiro passo é compreender que o ataque não define a identidade da pessoa. Separar crítica externa de valor pessoal é essencial para preservar a autoestima.”
“Também é importante reduzir a exposição ao conteúdo hostil, buscar apoio social e fortalecer recursos internos de regulação emocional. Técnicas de respiração, mindfulness e hipnose terapêutica podem ajudar o cérebro a sair do estado de hiperalerta e reorganizar a resposta emocional”, acrescenta.
Dolgosky também destaca que “em alguns casos, trabalhar cognitivamente a interpretação dos comentários também é fundamental. O cérebro tende a amplificar críticas, mas a realidade muitas vezes é menos absoluta do que parece no momento da dor”.
Utilizar ferramentas das próprias plataformas, como bloquear pessoas e desativar comentários, também pode ajudar a preservar o equilíbrio emocional. “Isso não é fuga. É uma estratégia saudável de higiene psicológica. O cérebro humano não foi projetado para lidar com centenas ou milhares de críticas simultâneas vindas de desconhecidos”, destaca Brunna.
Segundo a psicóloga, definir limites no uso das redes também é fundamental. “O uso saudável das redes envolve estabelecer filtros emocionais e digitais. Isso inclui controlar tempo de exposição, selecionar quem pode interagir e lembrar que redes sociais amplificam opiniões extremas”.
“Do ponto de vista psicológico, também é importante desenvolver uma identidade que não dependa exclusivamente da validação online. Quando a autoestima está ancorada em valores internos e relações reais, o impacto emocional de ataques virtuais tende a diminuir”, conclui.

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